Âmagos feridos e a morte é visceral - DTRL 31

“O terceiro, ou o declínio dos homens e dos lobos, renascerá na concretitude das ilusões das aparências dos lobisomens. A sua paixão ressurgirá para confrontar a racionalidade que nos descaracterizou… que nos fez parecer ser homens civilizados quando éramos lobo, o desejo da carne…” Diz o Filamento de Deus.

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Ao longo de meu ímpeto cansado vislumbrava-a, caminhando célere. Como sou um homem naturalmente curioso, embarcava em derradeiras abstrações sobre seus passos. Quais flores colhia pela manhã? Quais poesias seguiam sua rotina? Ouvia a tristeza divagando nesses versos? Não compreendo… a imagem que tão pura alumbra meu ser no alvorecer irrequieto dos dias, parecia-me distante compenetrada em um mundo de labor insensato, carregando medo nos seus olhos escuros, seu amanhecer não tinha vida. Deslocava-se impassível pela calçada, segurando a bolsa de mantimentos diários com um vestido desbotado azul já não mais florescido como em antigas primaveras de sua juventude.

Marcas do passado brandiam uma dor no meu peito, serei responsável por omitir e ver degradar meu grande amor diante de mim? Por esse universo de inverdades meu zelo rotunda a sua procura, não lhe desejava mais nada, somente ver o brilho do seu sorriso florescer novamente ao meu olhar. Queria ver a aurora de sua juventude despertar do sono profundo e que a fizesse retomar as conquistas de outrora. Eu que já não tenho mais nada a oferecê-la, prometi dedicar minha admiração passiva, mas ao acovardar-me em sonhos tornei-me espectador da destruição e por este medo abandonei ambas as coisas que prezo.

Houve uma linha tênue que divisava o limite entre o perigo e a razão nesta minha relação imatura. Usoop, companheiro e amigo mais íntimo de desventuras insólitas, ao qual éramos encarregados pelos chanceleres, havia há muito casado com Berenice. Acompanhei recentemente a união arranjada de ambos, cumprindo os interesses dos senhores que ordenam a paz pós-cataclismo. Não posso concluir se o amor coroou essa relação. No entanto, presumo que sim, ao menos antes do aventureiro entregar-se ao seu vício autodestrutivo e tornar o ambiente onde vai escuro como seu ser que busca fugir da responsabilidade que nos foi imposta pelo destino.

Éramos hunters, nomeados pelo governo do País da Lua para intentar na busca do diamante totland, mais precisamente a encarnação do primeiro homem lobo conhecido na história dos lobisomens. O primeiro, como ficou conhecido, surgiu de uma mal fadada experiência dos antigos humanos para formar o cidadão milenário, oriundo das utopias de sua civilização. Totland é o cerne dos conflitos de interesse desse mundo pela quantidade inimaginável de poderes que dele resulta. Os hunters aventuram-se em busca de alcançar as divinas bençãos do pai, seja os descendentes do terceiro, o filamento de Deus, como eu, seja pela tradição dos ciganos de Usoop e demais interesses.

A união de ambos, Usoop e Berenice, atendia as expectativas do conselho dos lobos para aproximar os ciganos do sistema pacifista ou a racionalização da selvageria dos lobisomens, esta que quase nos destruiu e extinguiu o nosso mais primoroso alimento. Mas também havia mais que apenas um ato político nessa relação… “nosso amor me humanizou” ele dizia, vazio, em pausas sepulcrais, ao longo de seus períodos de sobriedade. É o que podia perceber também no olhar de Berenice, a atração por uma memória distante onde a aventura modelava suas utopias mais juvenis, uma pueril centelha de esperança evocava-se em seus lábios durante a narrativa efêmera até aos poucos desmanchar-se num resignado meio sorriso, numa breve tentativa de respirar o ar puro ingênuo dos homens.

