Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Cybernatural

1

Em meio à selva urbana, quatro jovens tentavam fugir de uma batida policial. O Serviço de Segurança Setorial tinha autorização para trazê-los vivos ou mortos. Entretanto, o quarteto estava dificultando a tarefa. Desviando em cada rua e beco, eles conseguiam manter-se longe de seus captores. Os agentes na retaguarda também não deram o braço a torcer.
    Os delinquentes arfavam em meio a gritos de baixo calão e risadas. As ruas largas e com grande movimento formavam obstáculos perfeitos para que os adolescentes continuassem na dianteira. A balbúrdia provocada pela corrida desenfreada acabou chamando a atenção de todos.
    A coisa tendeu a piorar quando um veículo aerotrafegável surgiu arrulhando em pleno céu no encalço dos fugitivos. As aerovias foram interrompidas devido ao acossamento. Um dos integrantes do grupo perguntou ao líder do bando:
    — Cara, livra logo a gente desse flagrante e joga a porra desse chip...
    — E depois a gente faz o quê? É currado pelos milicos? Belo plano Overall, mas não to a fim de receber no rabo não — e continuou a correr como se não existisse amanhã.
    Consultando uma tela de toque instalada em seu braço, o corredor fez uma varredura na área tentando encontrar uma saída para sua equipe. O mapa da metrópole apareceu gigantesco, diminuindo as buscas ele chegou até o setor que atravessavam. Só havia uma chance, uma que talvez terminasse na morte de alguns deles. Não importava, uma chance era melhor que nenhuma.
     — Galera, tem um córrego ali na frente, vai nos levar direto pro Setor Leste, é pegar ou largar — berrou o chefe da malta.
     — Uma boca de lobo — retrucou Overall —, tu é um manezão mesmo!
     — Vai se fuder! — gritou o líder do grupo.
     O córrego estava perto. As águas fluviais e tóxicas serpenteavam nele. O grupo chegou até sua mureta, e sob um intenso tiroteio, eles saltaram. A correnteza do rio era muito forte para os braços esquálidos de quatro adolescentes vencessem a nado. Era difícil manter-se perto das paredes de concreto que formavam as margens.
    O líquido salobro adentrava os pulmões impedindo qualquer chance dos mesmos manterem o fôlego. Os milicianos se puseram a atirar. Overall foi atingido no ombro. E sem forças para manter as braçadas, acabou sendo arrastado para outra séria de manilhas que o levava na direção contrária ao ponto de encontro. O líder do grupo, e melhor amigo, ainda tentou pegá-lo.
    — Não me larga seu desgraçado!
    — Eu to tentando Overall, eu to tentando... — no entanto, sua mão já viscosa devido à poluição não conseguiu pegar a do amigo com firmeza.
     O fugitivo foi levado pelas ondas do rio, e submergiu sem deixar vestígio. Após entrar num longo duto formado por manilhas de concreto, os sobreviventes continuaram a descer pelo córrego até o Setor Leste. Eles não foram mais perseguidos e com certeza, no outro setor, eles não seriam mais incomodados.

