A APARIÇÃO

A APARIÇÃO

Eu tinha apenas seis meses de formado. Fui contratado como técnico agrimensor para trabalhar como servidor público estadual, através de um convênio feito pelo estado, e teria que ficar lotado na delegacia de terras de uma cidade de médio porte no sudoeste da Bahia.

Viajei à referida cidade e lá cheguei no mes de junho em pleno inverno. A cidade é uma das três mais frias do estado. E eu não estava acostumado a climas mais frios, pois morava numa cidade de clima mais quente. Quando cheguei, às dez horas da noite, peguei um táxi e falei ao motorista aonde ele devia me levar.

Vi quando o taxista olhou-me rápido pelo retrovisor. Quis interagir comigo.

- Você é daqui?

- Não. Sou de Itabuna.

- Veio passear ou trabalhar?

- Vim trabalhar.

- Vai estranhar o clima. Itabuna é quente e Conquista é fria.

- Pois é, estou com este capote, mas estou sentindo muito frio. Parece que vou comprar outro que me aqueça melhor.

- Vai precisar mesmo! - disse-me o taxista, olhando-me com um sorriso irônico pelo retrovisor - Olhei o termômetro instantes atrás na rodoviária e estava marcando sete graus positivos. Costuma baixar mais um pouco, entre três, quatro e cinco graus...

- Vai ser difícil me adaptar, mas terei que suportar, porque depois vem a primavera e aí o clima fica mais ameno antes do verão chegar...

Quando o táxi parou na porta do hotel, que pertencia a mãe de um colega que havia se formado comigo, e que foi contratado pra trabalhar numa outra região do estado, ao sair do carro, senti o quanto seria difícil atravessar o inverno naquela cidade, pois tinha muita dificuldade pra me mover, sentindo o corpo congelado.

Assim que o taxista tirou a bagagem do porta-malas, paguei-lhe a corrida e ele, após me agradecer, desejou-me boa sorte e foi embora.

Aquela hora da noite, a neblina era tão densa que não dava pra ver nada na rua. Apesar de está de frente ao hotel, tive alguma dificuldade de enxergar a sua fachada. Porém, ao pisar no passeio, vi que havia um pequeno portão de ferro, e depois dele, uma pequena escada dava acesso à porta de entrada da casa.

Abri o portão, subi a escada e apertei a campainha. Em poucos instantes uma mulher de meia idade abriu a porta.

- Boa noite. O que você deseja?

- Boa noite. Gostaria de saber se aqui é o hotel de D. Carmen, a mãe de Paulo?

- Sim. É aqui mesmo. D. Carmen sou eu.

- Então, D. Carmen, o meu nome é Adilson. Cheguei a pouco instante de Itabuna e vim trabalhar aqui em Vitória da Conquista. Foi Paulo quem me indicou o hotel da senhora.

- Está bem. Entre, por favor. Está muito frio aí fora. Estou vendo que você está tremendo de tanto frio que está sentindo.

- Sim. Estou mesmo. Não estou acostumado a morar em cidade fria.

- Aqui, o frio é mais intenso no inverno. Só melhora nas outras estações, mas mesmo fazendo sol, o vento frio é constante.

- Já vi que vou sofrer com este frio intenso. Em todo caso, acho que valerá a pena passar por essa nova experiência, afinal, depois virão as estações mais quentes.

- Tem gente que se adapta logo, tem gente que não. Espero que você não desista.

- Certamente não desistirei. Ficarei na cidade o tempo que for necessário pra desempenhar a função para a qual fui contratado.

A dona do hotel olhou-me pensativa por alguns segundos, depois me disse:

- Engraçado, veja como é a vida, Paulo, acostumado ao clima frio, viajou esses dias pra morar e trabalhar numa região de clima quente. Já você, habituado ao clima quente, veio tentar se adaptar a uma região de clima frio... São os desafios da vida aos quais nos submetemos, não é mesmo?!

- Verdade.

