Confissões

A serraria ficava na Rua São José, esta que foi rebatizada posteriormente de Rua Vereador Jesus Martins. A assombrosa máquina que transformava imensas toras em tábuas e originava montanhas de serragem, produzia em mim um misto de fascinação e pavor. Estava ali, meio trêmulo, com um feixe de finas tábuas de caixote que o Sr. Zé Procópio ou o seu auxiliar, o Sr. João do Doce, pacientemente abria para mim em finas ripas com um centímetro de espessura, numa serra circular. Devia ter uns treze anos e já trabalhava na fábrica, mas gastava meu tempo livre naquele moroso quefazer, que para a tranqüilidade de meus pais, me mantinha entretido em casa.

Tinha começado minha pequena produção havia alguns anos usando outros materiais. Primeiramente cambaúba, uma espécie muito delicada de bambu que dava peças muito bonitas e de boa saída comercial, também usei o talo das folhas da bilosca. Ambas, porém apresentavam dificuldades. Pra conseguir a primeira tinha que vencer longas distancias a pé, pelo mato, a segunda mais fácil de conseguir, além de pouco durável, apresentava formato despontado e curvo que dificultava a confecção das peças. Então descobri que as tábuas de caixote, geralmente madeira de pinus, abertas daquela forma na serraria, davam gaiolas perfeitas. Bonitas e duráveis.

A molecada do meu tempo não conhecia a expressão “consciência ecológica”. Caçávamos aves maiores para o abate e aprisionávamos passarinhos. Os adultos não nos censuravam. Aliás, aprendi com meu pai muitas armadilhas de caça e pesca. Instrumentos engenhosos como jequis, arapucas, alçapões, esparrelas, paris, laços. Uma infinidade. Tudo isso depois virava moeda de troca, com que eu adquiria bolinhas de gude, troles e pipas ou pagava algum resgate ou o silêncio de algum maroto chantagista.

Quando afirmo que o mundo tem jeito me baseio nessas mudanças de costume coletivo que tive oportunidade de vivenciar. Nesse exemplo citado, a mudança ocorreu no curto prazo de uma geração. Para meus filhos a idéia da caça é inconcebível, sobretudo a passarinhos. Em alguma coisa estamos melhorando.

Carlinhos Colé
Enviado por Carlinhos Colé em 09/05/2018
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