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O Carniceiro de Villene


“Se você está lendo isso,
é porque falhou em sua missão.
Agora espero que tudo dê certo
quando nos encontrarmos mais uma vez,
para pagarmos pelo crime
que todos nós cometemos.”
(D. V. A.)

       Este é um mundo violento, mas as pessoas só se dão conta disso quando a morte surge à espreita. Pois só quando as pessoas se deparam com a doença é que elas clamam por médicos. Só quando as pessoas se deparam com a insegurança é que elas clamam pela polícia. Quando a doença abate, ou quando pessoas são assassinadas, as estatísticas se tornam alarmantes. Mas quando o médico ou o policial evita que pessoas morram, a morte evitada não entra nas estatísticas. Você não pega o jornal da manhã e lê: “Ontem, quatro pessoas quase foram mortas, mas as mortes foram evitadas graças à ação da polícia”. O que você lê é: “Ontem, quatro pessoas morreram em um assalto ao banco”. Então você pensa que a polícia não fez bem o seu trabalho. Portanto, o trabalho de um policial é evitar anonimamente que as estatísticas aumentem. No máximo, um policial entrará na história por algum feito heroico, até as pessoas se esquecerem disso, para então suplicarem pelo feito somente quando a morte voltar a lhes assombrar. Essa é a minha história.
       Meu nome é Antoine Durand, e sou inspetor da polícia de Villene. Meu pai era policial. Meu avô era policial. E o pai dele era policial. René Durand, meu bisavô, ficou conhecido na história policial de Villene, como o detetive que capturou o assassino em série mais procurado do país no século passado, conhecido como o Estrangulador da Madrugada. Seu nome verdadeiro era Hector Blanc e ele matou ao todo cinco pessoas. O caso ficou famoso porque meu bisavô e seu parceiro, o tenente Eric Buffon, haviam seguido as pistas do assassino desde o início das matanças. E porque o tenente Buffon fora morto por Hector Blanc enquanto estava ao seu encalço. E porque Blanc fora baleado e morto por meu bisavô ao reagir à voz de prisão. Era o Estrangulador ou meu bisavô. E acredito que ele fez a coisa certa. Reafirmo que este é um mundo feroz, e certas pessoas merecem morrer. Então, de certa forma, todos eles colaboraram para o fim da violência que assolava o país cem anos atrás, porque tanto a sagacidade de meu bisavô René, assim como o martírio do tenente Buffon, e a morte de Hector Blanc evitaram que mais homicídios acontecessem. Muitas pessoas não se dão conta disso. Até a morte voltar a lhes aterrorizar, como disse.
       E por que estou contando essa história? Porque eu também estou ao encalço, hoje, de um assassino em série. Apelidaram-no de Carniceiro de Villene porque seu método é esfaquear suas vítimas até a morte. E eu não vou permitir que esse massacre continue. Tenho um nome de família a zelar, e devo honrar esta tradição. Eu pego pesado com os fora-da-lei e espero ter a chance de ficar cara a cara com esse assassino, para ter a satisfação de levá-lo à justiça e vê-lo apodrecer na cadeia.
       Fui informado agora por meu parceiro, o promissor sargento Legrand, de que o Carniceiro fizera mais uma vítima, e estou a caminho do local do crime. Mas antes devo dar carona a uma velha amiga. Eu não aprovo isso, mas meu chefe de polícia, o comissário Dousseau, acredita que toda ajuda é bem-vinda. De fato, a mulher que devo levar à cena do crime já ajudou a solucionar alguns casos de sequestro e objetos ou pessoas desaparecidas, mas pedir a ajuda de uma médium para auxiliar a solucionar homicídios? Dousseau vive me corrigindo que o nome técnico é parapsicóloga forense. Para mim, ela é meio doida.