- Aqui, como você pode ver, é um pequeno hotel. Contudo, faço o melhor que posso para que os hóspedes se sintam bem acolhidos. Ao todo, são sete quartos. Cinco estão disponíveis para os hóspedes. Um é para as duas mulheres que me ajudam, uma nos serviços gerais e outra pra cozinhar. E o outro é o que eu durmo com a minha filha. Antes, era só uma residência com três quartos. Depois que o meu marido morreu, tive uma certa dificuldade pra sobreviver, e aí, transformei a casa em hotel. Como tínhamos alguma reserva, usei-a na reforma da casa, ampliando-a. Em quatro quartos há três camas de solteiro. Em um, uma cama de casal. Geralmente, quem chega para se hospedar é solteiro. Homens que ficam poucos dias, resolvem os seus problemas e depois vão embora. Quando chega um casal ou uma mulher solteira, usam o quarto com a cama de casal. Mas a maioria dos meus hóspedes são homens.

O frio dentro de casa era menos intenso. A casa era toda forrada. Simples, porém, com algum conforto. O meu tremor diminuiu, mas continuei sentindo frio. D. Carmen fez uma leve pausa, em seguida me falou:

- Não sei se você é casado ou solteiro, Adilson, mas vai ficar no quarto que tem a cama de casal, aliás, é uma suíte. No momento, eu não tenho nenhum hóspede permanente. Caso você goste de ficar aqui, já que veio pra morar e trabalhar, poderá ficar nele, assim, se sentirá melhor, com mais privacidade. Apenas têm uns detalhes que eu quero lhe explicar: mesmo ficando nesse quarto, você não poderá trazer mulher pra dormir com você, só se você for casado. E também, como eu não tenho outro quarto de casal pra hóspede, caso chegue algum casal pra se hospedar por um ou dois dias, gostaria que você fizesse a gentileza de cede-lo enquanto eu o hospedo. Quero dizer, se tiver alguma cama de solteiro vazia, pra você dormir nela, caso não tenha, eu digo ao casal que chegar, que os quartos estão todos ocupados.

Olhando-lhe nos olhos de um jeito sério, balancei a cabeça positivamente. Depois, lhe esclareci:

- Eu sou solteiro, D. Carmen. Quanto ao que a senhora me explicou, eu concordo. Agora eu quero saber quanto vai me cobrar pela hospedagem? Até porque, vai ter semana que ficarei no escritório, outra, ficarei no campo, trabalhando.

- Sobre isso, falaremos amanhã. Agora você precisa se recolher pra dormir. Venha, vou lhe mostrar o quarto. Antes, porém, vou por um café pra você tomar. Se sentirá melhor, ficará mais aquecido.

Dois hóspedes, talvez com insônia, estavam sentados na sala de visita, assistindo TV, num tom baixo, pra não incomodar os outros que dormiam. No entanto, num dos quartos, pude ouvir alguém que ressonava num leve ronco. Me lembrei que nem um ruído nem outro me incomodava. Tenho um sono pesado. Após colocar as minhas coisas no quarto, voltei e sentei-me à mesa da copa pra tomar o café. A mesa já estava posta. D. Carmen só se ocupou em me servir. Sempre gostei de tomar café com leite, desde criança, e assim o fiz naquele momento, no adiantado da hora noturna, acompanhado com pão, cuscuz, bolo e ovos fritos. Apesar do incômodo provocado pelo frio, estava com fome. Após o café delicioso me sentir melhor.

Levantei-me da mesa e fui andando na direção do quarto. Um longo bocejo denunciou o sinal de sono. Antes de entrar nele, pegando na maçaneta e entreabrindo a porta, ainda olhei para a sala de visita já vazia, mas o leve ronco que ouvi instantes atrás, me soava agora mais forte. Entrei. Outro bocejo acelerou o sono. Nem observei o quarto direito. Estava um tanto exausto por causa da longa viagem. Não deu tempo nem de tirar a roupa pra por o pijama. Com o frio que fazia fiquei sem coragem de me desagasalhar pra me agasalhar de novo. Não esqueci de apagar a luz. Só durmia de luz acesa. Depois de um fato que me ocorreu quando tinha quinze anos, e até então estava com vinte e dois, quando ocorria de dormir com a luz apagada, tinha pesadelo. Quanto ao fato que me ocorreu, conto mais adiante. De vez em quando me lembro dele, sobretudo, quando sou forçado a dormir de luz apagada. Apalpei a cama e senti a sua maciez. Me enfiei debaixo de dois cobertores grossos e em poucos instantes adormeci.

