A PÁSCOA DE ANTIGAMENTE NA CIDADE DOS BEZERROS - PE

“Hoje, o coelhinho da Páscoa traz um recado especial: Jesus está vivo!”

No meu tempo de criança não existiam coelhinho e ovo de chocolate como símbolos de páscoa. Nos dias de hoje tudo está diferente: no mundo infantil Jesus encontra-se ausente. Uma pena.

Tanta coisa boa poder-se-ia transmitir às crianças a respeito das belas mensagens ensinadas por Jesus, o Cristo das crianças, o mensageiro da verdade eterna.

No meu tempo de criança a quarta feira da paixão prenunciava o tríduo pascal através da Procissão do Encontro tendo o Jesus Cristo dos Passos com indumentária nova, presente ofertado por Dona Cação como também o manto dourado da Virgem das Dores. Era uma encenação emocionante quando as duas imagens se encontravam – a Virgem das Dores – o retrato do sofrimento – Jesus Cristo conformado, seguindo a sua cruz. Depois, na Quinta Feira Santa, o início do tríduo pascal, a Santa Missa da Instituição da Eucaristia, precedida pelo lava pés. Fui uma criança escolhida por Seu João Chalegre como um dos 12 participantes da cerimônia do lava pés, tendo como celebrante o Padre José Florentino. O padre santo dos Bezerros beijou o meu pé.

Amanhece o dia mais religioso de todos os dias: a Sexta Feira Santa, a Sexta Feira da Paixão. Na época, muita gente se cobria de luto, o respeito era completo, pouco se falava, era o dia que ninguém falava da vida alheia. O jejum era completo, o almoço era servido tendo como componente principal o peixe de água doce ou bacalhau, tudo regado à leite de coco. À tarde, a cerimônia da Paixão quando era descrita a paixão em latim. Na época não existiam ministros da eucaristia, a comunhão era distribuída unicamente pelo também sofrido e cansado Padre José Florentino que depois de alguns anos recebeu o título de Monsenhor. Devido aos grandes números de fiéis que comungavam, poder-se-ia imaginar as horas e horas que o santo padre dos Bezerros escutava em confissão, o grande número daqueles que procuravam se purificar através da confissão. Árdua missão de um padre naquele tempo em que imperava o rito tridentino. Em algumas cerimônias, alguns outros padres participavam da cerimônia, como o Padre Lalau.

A cerimônia da Ressurreição de Jesus acontecia por volta das 9 horas da manhã de sábado – conhecido por sábado de aleluia. A cidade dos Bezerros, temerosa, em silencia, aguardava o Padre José Florentino “achar a Aleluia”. Caso o nosso padre santo não “achasse a aleluia” o mundo iria acabar. As crianças, encolhidas, sem nada entender a respeito daquilo tudo. A população aguardava o sinal do “achado”. Como seria o sinal? O velho Manoel Leite era o arauto que transmitia essa verdade eterna: Jesus Ressuscitou, o Aleluia foi encontrado! Os sinos repicavam festivos proclamando aos quatro cantos da cidade que Jesus Cristo vencera a morte! Os fogos, confeccionados por Seu Xico Paulino espocavam. O maestro Velho Manuel Leite era a grande sensação do momento, restituindo a alegria que fora roubada durante a quaresma. A cidade explodia em uma incontida alegria! Jesus Ressuscitou, Aleluia! O aleluia foi encontrado, segundo a crença da época. Que aleluia foi perdida, que Aleluia foi escondida? Foi o capeta que fez isso para espalhar o temor entre a população bezerrense?

Sinto o verdadeiro sentido da páscoa quando, recolhido, escuto a obra sinfônica de Rimski-Korsakov “A grande Páscoa russa” é linda”. E agora percebo que faz muito tempo que não a ouço.

Infelizmente, quase o total da população católica acredita em Deus por temor, pois se não acreditarem, Deus enviará algum castigo...

Para a maioria, a Páscoa não determina sentido algum, é como o canto da cigarra que ao amanhecer ou ao cair da tarde canta, e canta, e encanta, deixando uma casca presa no tronco ou na folhagem da árvore. Vazia. Já sem vida. Sem nada lá dentro. Contudo, nessa casca já existiu uma vida que cansada dessa prisão na casca, cantou, tanto cantou, que criou assas e partiu rumo ao céu. A Páscoa hodierna, com seus entretenimentos inconscientes, inconsistentes até, com seus ovos de chocolate, é celebração de um tempo que não existe mais, tempo em que se acreditava. Os ovos de chocolate, sabemos, são tão ocos quanto as cascas de cigarra…

Obs. esse último parágrafo foi baseado numa citação que li e me identifiquei com o autor que, infelizmente, não constava o seu nome.

Carlos Lira

clira
Enviado por clira em 16/04/2022
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