       Dora Voux morava na mesma rua que eu quando éramos crianças. Ela já era esquisita na época- conversava com gatos, dizia que via espíritos. Mas ela não se importava com os chistes das outras crianças. Permanecia sempre meiga e tranquila. Apartava as brigas de forma serena e sempre tinha uma palavra amiga quando alguém ficava triste. Acho que eu tinha pena dela. Por isso a tolerei com certa facilidade quando ela passou a ser contatada pela polícia de Villene no caso do desaparecimento de um menino. Na mesma tarde, ela encontrou o paradeiro da criança, que havia caído em um poço na zona rural. A partir daí ela passou a ser requisitada para casos em que a polícia tinha dificuldade de solucionar. Dora ganhara destaque na mídia, e passara a ser chamada pelos jornais de Dora, a Adivinha. E o mais notável é que ela não cobrava pela ajuda à polícia. Dizia que usar o seu dom era um tipo de missão, e não um ofício. Eu nunca acreditei nessas coisas, mas quando a razão se esgota, algumas pessoas buscam as respostas até mesmo no misticismo. E como isso parece funcionar com Dora Voux, eu prefiro aceitar a ajuda dela, por ora, como uma questão de praticidade.
       A médium abre a porta e me cumprimenta com um sorriso tenso. Ela lera nos jornais a notícia infame de que eu havia agredido um suspeito em um interrogatório, e que ele estava a me processar. Sim, eu agarrei mesmo aquele engomado pelos colarinhos e o espremi contra a parede. Seus lábios negavam a agressão aos filhos, mas seus olhos confessavam que sim. O cretino pagou fiança e responderá em liberdade. E eu que recebo um processo. Dora sempre me lembrava de que toda ação causa uma reação, nesta vida ou na outra. Ela, como nos tempos de infância, apelava para que eu não usasse de violência, pois isso impediria o que ela chama de evolução espiritual. Ela só teria razão se este mundo não fosse um lugar hostil, em primeiro lugar. Lembro-lhe de que o Carniceiro ainda está à solta, e que ela precisa me acompanhar para verificar mais um corpo. Ela então respira fundo e começa a buscar concentração para a tarefa.
       Chegamos à esquina da Rua Laques com a Fevre, e meu destacamento já está no local. Um funcionário do cinema da cidade havia sido a terceira vítima do Carniceiro. Alguns fotógrafos da imprensa tentam tirar fotos do corpo, mas os policiais os mantêm à distância. As únicas fotografias permitidas aqui são tiradas pelo fotógrafo pericial Valère Ambroisie, que também tem acompanhado o caso desde o início.
       Fito o corpo da pobre vítima e procuro fechar o quebra-cabeça, relembrando de cada detalhe do caso.
       Quase dois meses atrás, um pescador fora encontrado morto a facadas no cais do porto. Não havia sinais de luta e o assassino havia lacerado pedaços de carne do peito da vítima. O médico perito concluiu que a vítima fora morta nas primeiras horas da manhã e que ainda estava viva quando fora mutilada, o que indicava que tínhamos um assassino sádico e cruel na cidade. Um mês após a morte do pescador, uma prostituta fora achada morta em um gueto com os mesmos requintes de crueldade. A perícia médica concluiu que a jovem moça fora morta durante a tarde e que teve um pedaço da perna retaliada enquanto ainda estava viva. O tipo e a profundidade dos cortes foram os mesmos encontrados nas duas vítimas, o que indicava que estávamos diante de um assassino em série. A imprensa logo o apelidou de Carniceiro de Villene. As pessoas começavam a deixar de sair à noite, estavam inseguras e amedrontadas. E, quando a insegurança bate à porta, a polícia é cobrada por cada assassinato sem solução. A imprensa citou meu nome, recontou a célebre história do detetive René Durand, e do tenente Eric Buffon. Eu havia ganhado destaque nos jornais, e as pessoas que me encontravam nas ruas cobravam soluções ágeis, como se eu fosse um nobre herdeiro da lenda que fora René Durand. Foi quando o comissário Dousseau insistiu para que Dora, a Adivinha, fizesse parte das investigações. E aqui estamos nós, na esquina da Laques com a Fevre.
