Vida de Artista

É cada vez maior o número de brasileiros na Europa. De qualquer parte do Brasil, principalmente do Nordeste, chegam imigrantes para trabalhos temporários ou pessoas dispostas a realizar, no velho continente, suas bodas matrimoniais. Vêm cheios de esperanças, sonhos e novas promessas de vida. Afinal, têm o mundo em suas mãos. Há ainda aqueles casos em que o sujeito é promovido por alguma multinacional e traz a mulher, os filhos e o cão.

Ao chegarem aqui, a realidade pinta cores diferentes. Agora, longe de casa, eles se vêem compelidos a concretizar tarefas que nunca se imaginaram realizando. Com a concorrência cada vez mais acirrada do mundo moderno e para piorar o quadro, as velozes e vertiginosas mudanças com o advento da Comunidade Européia, muitos estrangeiros são obrigados a inventar uma maneira de sobreviver. E criatividade é o que não falta.

Tantas mulheres, que ao se casarem com europeus, largam uma carreira promissora em troca de acompanhar seus maridos à Europa e sentem-se deslocadas na nova cultura e na nova língua. Inúmeros são os casos de pessoas que não têm seu diploma reconhecido. Para escapar do confinamento e do “Banzo” (aquela saudade profunda da terra natal), muitas iniciam terapias ocupacionais e desvendam um potencial artístico até então oculto. E há quem diga que viver “fora de casa” aflora nossa sensibilidade.

Não podemos deixar de relatar aqui aqueles que já vêm com a sensibilidade à flor da pele e de súbito, já na viagem de vinda, no avião mesmo, viram artistas. Músicos de metrô, pintores das praças públicas, malabaristas, mímicos, dançarinos e por aí vai, o que nossa criatividade permitir. Porque na Europa eles permitem e são até bem tolerantes com os artistas de rua. O importante para as autoridades é o individuo não ficar parado. No ócio criativo, definitivamente, eles não acreditam. O sujeito tem que rebolar. Aliás, quanto mais rebolar melhor. E se um artista é brasileiro, para os europeus, quanto mais exótico melhor.

Conheci um sujeito que no Brasil era ascensorista. Perambulou durante anos por Barcelona, Paris, Zurique e Munique. Ao ser preso por não ter papéis, o delegado lhe perguntou qual era sua ocupação. Ele respondeu, muito seguro de si, num inglês impecável, que era pintor de quadros e que desenhava, quando solicitado, caricaturas dos transeuntes. O delegado, de pronto, deu-lhe papel e um lápis e pediu que fizesse uma caricatura sua. O homem não se fez de rogado, desenhou o policial sem, é claro, enfatizar seu nariz de batata e em poucos minutos entregou o trabalho. O delegado consentiu e liberou o rapaz, mas o advertiu: “Só desta vez”.

Difícil foi o delegado entender que diabo de profissão era aquela: “ascensorista? Ter que apertar botão de elevador para subir e descer?” É aí que mora o xis da questão. Nós viemos de um país onde “se anda na corda bamba”, “se dança conforme a música”, “se faz mágica com o pouco salário" e “se leva a vida na flauta”. Em nosso país, os verdadeiros artistas são os malabaristas do sinal vermelho.

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A crônica "Vida de Artista" de Marcelo Madeira foi publicada em outubro de 2005 na revista "Brazine" na Alemanha e faz parte do segundo livro do autor "Aperitivo de Letras" vendido em livrarias no Brasil e Suíça.