DEUS LHE PAGUE

“(...) Até que um dia,

o mais frágil deles

entra sozinho em nossa casa,

rouba-nos a luz, e,

conhecendo nosso medo,

arranca-nos a voz da garganta.

E já não podemos dizer nada.(...)”

Dizem, constantemente, que o “brasileiro não desiste nunca”. Não sei se posso dizer o mesmo, mas que luta constantemente é público e notório. Assim se justifica a vibração coletiva quando da derrota do governo no episódio da queda da CPMF.

Objeto de extorsão sobre o povo, foi criada como contribuição provisória e renovada seguidamente, incidindo sobre todos de forma inapelável. Por ocasião da luta pela sua manutenção, o Presidente chegou a tachar de “sonegadores” aqueles que contra a mesma lutavam, esquecendo-se de – ou não sabendo - que muitos destes não tinham nem mesmo o que sonegar. Guardadas as devidas proporções, assemelhava-se à cobrança do quinto, em períodos coloniais. Só faltou a derrama.

Passado o imbróglio, a vitória dos “sonegadores” foi manchada por acusações de impatriotas, mercenários e vilões do subdesenvolvimento nacional. Retaliações mil foram tramadas pelos emissários governamentais, como redução de investimentos, impedimento de estágios e cancelamento de concursos outrora programados. A taxa de juros manteve-se no mesmo patamar, apesar de as relativas aos créditos sofrerem acréscimos assustadores e inibidores.

O mais aterrorizador de todos foi o famigerado cartão de crédito, até então arma de quem não pode arcar com seus débitos a vista. O seu parcelamento se tornou proibitivo.

Mas veio a tona o uso do cartão cooperativo do governo. Ou parte de seu uso, pois, sob o manto da proteção da segurança nacional, grande parte do mesmo continua tão na obscuridão quanto eram as ações dos porões ditatoriais. Aquilo de que se teve conhecimento estarreceu os pobres mortais, os que sacam de seu cartão para apresentar em pequenas compras com uma pontada no peito; que, antes do cartão, sacam uma calculadora. Aqueles que anotam cada gasto de seu cartão, por menor que seja, em pequenos pedaços de papel de embrulhar pão, pois sabem que, inapelavelmente, a fatura virá, e seu pagamento se fará com os míseros recursos próprios.

Estarreceu, pois se trata de gastos com luxos, como vinhos e carnes importados e especiais, como “nunca se viu na história desse país”. Estarreceu, pois se trata de compras em pet shops, quando muitos brasileiros andam pagando oito reais por um quilo de feijão – quando conseguem. Estarreceu, pois se alegou preconceito na divulgação dos gastos indevidos da então ministra responsável pela eliminação do mesmo.

Resta a nós, pelo menos, a esperança de que, finalmente, tenhamos atingido a plena liberdade. Pois, se um dia Geraldo Vandré foi exilado por falar de flores, hoje vê uma das Armas Nacionais comprando-as. Com o nosso dinheiro, é claro, mas... dos males, o menor. E quantas vezes, viajando a duras penas, a trabalho, pelo Brasil, penei em escalas em aeroportos, mais notadamente Brasília, vendo o free shop. Tão inacessível! Tão perto de mim, mas tão distante de minhas possibilidades!!! Nem um presentinho para sobrinhos, pais ou amigos! Mas hoje vemos, através dos exemplos dos ministros, que já não é bem assim: basta sacar um cartão corporativo e...

... E o que mais se encontra escondido? A cada página de jornal, a cada edição de uma revista ou telejornal, mais entulhos vão surgindo. A vergonha nacional, ou a falta dela, não assombra mais, e já não se tenta mais disfarçar a falta de caráter.

É motivo de orgulho para nós podermos sacar um cartão de crédito e saber que podemos, ao final do mês, usá-lo novamente, pois nos encontramos quites com nossas obrigações. A única coisa que tememos é que seu limite esteja estourado. Mas, como o usamos comedidamente, sabemos, geralmente, o quanto gastamos, o quanto ainda há de crédito, e o quanto poderemos gastar, pois nosso salário é finito.

Quem nos dera pudéssemos ter um cartão ilimitado, como o corporativo! Poder fazer nossas compras para o dia-a-dia, pagar as faturas relativas à compra da ração de nosso cão, quem sabe sacar um pouquinho para o pagamento da tarifa do ônibus. Sim.

Enquanto há muitas pessoas andando de bicicleta, ou mesmo a pé, por não terem como pagar o ônibus, cuja tarifa sobe constantemente, há pessoas, que nos representam, usando, além dos carros oficiais, outros alugados. Enquanto há pessoas que não podem tomar um refrigerante, há outras pagando despesas de noitadas com o dinheiro do povo.

Se são nossos representantes, deveriam viver tais quais os representados. Tão parca e nobremente quanto. Gostaria de ser representado por pessoas mais dignas e confiáveis. Há muito tempo lutamos por dias melhores, há muito tempo lutamos pela democracia. Para ver nossos direitos respeitados. Para nos sentirmos cidadãos. Para nos vermos livres da exploração. E o que encontramos, a cada dia, são esmolas sendo doadas a título de bolsas, de promoção da igualdade social. Paralelamente a essa embromação, temos uma verdadeira espoliação de nossos valores pessoais e pecuniários. Concedemos esse direito a eles, democraticamente, aos poucos, dia após dia, nas lutas nas ruas, nos quartéis, nas urnas. Cedendo um pouco aqui, um pouco acolá. Perdoando pequenos deslizes, sem vislumbrarmos as conseqüências de umas poucas falhas. Assustamo-nos com a falta que farão 40 bilhões de reais no orçamento, causada pela ausência da CPMF e ainda nos sentimos culpados por isso. E relevamos pequenos gastos anuais de alguns milhões em nosso nome. Em gastos com compras de não usufruímos. E de que, na maioria das vezes, nem tomamos conhecimento. E seguimos avalizando cada um desses gastos. O pior é que ainda somos levados a pensar que tudo isso é feito para o nosso bem. Deus lhe pague!

"Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir /

A certidão pra nascer, e a concessão pra sorrir /

Por me deixar respirar, por me deixar existir / Deus lhe pague..."

Pabinha
Enviado por Pabinha em 05/02/2008
Reeditado em 18/02/2008
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