       Ao que tudo indica, o homem fora morto enquanto deixava o cinema. Ele era o operador de projeção e estava aprontando o cinema para a primeira sessão do fim-de-semana. Desta vez, a vítima não apresentava mutilações. Apenas os cortes profundos pelo corpo, e um corte fatal na garganta. Pelo visto, o assassino não pôde completar sua obra a tempo. Então, afastei-me do corpo para investigar as cercanias. Dora não me seguiu. Manteve-se de pé, de frente para a vítima. Ora fechava os olhos, erguia as mãos, e sacolejava de um lado para o outro, como em transe, procurando captar alguma energia, como ela dizia. Bem, ela usava os métodos estranhos dela, e eu usava os meus, bem conhecidos, o raciocínio dedutivo. Então, eu apontava o dedo para o chão, como se estivesse escrevendo anotações ao vento enquanto andava pela calçada em círculos. Era o meu jeito de estimular o cérebro. Então, à vista de um transeunte, tanto eu quanto Dora parecíamos dois loucos fugidos do manicômio. Mas, cada qual a sua maneira, e com suas manias, tentava chegar a uma conclusão em comum. Alguns policiais riem de Dora e seus trejeitos. Valère achara engraçada a cena e resolve tirar uma foto minha e de Dora, ao que é imediatamente advertido por mim. Ele era um técnico da polícia e, portanto, deveria agir como tal. Eu posso sair da linha, às vezes, mas é sempre em função do meu trabalho. Então me recomponho e inicio meu raciocínio investigativo.
       Estive em todos os locais dos crimes e analisei cada vítima. Assim como o pescador e a prostituta, o funcionário do cinema não tinha antecedentes criminais, nem histórico de desavenças ou dívidas. Provavelmente as três vítimas sequer se conheciam. O intervalo entre as mortes das vítimas estava sendo encurtado, o que indica que o assassino estava se sentindo mais seguro e confiante. Nenhuma vítima deu indícios de ter reagido, o que indica que o assassino era um oportunista. Ele escolhia vítimas pacíficas ou mais fracas fisicamente, e as atacava de surpresa. Esse maldito sádico atacava pessoas desconhecidas apenas para ter o prazer de vê-las sofrer. Ele devia atacar primeiro com um corte não fatal na garganta, para que a vítima não pudesse gritar. Em seguida começava seu ritual de carnificina, torturando suas vítimas com estocadas e mutilações, sempre de frente para a vítima, para só então cortar profundamente a garganta delas. Mas o abatimento de suas caças devia ser precedido de uma paciente caçada. O Carniceiro sabia exatamente onde as vítimas estariam para atacá-las, e no momento em que as ruas estivessem mais desertas. O assassino era um exímio observador, ele conhecia a rotina da cidade. Ele deve exercer alguma profissão flexível ou autônoma, provavelmente deve ser um comerciante para poder agir em vários horários e em qualquer dia da semana, pois se fosse um empregado fixo, os crimes ocorreriam à noite ou nos finais de semana. Como nenhuma pessoa próxima às vítimas relatara encontros prévios com estranhos, tampouco as vítimas se conheciam, o assassino deveria observá-las à distância, mantendo certo cuidado em suas observações e análises, o que devia até aguçar a cobiça por cada nova vítima. O fato das vítimas serem escolhidas unicamente pela constituição física pacífica e frágil, sem nenhum atributo visual como gênero feminino ou profissão, indica que o assassino mantinha um desprezo universal por qualquer pessoa. Ele era um psicopata. E um covarde. Preferia agir sem despertar suspeitas. Seu prazer estava na crueldade em si. Não sentia necessidade de chamar a atenção. Não era um narcisista que enviava cartas à polícia pedindo para ser pego. Ele apenas era um doente que fazia o que fazia sem o desejo de ser incomodado ou ficar famoso. E ele não iria parar a menos que alguém o detivesse. Então eu fico me lembrando das manchetes dos jornais dos últimos dias e penso: “Como foi mesmo que meu bisavô descobriu a identidade do Estrangulador da Madrugada?”
       Sinto uma mão pesada em meu ombro, o que interrompe o meu transe. É o comissário Dousseau. Ele avisa que já vieram levar o corpo e pede para que eu retorne à delegacia, mas não sem antes deixar a doidinha da Dora Voux na casa dela.