Acordei cedo, como de costume. Em meu sono profundo nem me recordo de ter sonhado. Quando isso ocorre, me lembro de algum sonho apenas um ou dois dias depois. Decerto a noite foi muito fria. Como estava bem agasalhado, tanto de roupa como de cobertor, além do cansaço, nem percebi o frio insistente tentando se apoderar de mim. Ainda deitado corri o olhar pelo quarto. Não era nem tão grande nem tão pequeno, o suficiente pra lhe caber uma cama de casal, um guarda-roupa, e uma cômoda com uma cadeira. A claridade matutina lhe adentrava pelos vidros da janela, que se abria para a área lateral de circulação externa da casa. A suite era pequena, mas o que nela continha satisfazia as necessidades básicas para quem a usasse. Nela também havia uma báscula que lhe permitia a penetração da luz solar. Assim, de uma certa forma, me senti em casa, naquele ambiente doméstico bem acolhedor.

Mesmo sentindo frio, criei coragem, levantei-me, higienizei-me sem tomar banho, troquei de roupa, me agasalhei com o capote e sair do quarto pra tomar o café da manhã. O hotel ficava num bairro centralizado. Tanto podia ir de ônibus como podia ir a pé para o escritório regional da delegacia de terras que ficava numa das ruas centrais da cidade. Como tinha o seu endereço, pra começar a conhecer a cidade, preferi andar a pé. Andei uns vinte minutos, me informando dos transeuntes que passavam, e quando localizei o escritório, faltavam dez para as oito da manhã. Ficava no primeiro andar de um edifício de três andares. Subi as escadas sentindo menos frio devido ao percurso que fiz andando. Bati na porta, entrei e me apresentei. A secretária me recebeu e me disse que aguardasse um pouco, só o tempo do delegado de terras chegar.

Em poucos minutos ele chegou. Chamava-se Elton. Era engenheiro agrimensor. Nos apresentamos e ficou combinado que eu ficaria pelo menos uns quinze dias no escritório me adaptando aos serviços de cálculos, desenhos e outros afazeres inerentes às atividades que ia desempenhar. Em síntese, era uma espécie de treinamento teórico, que incluía a parte prática no manuseio do equipamento, posto que, com o qual, demarcaria as terras rurais destinadas à legalização fundiária junto ao estado, testando assim, a minha capacidade profissional.

Ao cabo de quinze dias, fui designado por Elton pra executar o meu primeiro serviço de campo. Antes de viajar, combinamos, eu e D. Carmen, como lhe pagaria a hospedagem. O acerto ficou da seguinte forma: só lhe pagaria as refeições quando tivesse na cidade. Porém, a dormida, mesmo estando ausente, ela me cobraria como se eu estivesse presente, até porque, as minhas coisas continuariam no quarto, além disso, conforme me havia dito, caso chegasse algum casal pra se hospedar, ela usaria a suíte. Como o meu ordenado era mensal, lhe pagaria, claro, mensalmente. Creio que, desse modo, compensou pra ambos.

No primeiro mes, fiquei ausente vinte dias. No segundo, quinze dias. No terceiro, por ter muito serviço de campo acumulado, fiquei quase todo o mes no escritório, fazendo cálculos, desenhos, conferindo as cartas de confrontantes, e organizando dados relacionados aos proprietários das terras demarcadas. D. Carmen, que estava mais habituada com a minha ausência do que com a minha presença no hotel, se admirou e gostou, porque passei a fazer as três refeições diárias, e fiquei, por assim dizer, sendo um hóspede mais presente, o que lhe resultou num lucro a mais que naquele mes ela obteria de mim.

Durante o inverno, o frio na cidade e região era tão intenso que eu ficava de capote todo o tempo. Só tomava banho de dois em dois dias, e mesmo assim, claro, tinha que tomar banho quente. Vitória da Conquista é a principal cidade do sudoeste da Bahia. A segunda maior do interior do estado. O seu clima frio é devido à sua localização geográfica. Cortada pela BR-116, e também conhecida como a Rio-Bahia, ela situa-se numa espécie de grande bacia, cuja topografia é semi-plana. O seu ponto mais alto, depois que sobe-se a famosa ladeira do Marçal com o seu traçado bem sinuoso, em seu cume mede-se mil metros de altitude, sendo o ponto mais alto em linha reta até o estado do Rio de Janeiro. Portanto, geograficamente, ela situa-se num planalto. O grande planalto do sudoeste baiano.