Nossas afinidades cresciam a partir das dores expostas em nossas almas. Comungávamos de um mesmo lamento: a decadência do espírito aventureiro de Usoop. E desse embrutecimento, tudo ao redor decaía, meus sonhos se revestiam de medos, de uma insegurança já calejada, tornando-se parte da minha aparente essência. Em Berenice, a juventude não florescia, a admiração por seu marido murchava como as flores do jardim quando não eram regadas pelo líquido humano. Suas conquistas como líder dos hunters das nuvens, resignava-se na inadequação de seu tempo. O paralelo que o relógio fazia, nos distanciava de nós mesmos, mas esse nosso abandono, essa solidão letárgica nos aproximava em uma mística diferenciada do convencional.

A dor de carregar um amigo perdido de seus sonhos nos meus ombros. “Esse não tem jeito!” O velho da locomotiva dizia ao cruzarmos novamente a pista do horizonte desabando sobre nossas perspectivas. Nossos objetivos eram meras quimeras que se desfazem ao vento da madrugada. Entre a embriaguez e a lucidez Usoop chorava, um pranto sem nenhuma lágrima, apenas de amarguras e desesperos… saberemos sonhar outra vez, amigo?

A cena repetia-se nas minhas mais tristes lembranças e na ação semanal. Seu corpo semiconsciente apoiava sua dignidade e destino nas minhas costas, a cada passo um conflito invadia meu raciocínio. A alegria de poder ver Berenice irrompendo de sua casa ao nosso encontro, a tristeza de apenas continuar a contemplar a nossa degradação tripla. Como os nossos caminhos nos levaram a conclusões tão estranhas a nossa essência? Quando nos tornamos meros desordeiros na tentativa de reprimir nossos instintos e não mais sucumbir a dor do nosso egoísmo? Meu apreço era perfurado pela culpa de continuar a contemplar as estruturas se desfazendo…

Berenice aos meus olhos procurava na tentativa de achar uma segurança para aquela situação degradante. Mas o meu solo era tão mais arenoso, tão mais duvidoso, que qualquer destino antes constituído na imprevisibilidade do amanhecer. Nossas mãos se encontravam e nosso pranto era uno, nosso amor era uno, tácito, algo impalpável, impossível de se conceber na realidade de nossas abstrações. Eu vivenciava minhas dores corroerem-me por dentro, percebia como aquilo nos limitava a seguir pela aurora que surgia a nossa frente. Havia possibilidades! Mas porque o destino nos revela palavras tão vazias e um mundo tão irreal e fracassado?

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“O segundo, foi o primeiro a possuir seu poder inimaginável, seu desaparecer entristeceu a magnanimidade da tribo dos errantes que anseia pelo renascimento do escolhido, aquele que incidirá sobre os opressores carregando em seus braços a utopia…” Diz Usoop II.

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“Os lobisomens não são mais os mesmos…” Pausou parecendo degustar suas palavras: “desde quando o predador resolve igualar-se as presas?” um sorriso sarcástico surgia em seu rosto. Do alto da montanha um vento forte levantava seus trapos velhos e rasgados. “Discordo, Usoop, a era da selvageria já nos levou a uma degradação muito maior” Parecia um pouco contrariado, mas conteve a sua fúria falando pausadamente, uma profunda respiração a cada palavra que saia de sua boca: “Degradado está esse mundo que esconde as suas verdades… nessas pretensões quaisquer” “O mundo necessita dessa ordem para crescermos” Irrompeu sem demora: “Tolo! A ordem está no caos, na destruição…” Mas eu não desejava mais essa destruição que meus antepassados infringiram sobre a terra: “A destruição é a nossa morte e a morte dos humanos” Ele parecia deliciar-se com nosso breve diálogo “Quem liga para os humanos, filamento de Deus?” Parou seu raciocínio para pegar um pequeno pedaço de graveto da árvore, coordenando desenhos incongruentes no ar discursou pendendo entre uma inflamação e uma fúria insana que me assustava: “Deveríamos recriar a ordem desse mundo e revelar toda a violência que está guardada em nosso espírito… devemos invadir… corromper… dissimular… destruir… extravasar toda a fúria pela incerteza do acaso, infringir de morte os fracos, se aventurar no perigo, vencer os limites impostos, contestar o que é dado… desinibir-se… tu que és o filho do caos deveria pensar assim como eu, um mundo onde os lobos podem ser livres e corromper seu ódio sem distinção.” Algo naquele discurso fazia-me admirá-lo

