Esperança- antiga promessa de salvação?

Nada está destinado a repetir-se infinitamente sem jamais mudar.Esperamos mais uma vez que a sujeira possa ser varrida da nossa história.

É impossível ficar inerte e distante do que está acontecendo no nosso amado Brasil.Não estou presente fisicamente como bem gostaria mas aqui também manifesto com todo coração e sentimento meu apoio e solidariedade aqueles que, conscientemente vão às ruas reivindicar por mudanças concretas no cenário político e econômico do nosso país.

Recorro à lembrança de um romance histórico e inigualável,Il Gattopardo que de certo modo simboliza como é possível perceber os fatos do momento.

Chevalley pensava:"Este estado de coisas não durará,a nossa administração,nova, ágil,moderna mudará tudo." O príncipe era deprimido."Tudo isto-pensava-não deveria durar,mas durará para sempre.O sempre humano,entenda-se:um século,dois séculos...e depois será diferente,pior.Nós fomos i Gattopardi, i Leoni,quelli che ci sostituiranno saranno gli sciacalletti,le iene(...).Chevalley s'ineroucò sulla vettura di posta(...).

Era apenas aurora,aquele pouco de luz que conseguia ultrapassar o nevoeiro estava novamente impedida pela sujeira da janela.Chevalley estava sozinho,entre choques e solavancos banhou de saliva a ponta do índice,limpou o vidro para alargar a visibilidade.Olhou,diante dele a paisagem exuberava irredimível à luz das cinzas."G.Tomasi di Lampedusa in Il Gattopardo.

Uma página da literatura universal que certamente expressa a ausência absoluta de qualquer forma de esperança.Num mundo onde tudo muda desde que tudo permaneça tal como antes.Numa sociedade onde a única mudança é a transferência de poder dos leopardos aos chacais e a história parece um ciclo interminável de sujeira e impunidade e até mesmo a natureza se apresenta como irredimível.

Entretanto,neste último período tenho repetidamente me perguntado se é mesmo assim.Se a história nada mais é do que um contínuo retorno a modelos e fórmulas antigas de dominação e massificação da cultura dominante e, se o melhor que se pode esperar é tentar viver apesar de tudo de modo positivo mas não alienado, antes de um inevitável recurso negativo por parte de quem detém o poder.Se tudo está certo,direito como está,nenhuma mudança para melhor acontecerá concretamente de humana iniciativa.Será este o único ponto de vista da história?Entre tantas coisas realmente inovadoras do Cristianismo uma que deveria ser enfatizada mais e mais agora é aquela de ter rompido o círculo viciado do eterno retorno e ter aberto as possibilidades para um círculo linear,progressivo,intencional da nossa história.É por isso que nada é mais distante do espírito cristão moderno do que o fatalismo e indiferença diante dos problemas do próximo,da renúncia por uma sociedade melhor e mais justa,enfim,da falta de esperança.

Infelizmente é preciso recordar que nunca faltaram e nem faltarão formas de sincretismo entre fatalismo pagão e otimismo cristão,práticas ditas de fé,isto é,ilegitimadas do fatalismo(solitamente muito funcionais aos interesses das castas poderosas,como as referidas no romance de Lampedusa).

Assim,se tudo passa por livre iniciativa e vontade do homem,tudo ocorre também sob os olhos de Deus e,por assim dizer nas suas mãos:olhos e mãos daquele para quem nada é impossível(Lc.1:37).

Pessoalmente escolhí cultivar a esperança:esperança na capacidade humana de aprender e querer mudar,esperança na onipotência de Deus.

Nada neste mundo é irredimível,intocável,inabalável."E a sujeira escondida,abafada de anos e anos da nossa história será definitivamente lavada."Então vi novos céus e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra tinham passado; e o mar já não existia(...).Ele enxugará dos seus olhos toda lágrima. Não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou".(Ap.21).

Bergilde
Enviado por Bergilde em 21/06/2013
Código do texto: T4351743
Classificação de conteúdo: seguro
Copyright © 2013. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.