Sofri com o inverno, mas resisti. Os lábios ficaram ressecados e racharam. Com o uso de uma pomada específica eles voltaram ao normal. Assim que me formei, contraí uma icterícia. Fiz um tratamento e fiquei bom. Como fazia uso de bebida alcoólica, fiquei sem beber durante um ano por ordem médica, até que o organismo, debilitado pela enfermidade, se restabelecesse. Nasci numa família católica, cujo hábito doutrinário é mesclar o sagrado com o profano; o lícito com o ilícito; o virtuoso com o defeituoso, havendo nessa prática sincrética, um estímulo aos vícios mundanos. Creio que, por prova cármica, álcool e mulher, muito cedo, fizeram parte dos meus desregramentos. Me lembro que, nesse período de repouso sem tocar em álcool, um colega evangélico (que depois de alguns anos o reencontrei exercendo a nobre missão de pastor) me convidou pra frequentar a sua igreja. Aceitei, mas só a frequentei por alguns meses. Ainda não me sentia espiritualmente propenso e fortalecido pra me edificar através dos preceitos cristãos. Sentindo-me forte e restabelecido da icterícia, o incômodo que me causou o inverno em Conquista, me levou a voltar a beber, e se fosse prudente, a ponto de entender que a bebida ao longo dos anos me traria tantos problemas, eu não teria voltado a beber, mas como diz a citação: se não melhora pelo amor, melhora pela dor.

No início da primavera, a temperatura ficou mais amena, o frio intenso diminuiu bastante, os dias nublados cederam lugar aos dias ensolarados, no entanto, a presença do vento frio causava um certo desconforto para quem, como eu, ainda estava em fase de adaptação climática.

Depois de um dia, envolto com as minhas ocupações no escritório, cheguei no hotel na boca da noite. Ao entrar, sentei-me num dos sofás da sala, antes de ir para o quarto. Assim que me viu, D. Carmen veio ao meu encontro exibindo um singelo sorriso. Era uma mulher simpática de baixa estatura, um pouco obesa, os cabelos grisalhos curtos e lisos, e a pele branca avermelhada. A sua descendência era portuguesa. Vendo que não tinha na sala nenhum outro hóspede naquele momento, ela sentou-se e me disse:

- Adilson, no final da tarde chegou um casal pra hospedar-se. Eles vão ficar por aqui só dois dias. Conforme combinamos, já os coloquei na suíte. Como tem uma parte do guarda-roupa vazia, pedi que a usassem porque as outras estavam ocupadas com as suas coisas. Aproveite que eles deram uma saída e pegue o que for precisar. Quando for tomar banho, use o banheiro social. No quarto ao lado da suíte, têm dois hóspedes. Você vai dormir na cama do meio. Ah, ia me esquecendo de lhe dizer: no jantar, vai ter sopa de aipim, viu, eu sei que você gosta muito.

D. Carmen também cozinhava. Alguns pratos, ela fazia questão de faze-los. A sopa de aipim que ela fazia, por exemplo, realmente era deliciosa. Assim que ela se afastou, fiquei pensativo. Seria a primeira vez que deixaria a suíte pra dormir num dos outros quartos. Onde estivesse, preferia dormir sozinho, com a luz acesa. Logo cedo, os dois hóspedes poderiam manter a luz acesa, mas e depois, provavelmente apagariam a luz pra dormir. Quando isso ocorria, ficava apreensivo, não conseguia pegar no sono, e quando era vencido por ele, tinha sempre o mesmo pesadelo. Como não era um religioso praticante, não tinha o hábito de orar. Por isso, esse pesadelo me perseguiu por muitos anos.

Na minha infância e nos primeiros anos de adolescência, a minha família passava as férias de fim de ano, junto com a família de minha tia, irmã de minha mãe, que tinha casa de veraneio em Pontal, um dos bairros tradicionais de Ilhéus-BA. Foi numa dessas férias, eu devia ter quatorze, quinze anos, que tive a minha primeira experiência mediúnica, quando até então não imaginava professar os ensinos espíritas que me proporcionassem proveitosos avanços morais.