       – É parapsicóloga forense! – corrige um Dousseau um tanto ríspido. Ele não deveria ficar tão ofendido. É só o jeito que tenho de chamar uma velha amiga.
       Dora não ligaria. Ela sabe o que penso dela. Sabe que eu a vejo com desconfiança. Sabe até que, no fundo, tenho um pouco de medo desse olhar penetrante que ela tem, como se vasculhasse os segredos ocultos de nossa alma, tentando trazer à luz algum lado sombrio de todos nós. Às vezes, até parece que ela é que é detetive. Mas, no carro, ela resolveu dar uma de médium mesmo:
       – Senti uma energia muito pesada desta vez, Antoine. E temo que a história possa se repetir se você não cumprir o seu dever. Você se lembra de uma brincadeira que fazíamos quando éramos crianças? A brincadeira do Detetive, lembra? Escrevíamos em um papel “D” para Detetive, “A” para Assassino, e “V” para as Vítimas. Depois dobrávamos, embaralhávamos e cada um sorteava um papel. Lembra que gostávamos de ser o Detetive, mas tínhamos medo de sermos o Assassino na rodada seguinte? Dizíamos que uma vez sendo Detetives, não pegaria bem sermos o Assassino. Portanto, prometa que não perderá a calma, para não acabar se tornando um assassino – Aconselhou Dora.
       Ela dizia essas coisas como se ela soubesse de algum segredo. Ela não deveria ligar para o que a imprensa diz a meu respeito. Eu sei que tenho um impulso agressivo, mas tudo que faço é pela justiça e a ordem. Eu só agrido bandidos, para que as pessoas inocentes vivam em paz. Então eu deixo Dora em sua casa e me despeço, prometendo a ela que tudo acabaria bem e que eu manteria minha missão de homem-da-lei.
       Na delegacia, passei a tarde relendo os arquivos policiais e as reportagens publicadas sobre o caso do Estrangulador da Madrugada, enquanto aguardava em vão alguma novidade do médico legista. Mas foi lendo um trecho do relatório final do caso, que eu me dei conta da peça que faltava em meu raciocínio.
       Meu bisavô havia escrito:

       “De todos os suspeitos sobre a identidade do Estrangulador, o encarregado das docas Hector Blanc seria o último nome da minha lista. Minha estima por ele ser um funcionário exemplar e de um bom cargo da prefeitura de Villene impediu que eu enxergasse o óbvio. Porque todo assassino serial cobiça as vítimas que ele vê todos os dias. Assassinos só são complicados em suas mentes, em seus complexos, mas suas ações são tão previsíveis e inteligíveis quanto às ações de qualquer outro criminoso. Ele se apropria do que não lhe pertence. Ele se julga acima da lei e das normas, e as perverte, porque é de sua natureza ser abusivo. Lembrete para as próximas investigações: Duvidar de tudo e de todos, e não descartar as hipóteses inibidas por nosso senso moral. Qualquer um pode viver uma farsa de uma vida pura e hospedar um demônio dentro de sua mente”.

       Foi quando me ocorreu um pensamento que eu havia negado de leve em minhas deduções. Meu senso estrito de que todo policial, de que toda autoridade, é de fato aquilo que deve ser conceitualmente acabou por impedir que eu pensasse que o Carniceiro teria tempo livre para vigiar suas vítimas justamente por ser um vigilante, por passar despercebido pela multidão simplesmente por estar fazendo o seu trabalho diário, isto é, observar as pessoas. Mas o que o assassino não sabe é que eu tinha um trunfo. Meu destacamento de investigação também contava com um perito em observação: Valère Ambroisie. As fotografias que ele tirava das cenas do crime não focavam só o corpo das vítimas. Ele abrangia o perímetro e os ângulos de visão das ruas ao redor. Ele não descartava detalhes.
