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Lembranças que a neve me trouxe

Hoje acordei e o dia estava muito claro. Estava branco, reluzente! Sim, hoje nevou pela primeira vez - neste inverno, lógico. E com a neve, veio também minha cunhada. Ela veio fazer biscoitos e lembrar-me de um compromisso assumido para a semana entre o Natal e Ano Novo. Especificamente, não com ela, com três gatinhos. Explico mais tarde. Pois é, e a sensação de claridade acompanhou-me por todo o dia, mesmo no momento mais chato, à tardinha, quando criei coragem e decidi encarar uma pilha de roupas que eu tinha por passar. Sim, você que me lê regularmente já sabe que eu odeio passar roupas. Fazer o quê, quando não há remédio? Aqui cada qual cuida do seu cada qual... Esse negócio de ter empregada em casa me lembra Cartola e Monsueto, nas notas da Marisa, a ‘colonial mentality’:

“ensaboa mulata ensaboa
ensaboa tô ensaboando

trabalho um tantão assim
cansaço é bastante sim
a roupa um tantão assim
dinheiro um tiquinho assim

ensaboa mulata ensaboa
ensaboa tô ensaboando
(pra lavar a roupa da minha Sinhá)
tô ensaboando!” (1)
 
Serviço de lavanderia por aqui, aliás como qualquer outro serviço, custa muito caro. “E eu acho é pouco!”- Isso diz um amigo meu. De passar roupas não gosto. No entanto não reclamo. Fazendo o que não gosto liberto minha mente e acabo sempre encontrando inspiração. Incrível! Taí, quando eu for uma escritora famosa (Tá metida, a bicha... olha a saliência dela! ói, ói, ói que ela agora quase cai!) - Cala-te! Não me interrompas! - sim, pois quando for uma escritora reconhecida e perguntarem sobre meus métodos pra escrever, já sei o que digo: “Simples assim, bichim: é só passar roupas!” E passando roupas, passou pela minha cabeça como 2009 passou rápido... E foi a neve que me fez dar conta disto! Este ano começou com neve e gatos, e ao que parece, com gatos e neve vai se fechar o ciclo. Não está entendo nada? Veja abaixo partes de um email que troquei com um amigo nos primeiros dias de 2009:
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Oi amirmão,
(...) Como foi tua entrada de Ano Novo? Espero que tenha sido, sobretudo, em paz. Para mim o ano já começou bem, cheio de desafios... :-) Peraí que já te conto! O namorado da minha cunhada mora em outra cidade. Ela viajou, pra passarem o reveillon juntos. Detalhe: minha cunhada tem 3 gatos. Na verdade eram 4, mas um deles, o Mimi, morreu recentemente. Bom, ela só poderia viajar se encontrasse alguém para cuidar dos gatinhos. E eles são mimados! Cada um tem que ser alimentado separadamente. Isso porque o mais velho, Tom, o mais gordo dos três, sempre termina primeiro e vai logo avançando na comida dos outros dois, Blue e Blitz, que comem muito devagar. Pra encurtar conversa: quando minha cunhada viaja, sobra pra mim! Num bom sentido, claro, pois não me custa nada ir lá alimentar os felinos. Os gatos se dão bem comigo e não é a primeira vez que lhe faço esse favor. Bom, não haveria problema se as ruas hoje não tivessem amanhecido cobertas por uma camada fina de gelo - uma pista de patinação natural [Para que o leitor entenda, esse foi o primeiro dia em que caiu neve no inverno passado]. Os gatos moram cerca de dois quilômetros distante, de modo que, sem carro disponível, e não podendo andar de bicicleta com um tempo desses, tive que ir caminhando (patinando!) mesmo. Já viu o aperreio, né? Com o chão congelado, mesmo com sola apropriada, só se for a passinhos de BB... Cheguei à casa da cunhada com um ‘saco’ daquele tamanho... Sem falar no medo de a qualquer momento cair estatelada no chão, quebrar a cara ou me machucar feio. O povo que me viu passar deve ter rolado de rir do meu aperreio, mas tem nada não... Cheguei, alimentei os gatos e aí veio o desespero da volta pra casa. Passinhos de BB de novo, por quase dois quilômetros?! Ah não! Daí decidi voltar por um caminho cortando o bosque. Detalhe: tinha uma neblina filha da mãe, que só me permitia enxergar uns 50 m à minha frente. Bichos no bosque? Bom, isso não tem... Só se for o bicho homem, e desse eu tenho medo! Engoli meu medo e encarei o bosque. O desvio que eu tomei deve ter me custado uns quatro quilômetros, no mínimo. Ah, tá bom... Um pouco de exercício não faz mal a ninguém. O caminho no bosque também estava congelado, mas com certeza muito melhor do que a rua. Saí de casa 07:30 da manha e voltei às 12:00. Minha sogra me disse: "Minha filha, já estava até preocupada com você". Contei pra ela as desditas e ela: "Ah, nem tava tão congelado assim... Dava pra se andar, o negócio é que você não está acostumada!" O pior é que ela tem razão. Olhava os outros andando na rua normalmente e dava até vontade de perguntar: "Ei, como é que vocês conseguem?" Outras coisas engraçadas aconteceram na casa da minha cunhada, mas não vou ficar aqui te enchendo com detalhes. Enquanto voltava pra casa, caminhando pelo bosque, fiquei pensando: "Eita que 2009 começou bem... cheio de desafios! Sim, mas isso não é ruim. Mais um pouquinho e estarei em casa."(...)
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Pois é, quase hum ano, mais um ciclo se fechando e o próximo prestes a iniciar, encadeamento perfeito... como as lembranças que a neve me trouxe. Aliás, em 2010, dos gatinhos, desses não terei mais que cuidar... :-)

Um abraço fraterno!

1 – Trecho de Ensaboa (Lamento da Lavadeira), Cartola / Monsueto – Marisa Monte – Álbum Mais.
Helena Frenzel
Enviado por Helena Frenzel em 13/12/2009
Reeditado em 16/12/2009
Código do texto: T1976198
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Helena Frenzel
Alemanha
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