2

    A verticalização das cidades pode ter diminuído a conurbação, mas o risco social continuou o mesmo. O conceito de cidade foi reformulado. Os arranha-estrelas abrigavam todo um conjunto habitacional dentro dos seus ventres de concreto e aço, sem necessariamente deixar de sofrer dos mesmos problemas de infraestrutura, saúde, educação e segurança.
    Este último fator, agora não desrespeito mais ao Estado, a segurança pública fora privatizada há muito tempo, logo após a crise militar da redemocratização do país. As parcerias público-privadas forneceram o dispositivo de lei perfeito para que o governo se livrasse dessa responsabilidade. Centenas de empresas e milícias passaram a atuar como uma SSS.
    Esse novo modelo de segurança pública foi sendo moldado através de projetos de emendas constitucionais, e logo acabou sendo copiado pelos países latino-americanos. A privatização da segurança encontrou eco até mesmo nos EUA, e UE, África do Sul, Japão e muitos outros.
     A estrutura da segurança modificou a configuração da própria nação brasileira. Os estados da União passaram a se chamar zonas, sendo o ex-Distrito Federal a Zona 00. No sentido horário, os outros estados adquiriram o nome de Zona 01, Zona 02, Zona 03 e assim sucessivamente... Cada uma dessas zonas era dividida em setores. A Zona 05 era dividida em quatro setores.
    O Setor Leste era considerado o reduto dos cybercriminosos, a SSS que controlava o setor tinha o nome de Lobato Segurança. Considerada a mais corrupta de todas. Ela era constantemente acusada de práticas criminosas no Conselho Nacional de Segurança Pública, de modo a destituí-la de suas funções, mas para chegar a esse ponto, as acusações deveriam se corroborar.
    Entretanto, ela detinha o poder em seu setor e cobrava pesados subornos de políticos e empresários locais, prática comum a todas as milícias. Devido aos conflitos de interesses e as diferenças nas atuações das SSS, toda a colaboração entre as partes deveriam atender e respeitar interesses mútuos. Havia certa rivalidade entre as corporações, e uma guerra entre elas não estava descartada.
    Servindo-se desse cenário estavam os cybercriminosos. Hackers, crackers, mulas de dados e tantos mais a cometer atos ilícitos. Um integrante desse mundo estava no topo de um arranha-estrela inacabado. O jovem estava sentado na mureta do terraço improvisado. O complexo habitacional se chamava Duque de Caxias, e nada mais era do que uma favela vertical, com droga e armas rolando solto entre as centenas de andares.
    A localização do complexo era longe do centro. Ele puxou um cigarro sem filtro do bolso do blusão e contribuiu um pouco mais para a poluição do ar na cidadela. Seus pulmões se encheram de nicotina e outras substâncias tão noviças quanto ela. Dando uma baforada, a fumaça ascendeu em direção ao céu, as correntes de ar a fizeram chocar-se com as nuvens carregadas.
    As gotas de chuva espocaram em seu blusão multicolorido. Como um ferrenho seguidor do afrofuturismo, mesclando cortes geometrizados, cores vivas e simbologias africanas, o adolescente viu a água escorrer pelo seu cabelo rastafári, as pontas das tranças acumularam gotas que logo derramavam. Ele ficou ali tendo o frio do crepúsculo como sua única companhia.
    Ouvira certa vez uma lenda, e esta dizia que corpos celestes conhecidos como “estrelas” brilhavam a noite, mas as luzes das cidades haviam ofuscado o brilho delas, outras versões diziam que seu lume havia sido absorvido pelas lâmpadas de led. O jovem acreditava que se houvessem existido, elas tinham embora devido à ingratidão dos homens, pra que brilhar se ninguém te olha?
    Nessa busca dos seres lucífluos, todas as noites o garoto de dezesseis anos assistia ao crepúsculo – pois diziam que essa era à hora mais propícia – na tentativa de ver ao menos uma vez as estrelas. Entretanto, talvez por uma ironia lovecraftiana, elas não estavam em suas devidas posições.
    A chuva dava contornos borrados ao mundo, o show havia sido cancelado. Erguendo-se, ele tendia a voltar para o seu lúgubre cafofo quando a tela de toque implantada ao antebraço esquerdo sinalizou uma chamada de áudio. Embora se considerasse um aposentado do cybercrime, as pessoas insistiam em querer contratá-lo, indo vê-lo até pessoalmente. Por um momento ele se sentiu tentado a atender, mas depois desistiu.

