O terreiro de areia branca era palco dos folguedos, das brincadeiras de roda, ciranda, cirandinha, casamento chinês e das fogueiras de São João. No quintal se criavam lindas galinhas de penas coloridas e dona dizia: “ Elas são lindas! Eu as criava mesmo que só servissem para enfeitar o quintal!” No meio do pátio ficava um pé de buganvília cor-de-rosa pink, ao lado direito, o curral de vacaria e o chiqueiro das cabras. Minha mãe se levantava às 5:30h. Ordenhava as vacas e preparava um delicioso café da manhã, com leite, beiju e coalhada escorrida. Mais tarde, descia para o rio Riachão que banhava a propriedade. Lavava algumas peças de roupas e às 10:30h lá vinha ela andando devagarinho, subindo o morro no caminho de casa. Seus cabelos pretos e lisos brilhavam ao sol. Vestida humildemente, porém limpa e cheirosa, terminava o almoço que era servido bem quentinho. Não raras vezes, eu a acompanhava na trajetória até o rio e do rio para casa, como tinha apenas dois anos, na hora de voltar empacava dizendo: “Ocupada, ocupada, não caminha não!” E a bondosa mamãe se via obrigada a me trazer nas costas.
Nas noites de luar a calçada de nossa casa se enchia de gente: avós, tios, primos e parentes mais distantes vinham conversar, trocar informações e saber das novidades. Naquele tempo ainda não se tinha rádio nem televisão, as notícias vinham por carta ou de boca em boca. Vivíamos como Luís Gonzaga: “...sem rádio e sem notícia das terras civilizadas.” Mas éramos felizes porque respirávamos o ar puro da natureza e não se ouvia falar em violência ou droga. Durante a conversa dos adultos era servido café, torrado em casa, socado no pilão e adoçado com rapadura ou açúcar. Enquanto isso,  brincávamos de roda tal qual fazíamos na casa de vovô Mariano. Não tínhamos brinquedos sofisticados, isso é verdade, mas tínhamos bom espaço físico suficiente para o desenvolvimento biopsicosocial.
A mãe natureza foi o centro de nossa recreação e do esporte. O tempo transcorria sem preocupação de nossa parte com qualquer perigo. Vivíamos livres como um passarinho, embora, atentos às normas da religião, educação e bom relacionamento com os vizinhos. Nisso papai era bastante exigente. Na época das chuvas o rio Riachão transbordava, pouco tempo depois, oferecia uma água pura e cristalina. Era raso, por estar perto da nascente e logo após as primeiras enchentes, já se podia ver a areia branca do seu leito e as piabas nadando numa água transparente e sem nenhuma poluição. Ficávamos horas a fio a olhar as piabinhas, e por vezes as recolhíamos em cacimbas improvisadas por nós mesmos à margem do rio.
No verão, fazíamos redes de sarça e armava-as nos galhos grossos da oiticica para nos balançar, preparávamos quitutes nas casinhas de palha, brincávamos com pequenos ossos como se fossem vaquinhas, andávamos a cavalo e fazíamos arapuca para pegar codornizes. Vivíamos felizes e tranqüilos, sem rádio, televisão, sem informações importantes, ou nem sempre importantes...
Hoje as informações nos chegam por vezes deturpadas, distorcidas, de modo que não se pode sequer avaliar se formam ou deformam. Educam ou deseducam. Não quero com isso, desvalorizar as informações televisíveis, nem a eficiência dos meios modernos de comunicação. Há programas interessantes, instrutivos e informativos para educar a criança e o adulto. É preciso, no entanto, filtrar, selecionar o que se pode ver e o que não convém ver. Viver no silêncio e no aconchego da paz ainda é um sonho possível, apesar da violência. No campo se tem tudo isso, além de água e ar puro. Mas a vida do sertanejo não é só sombra e água fresca, é também de muita labuta, de trabalho de sol-a-sol, luta e sacrifício. O homem do campo acorda ao raiar da aurora e se levanta com o cântico da passarada ao amanhecer. Mal termina a lida de um ano e já se faz planos para o ano vindouro. É preciso preparar mais terras, fazer novos roçados, porque as terras velhas estão cansadas e fracas. A terra nova está bem adubada com a folhagem que cai e se renova a cada ano. As folhas secas que se acumulam debaixo das árvores formam o paul, excelente fertilizante natural que enriquece a terra e aduba as plantas.
Escolhido o local do novo roçado, homens com machados e foices nas mãos abriam clareiras na caatinga e chapadas, derrubando moita-branca, cansanção, marmeleiro-do-campo, pau-pereira, canela-de-velho, canela-de-ema, pequiá e juremas, só sobravam os umbuzeiros nativos, os trapiás, as madeiras-de-lei e algum pau-d`arco. Sem ajuda das máquinas e implementos agrícolas mais modernos, amontoavam a lenha, em enormes coivaras, que mais se pareciam gigantescas fogueiras de São João, logo depois, ateavam fogo e a madeira crepitava lançando fagulhas nos ares, de modo que, no dia seguinte, era possível ver a chapada ainda cachimbando e raposas, codornizes e preás fugitivos e assustados atravessando as queimadas. Na época do cultivo do milho e feijão, papai pegava a cabaça-d’água, a enxada e o chapéu, nem falava nada, era seguido pelos filhos e passavam o dia carpindo o mato, aceirando cercas ou outros serviços que preveniam contra a invasão do gado ao legume. Na parte da tarde, mamãe levava a eles um cafezinho com bolo frito ou beiju, à noitinha, já quase escuro retornavam do serviço e, segundo De Assis, cheirando a miroró.

Créditos:

Neomísia Antonia de Sousa. Genealogia e Memórias de uma Família.