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O rosnado afetava a segurança de minhas pernas, no adormecer do sol a penumbra de sua silhueta carregava o misterioso ceifar do silêncio de nossa mais pretensiosa missão. Usoop e eu temíamos o pior. Enquanto a fera ao nosso rastro soava um canto insano para os céus, era seu despertar. Passos de caçador em busca das presas, estávamos presos na direção do abismo.

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Os pelos da fera cobriam toda a grossa camada de pele de seu corpo. Aqueles ameaçadores dentes forçavam-se contra os outros produzindo um grunhido bisonho. Berenice encontrava-se acoada no canto de sua sala, o corpo petrificado gelara-se diante da presença maligna, buscou acolher o calor do seu corpo no último pranto destinados aos céus, tremia ante a possibilidade de uma eminente morte. A besta alvoraçava-se pela casa derrubando os móveis ao chão, seu grito tremulava o ar apertando lhe o coração em altivas palpitações, aquela ferocidade acuava-a cada vez mais de encontro a parede, tentando buscar refúgio no inexistente colo de mãe. O destino selara suas dúvidas, mas a eminente presença do prolongado final bestial de sua existência era um portal de fuga. Dos caninos avermelhados do lobo derrama-se uma secreção do prazer doentio da barbaria.

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“És tu que trouxeste a decadência para as nossas vidas, és tu que roubaste a pedra de Usoop, és tu que o mataste, monstro, terrível! Criatura maligna! Cataclismo, cataclismo… ele é o filho do cataclismo… o filamento de Deus!!” A velha Cigana, vociferava com os dedos em riste, inquietos, buscando minha imagem, o ódio tomava-lhe a face, seu olhar eram as trevas mais nocivas que tive contato, perfuravam de morte minha lânguida alma. Ao longe Berenice de cabeça baixa chorava, não podia ter a proteção de seus olhos, seu ser aceitara as acusações de sua tia e a fazia tentar lidar com as informações que maltratavam seu último sopro de esperança. Deitado desprovido de vida estava Usoop, um buraco enorme fazia-se presente em seu.

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“Usoop, Usoop… volte a si, por favor!” Transformara-se na besta que escondera nas roupas formais usadas pelos humanos. O corpo havia aumentado, gradualmente, de tamanho, pelugem e força bruta, gritava com todas as suas forças para o céu noturno. Após as falhas de tentar o contato com meu amigo me escondi no declive do solo que estava diante de mim, a figura animalesca berrava tremulando o ar, seus passos pesados ameaçavam o solo. Eu sentia meu chão desaparecer sobre meu corpo, parecia entregue ao torpor que o medo apascentava sobre mim, meu sopro vivaz disparava tão forte que aos poucos transformou-se em uma intensa dor no tórax que corroía-me por dentro. Via o meu espírito deixando-me, meus olhos latejavam e lágrimas rolavam indistintamente, não conseguia parar de gritar junto com a fera. Ela estava diante de mim. Tudo escureceu.

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Berenice no crepúsculo do sol contemplava o horizonte, seus olhos pareciam assoberbados em memórias distantes de seu corpo físico. Os pássaros buscavam retornar a morada e seu sopro de vida já não era mais o mesmo que antes. Quando seus olhos desviaram-se do céu noturno pedindo passagem, um gargalhar estranho surgiu de seu semblante sério. Não havia mais inocência, nem a resignação, havia a verdade no sangue derramado pelo solo.

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A fera estava com o órgão pulsante em uma de suas mãos, a outra amassava o crânio do ser que se despedia do calor de seu corpo. De súbito, o animal, parecia extasiado com o que estava em sua posse, a concretitude da vida dependia daquele momento, no contato íntimo do que é mais puro nos seres: a vida em pleno vigor. Usoop desaparecera da existência sempre negada, seu corpo estava desmembrado, meus olhos turvados não enxergavam as cenas cabais.