       Como seu turno já encerrou há algumas horas, desço pessoalmente até o laboratório, no subsolo da delegacia, mas não encontro nenhuma foto diferente das que eu já havia analisado. Impossível. Valère tirava muito mais fotos do que essas que estão aqui. A menos que ele tivesse descartado algumas. Ou revelado algumas e levado para casa. Então um pensamento me atinge como a um raio. Valère trabalha com horários flexíveis, e a qualquer hora do dia poderia estar tirando fotografias da cidade e ninguém suspeitaria de suas intenções. Ele poderia observar à distância qualquer pessoa em toda a Villene e registrar os hábitos de qualquer um, dia após dia. E se fosse surpreendido por alguém enquanto caminhasse próximo à cena do crime, poderia alegar que estava a tirar fotos de outros casos, ou que viera atender ao chamado da polícia.
       Chamo pelo sargento Legrand, e juntos pegamos uma viatura até a casa de Valère. Já está escurecendo quando batemos à porta do prédio onde ele reside. Uma mulher de idade avançada informa que Valère não estava em seu apartamento, que ele estava na delegacia, de plantão. Mentira.
       – Legrand, eu assumo o risco. Irei invadir o apartamento de Valère, e você fica aqui, de guarda.
       – Mas, inspetor Durand, o senhor não tem provas, o senhor sequer tem um mandado.
       – Sargento, se não for Valère, eu me entendo depois com o comissário. Mas, e se for? Você pode conviver com isso?
       Legrand não disse mais nada. Era agora meu cúmplice. Sem perda de tempo, escalo uma árvore e consigo entrar no apartamento de Valère pela janela da sala. O apartamento está vazio. Com meu revólver em punho, percorro todos os cômodos um a um, mas o último quarto está trancado. A chave deve estar com Valère. Sem hesitar, eu forço o ombro e quebro a tranca, abrindo finalmente a porta. Mas este quarto não tem lâmpada, então eu acendo um fósforo e me deparo com uma cena atemorizante.
       Este é o estúdio particular onde Valère revela suas fotos em casa. Penduradas em varais estão as fotos de todas as vítimas do Carniceiro. Espalhadas pelas mesas estão as fotos das vítimas antes de serem atacadas. Ele colecionou todos os momentos, desde a perseguição e observação de suas futuras vítimas até seus rostos após a agonia da morte. Agora tenho provas suficientes para mandar Valère até para a forca. Mas antes de sair deste quarto grotesco, eu dou mais uma olhada em uma das gavetas, e então meu sangue ferve. São fotos recentes, tiradas com o mesmo intuito das outras, a de identificar os hábitos e locais de frequência das futuras vítimas. A próxima vítima de Valère – uma mulher magra e pacífica, que jamais reagiria a um ataque violento. Minha mão segura as fotos da advinha Dora Voux.
       Corro de volta para a janela da sala e pulo direto até a calçada, quase matando o sargento Legrande de susto. Peço que ele retorne imediatamente para a delegacia e destaque dois policias para sair em busca e apreensão de Valère Ambroisie, e mais dois policiais para irem até a casa de Dora Voux e levá-la para a delegacia, o lugar mais seguro por ora.
       – Quanto a mim, irei a pé até a casa da médium, percorrendo o mesmo caminho que Valère terá feito. Sem uma viatura, creio que despertarei menos suspeitas. Agora, rápido, Legrande. Não temos um minuto a perder.
       Percorro sozinho as ruas agora escuras e desertas em passos apressados. Sob a luz fraca do luar e envolto pelo frio da noite, fico imaginando se era essa a sensação que René Durand e Eric Buffon sentiram ao perseguirem o Estrangulador. Será que meu destino será o de Buffon ou terei o dedo rápido no gatilho para atirar contra o assassino, caso ele me surpreenda? Espero não chegar tarde demais. Mas Dora certamente acolherá o policial Valère em sua casa, imaginando que ele terá algo de revelador a ela. Droga, Dora! Mas que tipo de adivinha seria você se não adivinhar quem irá matá-la? Mas você sempre fez questão de ignorar as maldades das pessoas! E agora está correndo sério risco. Começo a entender por que Dora sentia uma energia tão pesada cada vez que chegávamos às cenas dos crimes. Era porque o próprio assassino estava também sempre presente. Valère deveria estar se regozijando por dentro ao fotografar para a polícia cenas de seus próprios crimes. Essa era a afronta final de Valère, a perversão da própria ordem. Obrigado pela dica, bisavô René. Sem saber, você me ajudou a chegar até aqui.
