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Por que criticar o português da mídia

Boa pergunta, uma que não havia me feito ainda, e que uma colega (pessoa que eu considero e respeito muito, aliás) me colocou em forma de comentário para o texto ‘Críticas ao português dos jornais no Brasil’, publicado hoje cedo. Entendo que seu comentário relaciona-se a textos de pessoas comuns — ou amadores, como eu também me defino no ramo literário. O meu artigo, entretanto, refere-se a textos escritos por ditos profissionais da área (professores, jornalistas, escritores, etc.).

Considerando a recente tragédia dos deslizamentos de terra no Brasil, e a situação do brasileiro em geral, concordo que há coisas (e sempre haverá!) muito mais importantes do que ficar questionando erros de português nos meios de comunicação. Ainda mais se o objetivo final é comunicar, e no final todo mundo sempre se entende! Pra quê gastar energia com esta questão?

Começo pela possível ‘audiência'. Escrevi o texto anterior pensando nos pseudo-profissionais que escrevem para muitos jornais ou redações de programas de TV. É muito pouco provável que meu artigo seja sequer lido por qualquer desses indivíduos. Por outro lado, escrevi também pensando nos professores dos meus sobrinhos e filhos de amigos que vivem no Brasil. É bem capaz que muitos desses professores, maioria da rede pública, tenham blogs ou até mesmo escrevam aqui no Recanto.

Pela péssima qualidade de textos publicados por muitos que se declaram professores (e de português!), é natural que eu pense no futuro dos meus sobrinhos e filhos de amigos, os quais são alunos de escolas públicas ou de escolas particulares de qualidade questionável. Não sou mais tão ingênua a ponto de não duvidar da formação dos professores dessa clientela. Esses, exatamente por, talvez, nunca terem tido questionada sua competência na própria língua, é exatamente nos meios de comunicação que vão buscar modelos para usar em sala de aula.

Minha sobrinha mais velha manifestou, certa vez, o desejo de vir passar um tempo comigo, na Alemanha, e estudar por aqui. Imagine como fica o coração de uma tia tendo que olhar para a sobrinha que ama e dizer: “Meu Deus, minha filha, com esse português chinfrim que você tem, não vai dar pra aprender alemão não... Vai ser um massacre!”. É triste, mas é a realidade. E como não sou do tipo que alimenta falsas esperanças, tenho que dizer a verdade, doa a quem doer.

Pensando nessas prováveis vítimas, escrevi o artigo anterior. Depois que o publiquei, senti-me como um pregador no deserto ou como estar cantando para bêbados — uma característica que odeio em mim e estou lutando para mudar. Pra quê então questionar tudo isso? Talvez eu esteja com mania de primeiro mundo: não me falta comida, teto, transporte de boa qualidade, saúde, educação, em suma: toda a dignidade que uma pessoa necessita pra viver. Pra quê então ficar me preocupando com gente que não tem nada disso, e que, talvez, esteja tendo negada a única chance de mudar de vida, ou seja: o direito a ter uma boa formação, coisa que, até me provarem o contrario, estou mais do que convencida: começa pelo domínio da própria língua.

Vai ver é porque, mesmo estando tão longe, continuo brasileira...

Ah, por favor não interprete esta minha crônica como uma resposta. Trata-se muito mais de continuar refletindo sobre o tema e a pergunta, que eu achei muito boa aliás, realmente me motivou: 'Por que, né?' No dia em que não puder mais questionar as coisas ao meu redor, tenha certeza: pode mandar enterrar que estou morta!


Um abraço fraterno.


Helena Frenzel
Enviado por Helena Frenzel em 22/01/2011
Reeditado em 22/01/2011
Código do texto: T2745118
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Helena Frenzel
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