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Ele arrancara o meu braço, mas não experimentava mais nenhuma dor, por acaso eu sorria sem nenhum motivo, uma poça de sangue jazia sobre mim, animais peçonhentos adentravam minha carne… é escuro morrer.

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Não reconheço meus gestos eu sou a fera? Ou sou a caça? O que é esse sangue nos meus dedos? Esse gosto saboroso em minha boca? Eu sou a besta? Mas porque me sinto tão fraco? Por que meu corpo não está mais como antes?

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Desferi meu punho contra a face de Usoop que ainda tonto permaneceu por algum tempo ao chão. Com um pedaço de vidro abriu-me uma ferida no braço, chutei-lhe com todas as minhas forças, ele vomitara, desferiu dois socos em minha barriga, dei-lhe outros dois em sua face, de repente uma pancada em minha cabeça. Não sabia mais porque brigávamos.

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“Como você pode acreditar nisso… eu… eu… eu…” Estava tão consternado com as falácias saídas da língua medonha da cigana que não conseguia organizar meus pensamentos, meu corpo balançava, suava frio, minhas mãos estavam geladas, não reconhecia e não entendia as razões dos meus estímulos. “eu o que? O que você tem pra dizer, Elias?” Suas palavras eram rancorosas e feriam ainda mais a minha estima, em uma morte que não suportava mais carregar. “Não… não fiz… me perdoe… eu não fui…” Ainda não conseguia dizer nada, apesar de todo um universo se criar sobre minha mente, apesar da vontade de beijá-la e abraçá-la, sentia-me tonto e com medo. “O que você não fez? Sínico! Como pude acreditar em suas mentiras e ser apunhalada pelas costas?” Aquelas palavras me corroíam e estremeceram todos meus impulsos, meu ânimo parecia desfalecer, mas antes um cólera súbita apossara-se sobre mim. “Como você pode… não acredito que sejas tão baixa a ponto de acreditar nessas mentiras…” Não conseguia parar e não acreditava nas palavras que de minha boca saíam, era apenas orgulho, eram apenas feridas escondidas no meu ser, era apenas reação irracional que não parava de jorrar de minha insegurança. “Eu amei você, mas agora te desprezo, não quero a presença de alguém que me desconfia…” Seu olhar era inquisitório, era o fim derramando-se sobre minha perspectiva, suas palavras como flechas decretaram o fim da minha insana loucura e insensatez de me esconder no meu caos. “Tenho nojo de você… nunca mais me veja… é eu que lhe digo, nunca mais me veja!”

Cada passo que me distanciava daquela casa era como uma lacuna se abrindo nas entranhas de meu espírito, mas caminhava sem olhar para trás resoluto em minhas convicções. Suas palavras como um mantra escuro me castigavam, notava uma amargura percorrendo o meu ser, as lágrimas em algum momento secariam na superfície do corpo, mas ao meu opaco horizonte não cessaria jamais, respirava com dificuldade entre as dores no peito e a dor nas costas de levar esse grande fardo. Deito no chão e olho a lua a me invadir, ela é minha única luz, a luz que encanta os lobos que buscam sua proteção. No meu punho a pedra totland adentra para dentro do meu corpo. Um lapso nas minhas memórias… não sei mais quem sou.

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“A pedra totland é o sangue vivo dos homens lobos, o filamento de Deus a sua sabedoria, a união de ambos é o cataclismo, o início de um novo mundo.”

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Na beira do precipício um corpo meio humano e meio lobo pendia sobre uma estaca horizontal e outra vertical, os braços esticados em cada ponta, feridas e perfurações nada lhe causavam, seus olhos miravam o infinito, quem ele é? Os deuses de nosso mundo não são capazes de compreender essa violenta força da indignação dos lobos, quem sabe nem eles mesmos a entendam.