       Em quinze minutos chego à porta da casa de Dora. As luzes estão apagadas. Procuro ter uma visão geral da rua, mas não detecto movimento algum. Prendo a respiração e giro a maçaneta, forçando a porta para dentro. Trancada. Pensei ter sido fortuito, mas alguém acaba de correr da sala para a cozinha. Os passos que escuto não são de uma mulher serena. Chuto a porta, e com a arma em punho entro sem titubear, mantendo-me agachado.
       – Aqui é a polícia de Villene! Saia com as mãos para cima!
       Examino toda a sala com os olhos atentos e a respiração acelerada. O silêncio é tamanho que sinto meus ouvidos pulsarem a circulação sanguínea em minha cabeça. Um gosto amargo invade minha língua. Sinto-me prestes a explodir. Então viro para o quarto e a vejo.
       Dora Voux está estirada na entrada do quarto, quase inconsciente. Algumas rachas escuras e viscosas brotam de seu corpo e um colar negro cobre seu pescoço. Apesar dos ferimentos, ela sangra pouco, assim como todas as vítimas. O Carniceiro aprendera nos cursos da polícia sobre o corpo humano e só atingia pontos de pouca pressão sanguínea. Ela sussurra algo, então eu hesito em dar-lhe as costas para perseguir o assassino de uma vez. Atento a qualquer movimento, eu me aproximo de Dora. Ela se engasga com o próprio sangue e gorgoleja, mas eu consigo compreender ela dizer debilmente:
       – Cuidado com suas escolhas. Não siga a mesma história que o seu bisavô, ou você terá o mesmo destino que o dele. Desculpe por não podermos conversar mais, amigo.
       Então seu corpo começou a convulsionar e ela disse o suficiente antes de desmaiar:
       – Ele... Ele está atrás de você!
       Eu viro como um gato, evitando que Valère cravasse sua difamada faca em meus pulmões. Mas o maldito também é ligeiro e consegue imobilizar minha mão prestes a apertar o gatilho. Enquanto rolamos pelo chão da sala, eu procuro subjugá-lo psicologicamente, avisando que a polícia está a caminho e dizendo que sua vida dupla chegara ao fim. A única saída era que ele se entregasse. Mas Valère resistia com uma força quase sobre-humana. Então eu resolvo largar a arma no chão para concentrar todas as minhas forças em dominá-lo. Aproveito o suor de sua mão, para deslizar meu pulso e livrar-me de seu agarre. Antes que ele reaja, desfiro-lhe um soco nos dentes. Ele cai para trás e chuto sua outra mão, fazendo com que sua faca deslize para a cozinha. E é para lá que ele corre. Eu poderia agora pegar meu revólver e alvejar suas pernas. Mas não faço isso. Estranhamente uma força me envolve e eu simplesmente salto sobre ele, derrubando-o. Envolvo meus dedos em seu pescoço e o aperto com todas as minhas forças.
       – Acho que você sempre soube o que aconteceria com você, seu facínora, quando eu o pegasse: o mesmo trato que dou a qualquer delinquente que cruza o meu caminho nesta cidade. Não vou pegar leve com você, Valère. Você agora vai sofrer.
       Então minha visão se apaga.

       Recobro a consciência com o som das sirenes e o sargento Legrand gritando para que eu solte o suspeito. Só então minha visão retorna e à minha frente está o rosto de Valère sem vida, com os olhos estalados e a língua para fora. Meus dedos continuavam pressionados e entranhados naquele pescoço enrijecido.
