HISTÓRIA NÃO ESCRITA II

Em 2008 o Banco do Brasil comemorou duzentos anos de fundação e resolveu resgatar a memória de duzentos anos de sua história, publicando um livro intitulado “200 anos, 200 histórias.

O livro é composto de duzentas crônicas apanhadas no Boletim Interno de Pessoal (Bip) que circulou a partir de 1978 e teve sua última edição, aproximadamente, dez anos depois.

Sem dúvida, é uma volta ao passado, no bom sentido, porque naquele tempo tudo parecia ser muito bom. Dizia-se até que o banco era uma mãe, pagava bons salários e dava status. Nas pequenas cidades do interior do Brasil, as mães abençoavam as filhas assim: “Deus te dê um marido bancário”.

Nos primeiros dias de trabalho, eram, praticamente, inevitáveis os trotes: mandava-se o precário buscar a máquina de procurar diferença. Cobrava-se uma taxa a título de assinatura do BIP, e depois, farreávamos com o dinheiro do novato...

Normalmente, o iniciante era empossado no setor rural, numa seção que exigia pouco conhecimento dos serviços bancários, como protocolar contratos, colher assinaturas em cédulas de empréstimos, coisas desse tipo.

Também ali, aplicavam trotes. Faziam uma lista de proponentes, e, no meio deles, incluíam algum nome nada convencional: Jacinto Fortes Dores... e o novato declina em voz alta, repetidas vezes: Jacinto Fortes Dores, Jacinto Fortes Dores... como ninguém atendia por este nome, só se dava conta da gafe quando ouvia a zoeira de risada dos colegas.

Era um setor bastante tumultuado, porque grande número de pessoas se dirigiam ao banco para assinarem seus contratos, principalmente, na época do custeio agrícola.

Tudo controlado em simples cartolina, as contas de depósitos, as operações de crédito...tudo. Já o controle da numeração de empréstimos era feito em fichas semelhantes àquelas que até bem pouco tempo, se fazia ao ler um livro...

O mais recente funcionário empossado ficava aguardando outro mais novo tomar posse para substituí-lo, pois o atendimento ao público era desgastante. Foi aí que chegou o “Serrinha”. Ele ganhou este apelido por ter vindo de Serrinha na Bahia...

O mais “antigo” passou o serviço. Ensinou direitinho como arquivar e organizar as fichas de controle: EPC, EPI, EGF e outros... Em dado momento, pediu que o “Serrinha” lhe trouxesse a ficha de EGF, que significa empréstimo do governo federal.

“Serrinha”não encontrou a ficha e afirmava categoricamente – não existe ficha com esse nome!

Olha a ficha aqui – disse o outro.

- Mas... mas, essa aí, essa aí é ÉGUÊFÊ