ÓCULOS  
 
      Ela é intensa em tudo que faz.  É dessas pessoas plugadas em 220. Até no sofrimento.
      Aliás, para sofrer, ela não precisa de acontecimento muito expressivo não. Bastam simples pegadas no chão branco da cozinha quando volto do supermercado.
      No início, havia uma natural solidariedade em suas preocupações, mas com o passar do tempo este sentimento foi dando lugar à lógica da razoabilidade, e passei a estabelecer uma posição mais realista no  gradiente de suas aflições, diante de cada acontecimento que a fazia sofrer. Para ela, demonstro sempre a mesma consternação, pois é quem prepara minha comida.
      Penso em algum trauma dela em relação ao uso de óculos, pois não há um dia sequer que não entoa na casa: “— alguém viu meus óculos? Ai, meu Deus!”  
      Recusa-se a usar a correntinha no pescoço, como algumas professoras. Meio irritada diz que não é idosa, mesmo com o prateado dos cabelos a lhe desmentir.
      Ninguém liga mais para sua preocupação com o sumiço dos óculos. Claro que a ajudo na procura, mas sem estresse.
      Noutro dia encontrei os óculos dentro de um vaso de plantas, mas ela não acreditou.
      Não entendo por que Santo Antonio e São Longuinho ainda dão ouvidos a ela. Entendo, sim, são santos.
      Valendo-se de ser fervorosa devota de Santa Therezinha, já a vi envolver a santa em situações mais agudas. Que eu saiba, é santa poderosa sim, mas sem nenhuma tradição em localização de objetos perdidos.
      Bem, se fé remove montanhas, que dirá achar um par de óculos. Pra perto.
      Certa vez, na assinatura de um documento no centro da cidade, descobriu que os óculos ficaram em casa (!). Como não havia tempo útil para recorrer à instância sagrada, valeu-se, emergencialmente, do comércio prêt-a-porter  alternativo (camelô). É o que lhe tem valido, quando a ausência das lentes se estende por mais de um dia.  
      Hoje, no carro, na volta de um shopping, uma explosão de alegria: obrigado! Obrigado! Olhando para o teto do carro.
      Pensei: ôba, vamos trocar de carro! Era dia de sorteio da mega-sena.
      — Que foi Arlete?
      — Foi você quem achou meus óculos? Disse enfática.
      — Não.
      — Jura?
      — Pela tanajura!
      — Não acredito! Eu louca há três dias e eles aqui na bolsa! Na bolsinha interna! Como pode, se esvaziei a bolsa em cima da cama?
      É que  ela virou a bolsa tão rápido, que não deu chance dos óculos caírem junto com a tralha que ela carrega. São pelo menos dois quilos de objetos que podem ser úteis em algum momento. Tenho certeza de que vi uma moeda de quatrocentos réis, mas não tive coragem de perguntar nada a respeito.
      Pode ser talismã...
      Ai, meu Deus! E meus óculos, onde estão?