       Dora é levada urgentemente ao hospital, e eu sou conduzido até a delegacia. Passo a noite detido – eu, um exemplar defensor da lei, detido como um criminoso comum. Legrand visita minha cela uma vez e me conforta ao dizer que Dora ainda está viva e consciente, mas que o estado de saúde dela é grave, pois os ferimentos foram profundos. Também passo horas depondo para o comissário Dousseau até que finalmente me deixam dormir um pouco. Ao amanhecer, o comissário Dousseau me informa de que estou suspenso por um mês, enquanto um processo julgará se continuo na corporação ou se sou rebaixado a atividades administrativas, independente do que o juiz decidir sobre mim, criminalmente. Então sou liberado, e um sentimento de revolta me envolve. Deveria estar feliz pelo fim do Carniceiro, e por tantas mortes que eu certamente evitei. Mas neste momento estou confuso quanto ao meu papel em defender a lei a qualquer custo.
       A imprensa me espera do lado de fora da delegacia. Uma multidão de curiosos me aguarda para questionar meus atos, e rechear as páginas policiais sobre o desfecho do caso. Em meio aos repórteres, surge um abatido sargento Legrand. Ele está com um papel dobrado na mão e me entrega. No papel dobrado estão as iniciais D. V. A. Meus olhos se apertam e Legrand me consola:
       – Sinto muito, inspetor, mas não conseguimos salvar sua amiga. A senhorita Voux não resistiu aos ferimentos e faleceu nesta manhã. Curiosamente, enquanto estava lúcida, fez-me um estranho pedido. Queria escrever uma carta para o senhor, e pediu que eu a entregasse ao senhor, no caso dela morrer. Como foi isso o que aconteceu, eu estou atendendo ao último pedido da senhorita. Eis a carta, inspetor Durand. Meus pêsames, e espero que o que esteja escrito aí o conforte.
       Enquanto eu leio, o mundo para mim parava no tempo. Já não sentia a presença do sargento Legrand, nem dos flashes dos fotógrafos, nem da dor que eu suportava.
       Apenas li:

       “Estimado amigo e companheiro de aventuras, Antoine. Eu, sua velha amiga Dora, lhe escrevo porque sei que não sobreviverei aos ferimentos, e não poderemos conversar mais sobre a vida e a morte. Sinto muitíssimo por nossa convivência ter sido insuficiente. Digo isso porque a maioria de nós só descobre a verdade sobre si mesmo no final. Para mim mesma só foi possível constatar a verdade sobre mim e a conexão entre nós no final de minha peregrinação nesta vida. Por isso, devo revelar-lhe agora o que sei, já que estou no meu final. Antoine, eu sei do segredo de sua família. Sei que não é verdade que o famoso Estrangulador da Madrugada, Hector Blanc, reagiu à prisão do detetive René Durand, seu bisavô. Naquela noite, o detetive Durand havia chegado à casa de Blanc tarde demais. Blanc havia acabado de assassinar sua mais recente vítima, o tenente Eric Buffon, também parceiro e grande amigo de seu bisavô, que tomado de ira e desejo de vingança, resolveu fazer justiça por conta própria, disparando sua arma contra um desarmado Hector Blanc. E como eu sei disso, estimado amigo? Como havia dito, todos nós passamos por este mundo muitas vezes, e em cada encarnação somos impelidos a responder pelos erros das vidas passadas, e a cumprir nossa missão. Você se lembra de quando brincávamos de Detetive, certo? Ora um era o Detetive, outro, o Assassino, e outro, a Vítima e de como isso mudava a cada rodada? Agora sei por que gostávamos tanto desta brincadeira, mas você estará preparado para a verdade que irei revelar-lhe? Querido Antoine, eu vim para esta vida como médium, auxiliando a resolver crimes e a impedir assassinatos sem pedir nada em troca, unicamente para pagar pelos erros que cometi na minha vida passada, quando eu era o detetive René Durand, seu bisavô. Cabia a mim – Dora Voux, reencarnação do detetive René –, a missão de pagar esta dívida, a de falhar na tentativa de fazer justiça no passado através da ira e impaciência, fazendo agora justiça por meio da compaixão e caridade, usando meus dons. Mas a verdade não estaria completa sem o papel igualmente importante da