3

    Depois da morte de Overall, e a perda de contato com seus outros dois amigos, o hacker se tornou um prolífico ermitão. O sujeito solitário se trancava durante dias em seu apartamento. Os antigos clientes se decepcionaram com a postura niilista de seu cybercriminoso preferido. Sentindo-se culpado, uma fossa daquelas se apossou do garoto, impedindo o mesmo de se importar com qualquer coisa.
    Ele estava conectado ao terminal na sala. O que era considerado uma “sala” se resumia a uma verdadeira zona de guerra, onde seus convidados teriam dificuldades em passar pelas pilhas de roupas sujas e fedorentas, bem como pelos muitos gadgets e penduricalhos espalhados aqui e acolá. Após a morte da mãe, ele herdara o cubículo, seus outros quatro irmãos mais velhos haviam morrido, ou estavam desaparecidos, não sabia.
    Seu pai abandonara a família quando era um bebê, reza a lenda que ele saíra com a velha desculpa de ir comprar um cigarro. O mais provável é que tenha morrido num micro-ondas devido à acumulação de dívidas com os traficantes locais, certo é que o pai não conta na história do adolescente. Ele passava o tempo zapeando o cyberespaço.
     O cyberespaço era como uma droga, não conseguia ficar longe dela, mesmo que se forçasse a se manter distante da mesma, volta e meia estava conectada a ela. Seu implante neural lhe permitia codificar seus impulsos cerebrais em dados e surfar as ondas de bytes da internet. Era algo que nem o maior sonho psicodélico embalado por ácidos poderia fornecer.
    Após encerrar sua imersão neural, o adolescente recostou-se em sua poltrona com forro rasgado e encarou a tela de toque do seu terminal. O mesmo possuía uma tela feita em grafeno, e tinha a proporção de 42 polegadas. O garoto tendeu a desligá-lo e de repente, um diálogo apareceu na tela do terminal. O hacker sentiu a curiosidade queimar-lhe as retinas. Através de fotoprojeção, o led do aparelho forneceu um teclado alfanumérico, como se fosse um convite a uma negociação.

Omnicyber diz:
    Senhor 51GMA, eu desejo contratá-lo...
    suas habilidades serão muito úteis a mim.
 
51GMA diz:
    Incrível, você digitou meu nome certinho!...

Omnicyber diz:
    Esqueça isso, tenho algo importante a dizer...

51GMA diz:
    É a primeira vez em anos...
    que me comunico usando texto...
    quase não me lembrava como digitar.

Omnicyber diz:
    Senhor 51GMA, peço que preste atenção...
    sua notável fama alcançou minhas necessidades...
    gostaria que fizesse um serviço para mim...

51GMA diz:
    Meus “serviços” costumam ser pagos em créditos.
     
Omnicyber diz:
    1 milhão de créditos é suficiente?

51GMA diz:
    Eta porra!...
    quanto?

Omnicyber diz:
   É suficiente para o senhor?

51GMA diz:
    Ei, espera aí...

Omnicyber diz:
    ???

51GMA diz:
    Tu né gambé não né?

Omnicyber diz:
    Invadi o seu terminal...
    que agente corporativo...
    hackearia o seu terminal e se apresentaria?

51GMA diz:
    Boa pergunta!...
    O que é que eu tenho que fazer?
   
Omnicyber diz:
    Preciso que você baixe um programa e...

51GMA diz:
    Ta me zoando?...
    Foi mal aí...
    mas eu num trabalho como mula de dados não.

Omnicyber diz:
    Deveria aceitar...

51GMA diz:
    Ta me ameaçando é?...
    Se liga rapaz, eu vou invadir teu terminal daqui a pouco.

Omnicyber diz:
    Não haverá tempo...
    a SSS Vector – Segurança e Patrimônio conseguiu na justiça...
    jurisdição e o direito a segurança do Setor Leste...
    a SSS Lobato Segurança perdeu o controle do setor...
    devido sua ligação com os cybercriminosos...
    ela não sabia o significado de sutileza...
    neste instante, enquanto negociamos...
    a Divisão Cybertática da Vector...
    está invadindo o seu terminal...
    e um agrupamento sobe o Duque de Caxias.

