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Estranha Mania: Fé na Vida

Hoje estava por aqui, passando roupas e ouvindo Lenine. Amo Lenine. Odeio passar roupas. Sim, faço o que tem que ser feito – e sem procurar reclamar. Interessante... Como tudo é questão de ponto de vista, passar roupas é uma ótima oportunidade para refletir.

“A ponte não é de concreto, não é de ferro
Não é de cimento
...
A ponte é somente para atravessar
...
Mas a ponte da capital é demais
...
Todas as contas foram aprovadas pelo TCU
(Me diz quanto foi)
164 milhões de reais” (1).

Pensei no céu azul de Brasília. Mas pobre é triste mesmo... Tenho até dificuldade em imaginar 164 milhões de reais! Apelei então para meus parcos conhecimentos em Matemática - obrigada, “tia” Euzamar (professora da escola primária). Se um Mercedes Benz Classe M custa 350.000 reais, 35 milhões daria pra comprar uns 100 desse modelo...

“Oh lord, wont you buy me a mercedes benz ?
My friends all drive porsches, I must make amends.
Worked hard all my lifetime, no help from my friends,
So lord, wont you buy me a mercedes benz ?”(2)

Sobraria ainda, quem sabe, o suficiente para construir um castelinho no interior do país. Há tantos lugares lindos no Brasil. Se a pessoa tem muito dinheiro, dá até pra burlar a falta de infra-estrutura das regiões interioranas. E se construísse o castelo, poderia transformá-lo num casino-bordel de luxo.

Taí, gerava renda pra mim e trabalho para as meninas da região. Sendo essas atividades ilícitas, lavava o dinheiro do lucro nas loterias, seguindo o exemplo do falecido deputado João Alves de Almeida, ex-anão do orçamento. Se alguém viesse perguntar a origem da minha fortuna poderia dar a mesma resposta: Vem tudo da loteria. “Deus me ajudou e eu ganhei dinheiro!”

Poderia até chamar aquele rapaz, o Francenildo, de Brasília, para trabalhar comigo como caseiro do castelo. Talvez ele não aceitasse. É que gato escaldado fica com medo até de água fria... Será que esse rapaz continua desempregado? Afinal de contas, qual foi mesmo o crime que ele cometeu? Contou o que viu... E isso é crime, no Brasil? Se for, deixa passar mais um tempo que o povo esquece.

Pois é...dizem que brasileiro tem memória curta. Eu já acho que isso se aplica no mundo todo. Como diz uma colega aqui do Recanto: “Eu só penso, não julgo”. Já eu divago (muito!) e tento não julgar. Não sou especialista. Sou só uma (preocupada) cidadã do mundo. Fico fazendo esses exercícios mentais para retardar o Alzheimer – dizem que é inevitável, com o envelhecimento.

A população européia está envelhecendo cada vez mais rápido, deve ser por isso que a TV daqui é cheia de documentários históricos, sendo as grandes guerras tema favorito. Vai ver não querem que a História se repita e ficam refrescando a memória das pessoas. Por que será que a TV aberta brasileira não investe um pouco mais em documentários? Ah! É porque reality show dá mais dinheiro, bacalhau!

Tá, eu sei. O buraco é mais embaixo. Esses reality shows parecem ser fenômeno mundial. João Pereira Coutinho, em sua coluna na Foha de São Paulo, do dia 09.03.2009, chama a atenção para “os comedores de lixo”, a audiência desses shows, os verdadeiros culpados por seu sucesso. Tornamo-nos aquilo que comemos, não? Tenho que deixar de comer doces...

Bom, voltando às maracutaias. Democracia é faca de dois legumes, mas ainda assim penso ser esse o melhor caminho. Na capital de um dos estados mais pobres do Brasil – talvez agora seja “o” mais pobre -, desde que me entendo por gente, o governo de lá parece estar sempre nas mãos do mesmo grupo. Eu não me importaria em vê-los eternamente no poder, desde que priorizassem o povo. Fato é que pouco fazem, e não deixam outros fazerem o que quer que seja.

Em poucos anos estarei na versão  40.0 e até agora só lembro de ter visto meu Estado cada vez mais atolado na pobreza, no abandono, no descaso, na ignorância e na merda. Graças à democracia, o povo de lá já mostrou claramente, nas urnas, que quer outro grupo no governo. Porém, as raízes do coronelismo são fortes... ninguém vai abrindo mão do poder, assim, de graça. É um vale tudo, nesse mundinho sujo.

Todavia, num sistema “livre”, os insatisfeitos podem pelo menos, sair às ruas, denunciar, protestar, fazer valer a legitimidade de suas escolhas. Isso sem correrem riscos de terem os direitos políticos cassados ou serem gentilmente convidados a deixar sua terra.

Agora vejamos o caso da Venezuela. Um amigo lembrou-me do fato de que o quê vem acontecendo por lá é a mais pura “vontade do povo”. Afinal, “Sí!” foi o que venceu nas urnas! Parece que hoje cada um tem que sair pesquisando por aí, trocando muitas idéias antes de formar opinião sobre o que quer que seja. Não dá mais pra se acreditar só no que se ouve, lê e assiste – viva a mídia, Quarto (do) Poder!

Fico com Zé Ramalho:

“Êeeeeh! Oh! Oh!
Vida de gado
Povo marcado
Êh!
Povo feliz!..” (5)

Vejo a situação política da Venezuela com muita desconfiança porque, para mim, qualquer sistema que casse ou restrinja liberdades e direitos cheira mais a ditadura. E ditaduras são perigosas, mesmo que sejam “do povo”. Eu fico cheia de ressalvas e ainda não tenho uma opinião clara a esse respeito. Não estou lá, nem conheço ninguém que esteja, para saber o que acontece de verdade pr’aquelas bandas.

Já com o Brasil, que não é o Haiti, a coisa é diferente. Estou com um pé lá, outro cá. Como todo bom brasileiro, só paro de lutar morta. Não jogo a toalha e mantenho a esperança. É trabalho de formiguinha, mas se deixarmos de acreditar em dias melhores, aí mesmo é que eles nunca virão!

“Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria

Mas é preciso ter manha
É preciso ter graça
É preciso ter sonho sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania
De ter fé na vida....” (3)

Tentar refrescar a memória das pessoas já é fazer alguma coisa... penso!

“Ladroíce, mutreta, malandragem
Álcool, droga, barato, passamento
Amnésia, larica, esquecimento
Roubalheira e má politicagem
Cabaré, palacete, sacanagem
Fome, greve, motim,
Acampamento
Confusão, batalhão, fuzilamento
Reclusão, solidão, sonho
Aos pedaços
Pra ficar no conforto dos teus braços MEU BRASIL
MUITA coisa no mundo eu enfrento (4)”


(1) Trecho de A Ponte, Lenine e Lula Queiroga.
(2) Trecho de Mercedes Benz, Janis Joplin e M. McClure.
(3) Trechos de Maria, Maria – Milton Nascimento e Fernando Brant.
(4) Trecho de O Conforto dos teus braços, João Linhares - “MEU BRASIL” e "MUITA" alterações minhas.
(5) Trecho de Admirável Gado Novo, Zé Ramalho.

É isso aí!



Helena Frenzel
Enviado por Helena Frenzel em 23/03/2009
Reeditado em 29/03/2011
Código do texto: T1501498
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
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