última vítima de Hector Blanc, o tenente Eric Buffon, meu grande parceiro de investigação na encarnação passada. Essa revelação só me ocorreu ontem, quando fui atacada, porque essa foi a noite em que encontrei Eric Buffon novamente nesta vida, na irônica e trágica encarnação de meu algoz, o assassino em série Valère Ambroisie. Quando Valère entrou em minha casa, eu senti aquela energia novamente, aquela energia pesada e cheia de dívidas que já havia sentido antes. E quando Valère me atacou, eu gradualmente comecei a recordar da vida dupla que ele tinha na encarnação passada. O tenente Buffon, por trás de toda uma fachada de combate ao crime, era de longe o exemplo de bom caráter. Em suas folgas, aliciava a prostituição de menores, e, em casa, abusava física e sexualmente de sua esposa. Seu status de bom policial o colocava acima de qualquer suspeita. Mas sua vida dupla não estaria tão bem protegida sem a conivência de seu grande amigo, o detetive René Durand. Por isso, Eric Buffon, apesar de ter sido assassinado, deixou este plano com uma dívida de dor e corrupção, e reencarnou como Valère Ambroisie, herdando seu instinto abusador e perverso. Sua missão era evitar se entregar aos impulsos psicopatas ou ser preso finalmente por seus crimes e receber o tratamento devido em uma prisão psiquiátrica, onde diminuiria suas dívidas para a próxima encarnação. Por isso eu o alertei, velho amigo, para não agir acima da lei. Ao matar Valère Ambroisie, você impediu que ele cumprisse a missão dele, e ao mesmo tempo, acrescentou em sua passagem nesta vida uma dívida a qual você deverá pagar no futuro. E é neste ponto que chego à verdade sobre você mesmo. A última revelação que lhe devo, o último fio que conclui essa trama, e também a última peça que reconheci. Você, meu caro Antoine, também desempenha um papel nessa história. Eu havia lhe advertido sobre suas escolhas, e você deveria ter escolhido levar Valère Ambroisie à justiça ao invés de ter se entregado aos seus impulsos violentos e sádicos. Então, você escolheu matar Valère do mesmo modo que você assassinava suas vítimas na vida passada, quando você era Hector Blanc, o Estrangulador da Madrugada. Todos precisamos evoluir, querido amigo, até mesmo os maiores pecadores. E não há ofensa maior à criação do que interromper o fluxo da vida de outro ser humano. Eu digo por conta própria. Afinal, eu o matei na encarnação passada, quando eu era o detetive René Durand, e você, Hector Blanc. É por isso que assassinos e vítimas costumam se reencontrar em outras encarnações para reequilibrarem o carma. Como missão nesta vida para pagar tamanha dívida, você reencarnou em uma família de policiais, para ter a chance de combater o crime e evitar a morte de inocentes. Você evoluiu como pôde, mas em seu teste final, vacilou, ao matar novamente. Não só porque você foi um assassino em série, mas porque sua última vítima no passado foi Eric Buffon, e você o matou novamente, na pessoa de Valère Ambroisie. Assim, você interferiu na evolução de todos nós. Na sua própria, ao não evitar que voltasse a matar; na de Valère Ambroisie, ao impedir sua evolução; e na minha, ao ter eu o dom de conciliar tudo, mas ter falhado como sua tutora espiritual. Como pôde ver agora, trocamos nossos papéis de uma encarnação para outra, como naquela brincadeira de criança. Eu fora o detetive, agora eu fui a vítima. O que fora a vítima, agora era o assassino. E você, que fora o assassino, agora foi o detetive. Escrevo tudo isso para que você encontre forças para viver uma boa vida e usar o tempo que lhe resta para aprender sobre si mesmo.  Procure ajuda. Porque se você está lendo isso, é porque falhou em sua missão. Espero que tudo dê certo quando nos encontrarmos mais uma vez, para pagarmos pelo crime que todos nós cometemos. Até a próxima vida, Antoine. Da sua dileta amiga: D. V. A. – Dora Voux, a Advinha”.
Vitor Pereira Jr
Enviado por Vitor Pereira Jr em 30/03/2014
Reeditado em 07/03/2017
Código do texto: T4750112
Classificação de conteúdo: seguro

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