51GMA diz:
    Vai se fuder!

Omnicyber diz:
    Esta negociação ainda não acabou...

    A transmissão foi interrompida de modo forçada, o terminal foi retirado da tomada. Sem perder tempo algum, o garoto começou a destruir tudo que podia incriminá-lo, nenhuma pista do seu paradeiro poderia ser deixada para trás. Para ter certeza, ele acendeu um isqueiro e pôs fogo no apartamento.
    Os únicos objetos que o jovem salvara foi um terminal portátil, uma japona puída de um azul-desbotado, uma toca preta desfiada em pontos ocasionais, um velho Rossi modelo 851-853 de cano enferrujado. Ele abriu a janela de seu apartamento. A enorme varanda dava acesso a alguns apartamentos abandonados. Quebrando uma janela, ele foi à varanda e adentrou no apartamento à esquerda.

4

    Não havia tempo a perder. Embora estivesse reticente, ele admitia que sua fuga dependesse do tal Omnicyber. O misterioso “cliente” cairá de paraquedas naquele dia chuvoso do mês de março, enquanto um penetrante Esquadrão Cybertático invadia seu terminal sorrateiramente e um grupo fortemente armado subia o complexo. Ele posicionou o terminal portátil, que nada mais era que um óculos de lentes negro-foscas.
    Descendo as escadas de incêndio junto com os seus vizinhos, ele retardou sua correria e seguiu na direção contrária. Neste momento o agrupamento abria passagem no meio da turba, pois os elevadores estavam quebrados há anos. Vestiam-se com armaduras modulares de cor negra, como uma espécie de tropa de elite da SSS. O fugitivo se ocultou atrás de uma parede de reboco mofado. Os agentes corporativos passaram por 51GMA sem percebê-lo.
    Com o coração palpitando, o garoto deixou que os seguranças sumissem escada acima. Ele checou o tambor da arma, havia seis balas, ele rezou para que o grupo que o perseguia fosse um quinteto, pois aquela era a única munição que possuía. Após acionar o terminal, mais uma vez começou seu diálogo com o Omnicyber.
    — A minha proposta continua de pé senhor 51GMA — a voz do interlocutor saía tremida, como numa microfonia, num timbre quase robótico. — É melhor descer rápido até o próximo andar.
    — É! Por quê? — o hacker não acionara a chamada de vídeo do seu terminal, mesmo assim ela estava ativa, na lente esquerda, onde deveria aparecer o rosto de um ser humano, havia apenas um estranho sinal criptográfico pulsando em verde num fundo negro. Assemelhava-se ao símbolo do infinito, ou o famoso oito invertido. O hacker estava de mãos atadas, Omnicyber podia muito bem ser uma armadilha preparada para pegá-lo.
    — Porque eu deveria confiar em você?
    — Porque eu confio em você — respondeu a voz calmamente.
    O cybercriminoso revirou os olhos. Acuado como estava, as poucas opções estavam embaraçadas: fugia sozinho e desesperadamente com alto risco de ser pego ou confiava naquela voz fantasmagórica, ecoando no seu implante neural. Optou por seguir no jogo.
    — E então, o que me diz 51GMA? — disse Omnicyber.
    — Eu baixo essa droga, mas antes disso, me leve até um local seguro — retrucou o jovem de modo obstinado.
    — Não tenho nenhum interesse de que seja pego com o arquivo em seu cérebro — falou o invasor — nem tampouco com registros de comunicação direta comigo, estou correndo riscos maiores que o senhor.
    — Tudo bem então, mas me tira daqui droga!
    — Desça por essa escada, uma velha placa amarela indicará o elevador de carga, adentre no corredor da parte sul, no fim dele você verá as portas.
    — Os elevadores daqui não funcionam gênio — disse o adolescente de modo irônico. — A parte elétrica nunca foi concluída.
