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Corpo Morto

Impossível foi contar os dias em baixo da terra. Em minha lamúria encontram-se séculos de escuridão de terra úmida e ombros apertados entre uma caixa de madeira. Esse despertar já dura a mais tempo do que qualquer ser vivo pode suportar, mas estou morto.
Certo dia acordei duro feito pedra. Minhas pálpebras e lábios costurados. Nariz, ouvidos e boca cheios de algodão. Senti ânsia e quis vomitar, porém meu corpo nunca mais esboçaria qualquer reação. Enquanto voltava a mim, prestei atenção em meus arredores. Ouvia vozes familiares, porém nunca as ouvi assim. Eram choros curtos e tímidos. Alguém havia ido embora. Minha mãe, em prantos, chuviscava em meu rosto, bem ao meu lado. Gritava por dentro, em berros em meio a um choro descontrolado, porém meu corpo nada fazia. Sentia a garganta fechada, o peito acelerado, mas permanecia fisicamente imóvel. Lágrimas escorriam pelo meu rosto, porém não eram as minhas. As minhas seriam trancafiadas comigo durante toda a tortura. Um filho não pode morrer antes dos pais, disse ela. Gaguejava de forma inteligível, porém essas seriam suas últimas palavras. As escutei claramente enquanto penetravam minha mente como um tiro.
Durante um longo tempo, sentia pessoas chegando e saindo de perto de mim. Pessoas que sentia serem conhecidas e algumas cuja presença era totalmente estranha. Algumas com um sentimento de tristeza profunda e outras apenas de luto.
Sinto que, de repente, elevam-me. Homens carregam meu caixão, andando lentamente entre todos que ali estavam. Sentia os olhares como se eu estivesse vivo. Era eu a atração principal que estavam carregando, o aniversariante da festa. Quando pararam, puseram-me no chão. O cheiro de terra era muito fraco do lado de fora, porém seria um dos únicos cheiros que sentiria quando estivesse dentro.
Era meu primeiro velório e, ironicamente, meu último, então não sabia como, porém descia lentamente ouvindo o rangido de algo metálico que me levava até o fundo do inferno. Talvez fossem polias. O som agudo do metal parou. O silêncio durou pouco. A terra era jogada em cima de mim, batucando a madeira como um tambor, anunciando o que achava ser meu fim definitivo, porém sentia que minha respiração, que só existia em minha mente, começava a falhar. Meu coração pulava dentro de meu peito e ricocheteava por dentro. Ouvi a pá do coveiro batendo no solo, nivelando a terra. Poucos barulhos ouvi desde então.
Não se passaram séculos, mas sinto cada segundo como uma hora.  Nem uma década se foi. Não há com quem compartilhar o cheiro pútrido que meu corpo exala. Um fedor impregnado na madeira, tampada com pregos de metal maciços. Vermes comem minha carne, devoram-me de dentro para fora e de fora para dentro. Meu corpo permanece duro, imóvel, feito pedra, porém derreto lentamente.
Assim deixo de existir, a cada dia que se passa, a cada desprezível odor que queima. Morre também a minha imagem e lembrança na memória dos que um dia me conheceram.
Lugubre
Enviado por Lugubre em 12/08/2017
Código do texto: T6081962
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Lugubre
Amparo - São Paulo - Brasil
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Lugubre