A casa era bem próxima à praia do sul, a que mais frequentávamos. Eu, meu irmão, meus dois primos, junto com outros amigos, tanto brincávamos de jogar bola na praia como na frente da casa, cuja rua era de terra batida mesclada com areia. Num certo dia, não fomos à praia. Um amigo de minha tia, de Itabuna, chegou pra visitá-la. Nem por isso, deixamos de brincar de bola, o nosso lazer predileto. Durante a manhã, enquanto minha tia e minha mãe caprichavam no almoço, para causar uma boa impressão à visita amiga, brincamos um bom tempo do que se chama aqui no estado de pelada de rua, uma vez que não estávamos num campo de jogar futebol. Perto do horário do almoço, interrompemos a brincadeira pra tomarmos banho, antes de almoçarmos. Após o delicioso repasto, os adultos foram pro quintal da casa, a fim de prosarem debaixo da sombra gerada por três coqueirais e um cajueiro. Minha irmã e minha prima foram arrumar a cozinha. Meu irmão e meus dois primos foram jogar dominó. E eu, fui dormir.

Minha tia era professora e gostava muito de mim, pelo fato de eu gostar de ler e escrever poesia. Ela era leitora do poeta Castro Alves. E até me presenteou uma edição de bolso de Espumas Flutuantes, uma coletânea de poemas do Poeta dos Escravos. Por muitos anos, eu li e reli esse livro, assim como outros da escola parnasiana, que muito me ajudaram em minha formação poética inicial. E ela vivia me elogiando quando lia os meus primeiros rabiscos poéticos. E profetizava: "você, meu sobrinho, vai ser tão bom como Castro Alves!" Ao deitar-me, no quarto envolto pela penumbra, logo peguei no sono. Algum tempo depois, sentindo a leveza do sono, ouvi vozes e risadas que vinham do interior da casa. Deitado sobre a cama junto da parede, de súbito, abri os olhos, a princípio, vi a penumbra, e ao sentar-me, vi um clarão do lado oposto do quarto, e quando me virei, tamanho susto eu levei: nem sei se estava sonhando ou não, o fato é que vi uma aparição flutuando vestida num terno preto, camisa branca e gravata vermelha. O susto foi tão grande que fechei os olhos e quando os abri de novo tornei a olhar, e a aparição estava lá, do mesmo jeito, envolta numa luz fosca, contudo, só vi com nitidez o seu tronco.

Ao olhá-la pela segunda vez, dei um grito estrondoso e saí correndo na direção do quintal. Ao ver a minha aflição, minha tia veio me acudir porque minha mãe estava dormindo, e me indagou:

- O que foi, meu sobrinho, por que esse espanto?

- Eu acordei, tia, sentei na cama e vi um clarão do lado, quando me virei, vi um homem de terno sem cabeça, fechei os olhos, e quando olhei de novo, ele estava lá, então me assustei e saí correndo... Eu não entro mais naquele quarto tia, o homem está lá, sem cabeça...

Minha tia era médium sensitiva, mas não seguia o Espiritismo e o amigo dela era espírita. Tentando me acalmar ela me falou:

- Meu sobrinho, eu entendo o seu medo, mas pode ter sido um pesadelo, você terminou de almoçar e logo foi se deitar, essas coisas às vezes ocorrem... Acalme-se, sente-se aqui, vou pegar um pouco de água fria pra você...

Ainda trêmulo e com os olhos arregalados, só via a aparição na minha frente. Minha tia voltou trazendo-me água fresca. Fui bebendo aos poucos até ficar mais calmo. Então, ela, com o seu jeito brincalhão, falando de coisa séria, tentando me animar, contemporizou:

- Meu sobrinho, meu poeta, eu entendo o seu medo, é uma coisa nova pra você. A mediunidade, para quem não a conhece ou não a desenvolveu, às vezes assusta, principalmente porque é uma comunicação com os mortos, que na verdade, estão vivos do outro lado da vida. No seu caso, talvez tenha sido Castro Alves, sabendo que você é um jovem poeta, e resolveu aparecer pra você. Ou então, pode ter sido alguém que você conheceu numa encarnação anterior.

Ouvindo-a, ainda meio assombrado, lhe respondi:

- Mas tia, se foi Castro Alves, por que apareceu pra mim sem cabeça, logo eu, que tanto lhe admiro como poeta?

- Não sei exatamente... Os problemas que ocorrem aqui, bons ou ruins, levamos pro outro lado da vida... Pode ser que o Poeta dos Escravos quis realmente aparecer pra você, como as suas energias perispirituais não estavam sintonizadas com as dele, uma outra entidade apareceu, cuja morte carnal ocorreu pela decapitação... Mas estou apenas supondo, meu sobrinho. E acho que daqui pra frente, principalmente se você tiver algum tipo de mediunidade, lhe será muito útil, ler não só as Escrituras, mas também alguns livros espíritas, além disso, cultive o hábito de orar, pois a prece lhe fortalece contra todo tipo de mal, e atrai os Bons Irmãos de Luzes para a sua vida. E lembre-se: quando falar com Deus, peça pra Jesus, os Anjos e o seu Anjo da Guarda te abençoarem e te protegerem.

