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OVER TIME

                                        OVER TIME
        UM POUCO MAIS DE MIL PALAVRAS SOBRE A DONA MORTE


Quando tossi senti uma dor terrível dentro de mim. Passavam das 23 horas, aguardava no ponto pelo próximo ônibus que me levaria para o hospital. Raquel depois de perceber a expressão de dor em meu rosto perguntou   se estava tudo bem.
- Tudo bem – repondo
A lua brilhava, suspensa como uma lente gigante. Conseguia observar os buracos de queijo nela.
- Ouvi dizer – falei – que tem uns prédios enormes que o governo americano esconde da gente naquele lugar – apontei para o céu , para a lua – local onde provavelmente viveram os carinhas verdes que o povo anda vendo por ai vez por outra.
Raquel sorriu e mostrou seus dentes decorados com aparelho azul. Raquel parecia uma arvore de natal, cabelos vermelhos , olhos verdes e aparelho azul. Seu perfume cheirava a chiclete. Nos dedos anéis plásticos e coloridos. Aparentava ter menos de trinta anos.
- Eu acho que não tem mais ônibus- falou Raquel- Como vai fazer para ir pro hospital?
Tossi novamente, senti o sabor agridoce de sangue na boca.
- Vou para casa. Que se foda. Amanha cedo estarei melhor.
- Não quer ir beber algo?
- Eu iria, mas não tenho um puto.
- Por minha conta
Falou Raquel , se levantando e envolvendo suas mãos geladas nas minhas ajudando a me levantar.
- Porra ! Suas mãos parecem feitas de gelo.
Tinha um carro no outro lado da rua., Um conversível preto com bancos de couro vermelho, seguimos para ele, ela abriu a porta do passageiro e eu sentei sem fazer perguntas. Era um belo carro e a garota não parecia ter cara de quem podia bancar um negocio daqueles. Porem as pessoas me olham e me julgam um ex presidiário.  Eu não duraria dois dias numa prisão. Sou covarde demais para escolher um lado e matar por ele. Prefiro ficar entre a indecisão e a esquiva. Pessoas assim não duram muito aqui fora, duram menos ainda numa cadeia. Ligou o som. Bad Things, Jace Everett . Seguido de alguns acordes as palavras jorraram dos falantes:

Quando você entrou o ar foi embora
E toda sombra se encheu de dúvida
Eu não sei quem você pensa que é
Mas antes que a noite acabe,
Eu quero fazer coisas ruins com você.

O rosto pálido da garota se aproximou do meu e seus lábios deixaram escorregar provocante mente :
- Não se preocupe cowboy, hoje só quero uma companhia para beber.
- Ok. Conheço um lugar legal...
- Nada disso. Eu sei um lugar bom e com classe.
E assim seguimos para o tal lugar classudo.  O vento criado pela velocidade do carro na pista bagunçando nossos cabelos, as curvas feitas a 120km, varamos os sinais vermelhos e quase atropelamos um cão num cruzamento. Paramos em frente a um boteco de esquina forrado de bêbados com manchas de mijo nas calças que usam meia e chinelo de dedo. Nos sentamos no balcão, Raquel chamou pelo atendente e cochichou algo nos seus ouvidos que não pude entender. Ele saiu e voltou com uma garrafa de Morte Destilada.
- É a sua preferida, não é ?
- Claro que sim !
Falei para a garota ,que já ia enchendo dois copos.
Tomei um bom trago e completei. Já me sentia melhor. Nunca soube o que tem nessa bebida, mas devem beber isso no céu, disse eu para a garota.
- E porque não no inferno?
Retrucou.
- De onde eu vim- Falou a ruiva -tomamos isso no café da manha. Conheço o a garota que fazia isso.
- A É ? e de onde vem você?
- Não importa.
- E o que faz a essa hora da noite na rua?
- Meu trabalho não tem hora ou dia. E eu estava passando e vi você sentado sozinho. Parecia tão indiferente ali..
- Porra moça ! Eu poderia ser um cara mau. Não tem medo dos caras maus ?
- Oliver, você é tão inofensivo que chega a dar dó.
Estranho .. me lembrei que não havia dito meu nome a ela. Também não  lembrava dela ter dito o seu.
- Posso estar enganado , mas não falei meu nome para você..como sabe meu nome ?
- Faz parte do meu trabalho.
Ela tirou de bolso da bolsa , um relógio de ouro com uma bela corrente de ouro e me mostrou.
- Está vendo isso? Esse é meu trabalho. Sair por ai em busca das pessoas. Tenho hora marcado com todos . Inclusive com você. Mas fique tranquilo que hoje não é seu dia.
Era louca. Bebi meu copo numa talagada  e completei. Vivo cercado de pessoas loucas. Quando não é o cara do estacionamento que diz terem lhe passado a mão na bunda na fila de doação de sangue (quando você viu pessoas fazendo fila para doar sangue?) ou a garota que vende uvas no farol e diz que uvas são melhores que morangos frescos , é essa outra mulher me dizendo coisas sem sentido num bar rançoso de esquina ...
- Oliver. Foi um prazer , mas preciso ir. Esta vendo esse ponteiro maior? Já estou atrasada.
- Seu trabalho deve ser muito importante , não é?
- É uma grande merda. Porem todo trabalho é. Mas alguém tem de faze lo.
Recolheu seu relógio para a bolsa.
- Não se preocupe. Amanha estará bem. Essa dor  , procure por esse homem – me deu um cartão de um medico particular – ele vai resolver essa dor . Por hoje, termine sua noite. Tome cuidado quando for acender a luz de sua casa. Use o interruptor da cozinha , não o da sala.
Raquel me deu um beijo no rosto, um beijo gelado e molhado.
Deixou algumas notas no balcão para pagar a bebida e se foi.
Quando saiu o sujeito do balcão falou :
- Mulherzinha estranha sua amiga.
- Não é minha amiga . Acabei de conhecer.
O homem então se sentou, agarrou seu peito, enrijeceu o corpo todo e caiu duro no chão. Os bêbados de chinelo e meia nem notaram o cara morrendo ali. Terminei minha garrafa , agarrei as notas no balcão e dei o fora...





                                   17/07/2017
                                   08h24M

Cleber Inacio
Enviado por Cleber Inacio em 17/07/2017
Código do texto: T6056660
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Sobre o autor
Cleber Inacio
Amparo - São Paulo - Brasil, 30 anos
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