    — Engano seu, nem todos os elevadores estão inoperantes devido a falhas elétricas, os elevadores de carga operam num antigo sistema, entretanto, para que voltem a funcionar, preciso acessar o firewall Duque de Caxias e atualizar o sistema.
    O hacker bufou, não acreditava em Omnicyber, duvidava que pusesse o elevador para funcionar. Seguindo fielmente as ordens do companheiro de fuga, o cybercriminoso desceu as escadarias agora vazias e se deparou com a placa, avançou no corredor e chegou até o velho elevador. Aquela parte do edifício estava em desuso há muitos anos.
    As pesadas portas duplas estavam enferrujadas. O corredor parecia ter sido reservado como o depósito de lixo do andar, até o joelho, sacos plásticos, garrafas de vidro, e resíduos de drogas podiam ser contabilizadas aos milhares. O Jovem esperou durante alguns minutos, depois, de modo impaciente indagou ao seu guia se as portas abririam ou não, a única resposta foi “paciência”.
    Do outro lado do corredor, sons de passos alarmavam para um possível choque com os milicianos da Vector, as vozes eram roucas e tinha um estranho sotaque, o hacker julgou ouvir “kamerad”. O garoto pôs a mão na cabeça e começou a esticar suas tranças de rasta de modo furioso, como geralmente fazia quando se sentia pressionado. De repente, após um sinal agudo, o elevador de carga se abriu. 51GMA saltou para trás.
    Dois fios soltos serpenteavam dentro da caixa metálica, faiscando no ar. A falta de manutenção provocara a oxidação das paredes e do piso, fazendo com que as partes do fosso estivessem visíveis para o passageiro. O adolescente abriu a boca estupidificado.
    — Nem morto eu entro nessa banheira! — gritou o garoto.
    — Se você não entrar agora, provavelmente estará morto daqui a vinte segundos — respondeu o seu guia.
    — Não cara, num da não, ta zoado esse troço.
    — Elevadores são os meios de transporte mais seguros do mundo.
    — Ta me tirando?
    Enquanto o jovem se decidia ou não se entraria naquele pseudocaixão, os agentes corporativos chegavam cada vez mais perto do fugitivo, de modo que quando este se decidisse, já seria tarde.
    — Dez segundos, nove segundos, oito segundos...
    — Ah, merda, merda, merda...
    — Cinco segundos, quatro segundos, três segundos...
    — Eu sei que eu vou me arrepender disso.
    No mesmo instante em que o garoto se lançou dentro do elevador, seus antagonistas apareceram apontando suas armas com miras lasers. 51GMA encostou-se a parede e com os olhos esbugalhados viu as balas acertarem o seu derredor. As portas se fecharam, mas os projéteis continuaram a atravessar a massa de aço podre do elevador.
    — Se você se abaixasse correria menos riscos de morrer senhor 51GMA.
    O hacker deixou-se escorregar pela parede, o elevador começou a descer vagarosamente, o maquinário rangia de modo ensurdecedor. Um velho painel com tela de toque começou a emitir um brilho fraco, nele podia-se ler o número 117, e começou a decrescer após longos minutos. Por entre as frestas das portas, o fugitivo pôde ver os agentes trajados em seus trajes militares, como uma tropa de elite.
    — Há-há-há, tu é mesmo um filho da puta em Overall — o cambaleante e amedrontado passageiro riu histericamente, e balançou o revolver gingando os quadris como se dançasse —, eu sei que é você seu desgraçado, me diz o que é que tu quer?
    — Desculpe — disse Omnicyber —, mas quem é “Overall”?
    — Seu cínico, sobreviveu e agora quer botar em mim né não? — 51GMA parecia confuso e desajeitado. — Deve ter se unido aqueles dois não é? Agora cês querem minha cabeça, eu to ligado.
    — Este monólogo lhe deixa com uma aparência de usúario de drogas — e complementou: — Ou de um maluco.