As palavras consoladoras de minha tia, produziram um pouco de alívio ao meu espírito, naquele momento, fragilizado e necessitado de uma melhor compreensão da palavra de Deus e do conhecimento espiritual. Vendo que eu tinha me tranquilizado, ela pegou em minha mão e me levou pra perto do seu amigo espírita. Olhando-me, ele pegou em minhas mãos e fechou os olhos por alguns instantes, depois disse à minha tia que por enquanto, não dava pra saber se eu era médium, porque dependia de ações teóricas e práticas que gerassem doutrinamento e desenvolvimento mediúnico. Mas que, de certa forma, todos nós somos médiuns, visto que, se não somos médiuns ostensivos, o intercâmbio entre os dois mundos é permanente. Embora não os veja, não os ouça, não os sinta, pelo desdobramento da alma durante o sono, ou pela ação sonambúlica da alma emancipada, obtêm-se a visão ou o contato com os irmãos desencarnados, sendo que, a visão e o contato não são carnais e sim perispirituais, explicou o amigo de minha tia.

Após a janta, sentei-me na sala pra assistir TV, e nela fiquei um bom tempo. Não queria entrar no quarto, temeroso de dormir com a luz apagada. Já passava da meia-noite quando resolvi entrar. Um dos hóspedes, ressonava com um ronco cavernoso. Pela vidraça da janela, a claridade lunar penetrava no quarto parcialmente, deixando-o à meia-luz. Acendi a luz pra trocar de roupa. A vontade que tive foi deixá-la acesa ao longo da noite. Sentei-me na cama e fiz uma breve oração. Após a prece, rogando a Deus que me protegesse do mal e dos maus espíritos, com a alma serena, fechei os olhos, e em alguns instantes, logo adormeci.

Ao despertar bem cedo, ainda sonolento, olhei em volta e senti um grande alívio sentimental. De súbito, me lembrei do sonho inusitado durante o sono profundo. Eu dormia naquele quarto, cuja penumbra, era igual ao quarto da casa de veraneio de minha tia. Quando abri os olhos, vi um clarão do meu lado. Ao virar-me, me deparei com a mesma aparição, só que dessa vez ela se mostrou de corpo inteiro. Não me assustei. Tão contente, sorri para a imagem admirável do poeta Castro Alves. E, quase num sussurro, lhe saudei:

- É você mesmo, Castro Alves?!

E ele, sorrindo, me respondeu:

- Sim, jovem poeta, sou eu mesmo! Não tenha medo. Minha carne morreu, mas estou vivo do outro lado da vida. Em sua trajetória poética, pela intuição e inspiração, você será auxiliado por mim e por outros poetas desencarnados, a ser um grande poeta. A carne morre. A obra literária se perpetua. E a vida do espírito, como Deus, é eterna.

E o Poeta dos Escravos, envolto numa aura luminosa, desvaneceu-se subitamente.

Depois daquele sonho, tendo a visão espiritual do grande e notável poeta Castro Alves, não tive mais medo de dormir com a luz apagada e não mais vi nenhuma aparição

No final do ano, após seis meses de contrato, mesmo antes de encerrar o convênio, fui demitido por questões de mudança de governo, e só voltei a ser servidor público do estado depois de onze meses e assim permaneci durante longos vinte e um anos, quando optei por sai, através do plano de demissão voluntária. Quanto ao Espiritismo, só vim a professá-lo vinte e sete anos depois do episódio da aparição no quarto da casa de veraneio de minha tia. motivado pela desencarnação de minha primeira esposa, mãe de minhas quatro filhas. Nele, eu encontrei auxílio, consolo e um novo rumo para a minha vida. Hoje, como escritor, eu desenvolvo a mediunidade de inspiração, que tanto serve para me edificar, como também ao meu próximo.

Escritor Adilson Fontoura

Adilson Fontoura
Enviado por Adilson Fontoura em 01/02/2018
Reeditado em 10/10/2021
Código do texto: T6242524
Classificação de conteúdo: seguro
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