Repouso

Eu estava distraído assistindo um vídeo no painel do automóvel, quando a voz do Navegador soou dentro da cabine:

- Perda de sinal.

Desviei os olhos do painel para a estrada e seu entorno. Estávamos numa região montanhosa, e a estrada de mão dupla serpenteava pelas encostas escarpadas, ainda iluminadas pelo sol que acabara de se pôr. Em mais alguns minutos, a única fonte de luz disponível seriam os faróis do veículo autônomo que me transportava até o meu destino, no sopé das montanhas.

- Você perdeu a conexão com o satélite? - Questionei, incrédulo. Afinal, não há barreira geográfica ou mau tempo que possam comprometer o sinal emitido por uma fonte a centenas de quilômetros de altura.

- Perda de sinal - foi a resposta à minha pergunta retórica.

- Sim, entendi quando disse da primeira vez - ponderei. - Talvez esteja na hora de dar uma parada e rodar o autoteste no sistema de navegação...

- A cidade mais próxima daqui é o seu destino - alertou o Navegador. - Mantendo o curso.

- OK, mantenha o curso - conformei-me. Ao menos, com ou sem sinal de GPS, o Navegador era perfeitamente capaz de orientar-se através dos seus mapas internos.

A noite caiu e os faróis acenderam-se automaticamente. Não havia nenhum tráfego, indo ou vindo, o que também não era algo particularmente notável. Mas além do GPS, a internet por satélite também parara de funcionar; eu estava absolutamente isolado naquela estrada deserta, e comecei a me sentir ligeiramente apreensivo. Ao dobrar uma curva contudo, uma placa de sinalização chamou a minha atenção e me deu alguma esperança.

- Acabamos de passar por uma placa de sinalização - avisei ao Navegador. - Ali dizia "Repouso, próxima entrada à direita, 5 km".

- Não há nenhuma cidade próxima antes do seu destino - disse o Navegador.

- Seus mapas devem estar desatualizados - afirmei. - Requisito controle manual.

- Confirma controle manual? - Questionou o Navegador.

- Confirmo controle manual - assenti, segurando o joystick que controlava o veículo.

No painel, um ícone vermelho acendeu-se: o Navegador havia sido desligado. Inclinei suavemente o joystick para fazer a curva e finalmente vi-me diante de outra placa e uma estrada vicinal que adentrava as montanhas: a entrada para Repouso, sem qualquer dúvida.

- Tudo o que eu preciso, é de um café e uma oficina para revisar o sistema de navegação - comentei comigo mesmo, enquanto seguia pela estrada escura em meio a paredões de pedra.

Depois de um tempo que me pareceu excessivamente longo, mas que provavelmente era apenas psicológico dado que eu não conhecia o caminho, a estrada desembocou num vale, ao fundo do qual estava uma cidadezinha iluminada. Entrei na rua principal quando passavam dez minutos das sete da noite, e parei na calçada em frente a um bar/lanchonete/restaurante de aparência antiquada. Desci do automóvel e olhei ao redor.

Havia uma pracinha, com coreto, e algumas pessoas circulando em meio a barraquinhas festivas. Coisa bem de cidade do interior mesmo. Os poucos carros em circulação pareciam modelos de 30 ou 40 anos atrás, nenhum deles autônomo. Entrei no estabelecimento, que fora um atendente no balcão, estava vazio.

- Boa noite! - Saudei-o.

- Boa noite! - O homem respondeu de forma amistosa.

- Meio vazio isso por aqui, numa noite de sexta-feira - comentei, sentando-me numa banqueta à frente do balcão.

- Repouso é uma cidade pequena - redarguiu ele. - Ademais, deve ter visto a movimentação na praça... a quermesse.

- Sim, parecia animada - assenti. - Me serve um café?

- Naturalmente - respondeu, virando-se para a máquina de café.

O interior do bar/lanchonete/restaurante era tão antiquado quanto o restante da cidadezinha. Televisão de tela plana numa das paredes, exibindo o que parecia ser uma seleção de videoclipes de 50 ou 60 anos atrás, e nas prateleiras, garrafas de bebidas que eu não estava muito certo se já vira em qualquer outro lugar.

- Vocês têm uma oficina de autônomos aqui? - Indaguei, quando ele colocou a xícara de café à minha frente.

- Autônomos? - Ele me encarou com ar intrigado.

- Automóveis autônomos - expliquei, apontando por uma das janelas para o meu carro parado lá fora.

- Temos umas duas oficinas aqui, mas nenhuma delas está aberta à essa hora - disse em tom de desculpas. - Aliás, mesmo quando abrirem, na segunda de manhã, duvido que haja alguém que saiba mexer nesse seu carro incrementado.

"Incrementado" era algo em que decididamente o meu veículo padrão não se encaixava.

- Bom... e com essa, não vou poder mesmo ficar até segunda-feira - lamentei. - Creio que vou ter que descer a serra no controle manual.

Acabei de tomar o café e repousei a xícara vazia sobre o pires.

- Já que está aqui, talvez queira dar uma olhada na quermesse, antes de partir - sugeriu o atendente. - É uma oportunidade única.

Ponderei que talvez nunca mais tivesse a oportunidade de parar ali, naquela época do ano. Fiz um gesto de concordância.

- Está bem. Quanto lhe devo? - Indaguei, retirando um cartão de crédito da carteira.

- É por conta da casa - disse o atendente com um sorriso. - Nosso café de boas-vindas aos visitantes.

- Puxa, que legal... muito obrigado - agradeci, erguendo-me.

- Volte sempre - respondeu ele, recolhendo a xícara e passando um pano no balcão.

Parei na calçada e olhei para o céu estrelado sobre a cidade. Silenciosamente, um ponto de luz brilhou lá no alto, por um átimo de segundo; depois, outro. Não eram fogos de artifício, concluí.

Atravessei a rua para a pracinha, onde ocorria a quermesse. As pessoas me encaravam com simpatia, algumas sorriam, ao me ver passar.

- Você deu sorte de estar no lugar certo, na hora certa - disse-me uma velhinha que segurava uma menina pela mão. A neta, provavelmente.

- O que está acontecendo lá em cima? - Indaguei apontando para o céu, onde novos pontos de luz se acendiam e apagavam brevemente.

- Você sabe - respondeu a menina sorrindo. - Você sabe.

- [17-03-2024]