LEIS PARA OS OUTROS

 

Era cedo, aproximadamente 9 horas da noite quando chegamos em casa. Eu, minha esposa e meu casal de filhos. Uma amiga nos trouxe de carro, depois de ter nos levado para devorar 3 pizzas grandes de carne seca. Com o corpo e a consciência mais pesados, chegamos em casa. A rua em que moramos fica nas proximidades de 2 bares muito movimentados. Os carros dos clientes se esperramam pelas ruas adjacentes estacionados em fila dupla, em algumas calçadas e, por 10 reais, em alguns estacionamentos pagos. Minha rua fica apinhada de carros. Os fiscais da AMT (Agência Municipal de Trânsito) ficam rondando a área, isso ocasionalmente. Fazem isso não para o educar o trânsito, sim para emitir multas, que ao que parece ser a função precípua desse orgão municipal. Isso para tapar alguns buracos da arcada dentária da Prefeitura, que está pior que os dentes dos jogadores da seleção brasileira da década de 50. Quando íamos subir pela rampa que dá acesso ao portão, vimos que ela estava ocupada pelo carro dos fiscais da AMT, com suas luzinhas rodando, tornando rubra toda a rua. Então nossa amiga parou o carro no meio da rua mesmo, pois não havia como estacioanar, pra rapidamente a gente descer. Então os "guardinhas", assim no diminutivo os fiscais são por aqui tratados, já vinham para nosso rumo com uma maquininha na mão, tipo aquelas de cartão de crédito. E em tom raivoso e cheio de razão, diziam:
_ Você serão multados, estão atrapalhando o trânsito. Vocês não sabem que não podem "estacionar" no meio da rua?
Deu um súbito nervosismo, nem sei o que respondi, e se soubesse não diria, com medo de cometer por escrito algum tipo de desacato à autoridade. Por isso eu invento o que disse, omitindo alguns xingamentos imaginários:
_ Sim, sabemos. O que a gente não sabia é que isso não se aplica a vocês. Sim, vocês podem nos multar, mas quem é que vai multá-los? Sairíamos da rua se vocês saíssem do rumo de nossa gararem. Oh!, desculpe, da garagem de vocês.
Os dois recuaram, entraram no carro, e devem ter ido pra outra calçada procurar novas vítimas. Não nos multaram, pois cara-de-pau tem limites. Não sei qual, mas deve existir. Mas grassa o sentimento e a percepção de que lei é uma coisa pra os outros. O que desejo falar em outra ocasião, quando eu estiver com menos preguiça. Depois que entrei em casa, tomei um sal de frutas, pois a pizza gerou um vulcão no meu estômago.


 



 
José Eustáquio Ribeiro
Enviado por José Eustáquio Ribeiro em 03/06/2015
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