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Zero Normal e ou Sofisticado

Hoje andei lendo umas notas no jornal sobre redações e critérios de correção. Na época em que prestei meu primeiro e único vestibular, em mil novecentos e carne de porco, não lembro se foram divulgados critérios de correção. Gabaritos sim, critérios não. Uma pena, pois gostaria de saber que nota foi dada ao meu texto... Se bem que tendo passado, e com muito boa classificação, nem me passou pela cabeça fazer qualquer outra coisa que não fosse comemorar, e me preparar para os novos desafios. Em alguns vestibulares brasileiros (Fuvest, por exemplo), os avaliadores classificam a nota zero atribuída a uma redação como sendo um ‘zero normal’ – problemas gramaticais, de estrutura ou coerência -  ou um ‘zero sofisticado’ – não apresenta problemas gramaticais, mantém uma linha de raciocínio porém foge do tema proposto (1). A matéria que li criticava o uso de fórmulas ensinadas por escolas e cursinhos para a composição de redações. Se bem que para quem não tem hábito de ler, muito menos de escrever, compor uma redação assim do nada pode se tornar uma tarefa impossível... Está bem, mas este meu texto não é para criticar nem defender fórmulas, e sim compartilhar coisas que estas notas no jornal me fizeram pensar. Interessante que, antigamente, freqüentar cursinho era exceção e não regra, ainda mais pra quem não podia pagar... Sim, mas isto também não vem ao caso! Navegando pelo Recanto, pela internet brasileira, pela rede mundial, e lendo várias publicações, me perguntei se hoje em dia muitos dos autores (eu incluso!) passariam numa prova de redação com tais critérios. Ora, antes de ir mais longe – pois percebo que já me perdi – alguns anos acadêmicos permitem-me ao menos reconhecer quando é melhor aplicar uma fórmula ou não. Tipo de coisa: ‘dizer exatamente aquilo que o mundo espera ouvir’, agir com diplomacia (um eufemismo!). E como bem aconselhou Oscar Wilde, não abrir o coração para todo mundo... ou os Titãs: "Eu nunca mais vou dizer o que realmente penso, eu nunca mais vou dizer o que realmente sinto, eu juro!" Nem adianta se rebelar. O último rebelde morreu engasgado com hambúrgueres do Mickey Donnaldo, ou enforcado na própria língua, se é que você me entende. Se não me entende, também não faz mal, continuo na mesma linha. Não adianta se rebelar contra o sistema porque no mundo todo a coisa funciona igual, digo: na pequena parte do mundo que conheço! Que nota será que meus textos receberiam num concurso de redações como esse? Quem sabe (muito provavelmente) um zero normal – que seja, pelas tantas influências lingüísticas de que hoje se queixa meu ‘exilado’ Português - ou um zero sofisticado, pois sou mesmo (admito!) generalista. Correr de centros, balançar nas linhas é minha sina e tendência. Por isso, fora do trabalho, não gosto de escrever artigos, ensaios, muito menos dissertações. Não quero nem estou a fim (no momento) de convencer ninguém, muito menos ser convencida, do que quer que seja. Sou uma engraçada (ao menos metida a) que adora brincar com palavras. Quanto mais regras e convenções conheço - num contexto filológico, claro - maior prazer sinto em quebrá-las. Lógico que, para que outros também me entendam (incluindo você) pelo menos um mínimo, as únicas regras às quais ainda dou ouvidos são as gramaticais. Por exemplo, forçar uma vírgula entre um sujeito e seu predicado é algo que só faço distraída, ou depois de haver brigado muito com todos os críticos bundões que moram dentro de mim.  E vez em quando, só pra mostrar quem manda, eu calo críticos interiores e regras. E quem tem o ponto final nos meus textos – pasmem! – não sou eu e sim elas, as palavras, as minhas caras palavras. Essas palavras que, como as notas de Mozart, se buscam porque se amam! - isto foi o que elas me disseram, se verdade ou não, cabe discussão... - Hoje li essa nota de redação e pensei: ‘Pobres vestibulandos! Que a força maior, cola das palavras, una subjetividades e os ajude a passar, com honras, pelas bancas das bancas de avaliação.


1 – Vide matéria ‘Direção da Fuvest critica escolas e cursinhos por redações-clichê’, por Alexandre Nobeschi, Folha Online, 19/04/2005.
(www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/ult305u17364.shtml)


Para quem está prestando vestibular: ‘Força aí e sucesso!’ Ah, estudar, ler e escrever por puro prazer ajuda que é uma beleza! :-)

Em tempo: revisei meus textos e desvendei o segredo dos contadores de leituras do Recanto... Como bem me lembrou Maria Olímpia, o texto mais lido na verdade é o mais clicado, o mais clicado... Bom saber disso! Um abraço fraterno :-)

Ah, um artigo interessante que vale bem mais que o tempo de ser lido, também relacionado aos temas que explorei nesta crônica, vai como dica:

A Literatura, O Vestibular e os Exames Nacionais
Gislaine Becker
(www.recantodasletras.com.br/artigos/1977655)




Helena Frenzel
Enviado por Helena Frenzel em 04/01/2010
Reeditado em 06/01/2010
Código do texto: T2010577
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Helena Frenzel
Alemanha
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