    — São as únicas pessoas que eu conheço que teriam motivos pra me ferrar.
    — Acredite, não sou a pessoa que julga ser. — Omnicyber continuava a manter o seu mistério, e as rédeas da situação continuavam com ele.
     O elevador continuou sua descida, cada vez mais acelerando, no início foi imperceptível, mas depois do frio na barriga aumentar, o adolescente percebeu que o elevador estava descendo rápido demais.
    — Qual foi? Qual foi? — ergueu-se o garoto. — Deu merda caralho!
    — Acalme-se, é proposital...
    — Eu sempre soube que tu queria me matar — redarguiu o fugitivo.
    — A Vector já sabe que há alguém no elevador — a cacofonia de cabos e metal rangendo aumentou ensurdecedoramente. — Vamos simular sua morte, a esta altura e com essa velocidade, será possível para você saltar no décimo andar, enquanto as atenções dos mesmos se voltam para o elevador, você poderá escapar pela escadaria de incêndio do lado oeste do complexo.
    — O quê? — o jovem ficara pálido, a arma tremia em sua mão. — Nem pensar.
    — De acordo com meus cálculos — disse Omnicyber protocolarmente — você poderá pular no décimo andar de modo seguro, sem ser percebido, é isso ou morrer lá embaixo.
    De modo trêmulo, as pernas magras do hacker se moveram em direção à porta, a mesma se abriu, como se para preparar o garoto para o salto que selaria o fim da escapada. 51GMA tremia dos pés a cabeça, não que ele tivesse medo de altura, muitas vezes realizara missões de hackeamento em perigosas altitudes, mas aquele rangido agudo unido àquela desconcertante velocidade o incomodavam.
    Um vento ascendente lambia o seu rosto. Os fios estalavam atrás dele, aumentando os horríveis sons que evocavam sua morte certa. De modo grave, uma questão foi criando raízes em sua mente. Em meio a todo aquele cenário delirante, ele se pôs a perguntar quem ou o quê estava guiando-o para onde? Qual o verdadeiro interesse em sua pessoa? Ele não sabia, mas perguntou:
    — Omnicyber, responda rápido, o quê ou quem é você?
    — Que pergunta é essa? Prepare-se para saltar senhor 51GMA, a Divisão Cybertática está hackeando o firewall do Duque de Caxias, nós não podemos parar agora, as portas estão abertas, apenas salte...
     — Não, tem algo errado, se sou tão importante para você — e nesse momento o adolescente riu da situação —, então porque você me colocaria em risco? Se tu quer que eu baixe o seu programa tanto assim, então é porque eu atendo algum requisito especial né não? Agora a pergunta que não quer calar, quem é Omnicyber?
    — Porque isso agora? Falta menos de um minuto para o salto, prepare-se...
    — Não caralho! Me escuta você ta bom?— o guia não respondeu ao jovem. — Eu já to de problema até o pescoço, tu chega e me joga mais? Vai se ferrar! Eu prefiro morrer aqui do que numa cela de uma SSS.
    Durante alguns segundos não houve nenhuma resposta. Depois, de modo súbito, os freios do elevador de carga se puseram a frear, e o cybercriminoso parou no décimo andar como o Omnicyber havia dito. O guia então comentou:
     — É melhor sair, senão, é numa sala de SSS que você vai morrer.
     — Puta merda! Molhei as calças...
     — Vocês brasileiros e suas expressões desconcertantes.
     O adolescente saiu do elevador e seguiu a passos pesados para o corredor que dava na escadaria de incêndio. Com inúmeras perguntas girando em sua mente como um carrossel de maluco, ele empreendeu uma nova fuga. Os agentes que resguardavam a saída principal já subiam o décimo andar, pois localizaram o fugitivo.
    De modo acidental, eles reconheceram o hacker e lhe deram ordens de parar – em uma confusa língua, que o cybercriminoso tinha certeza não ser português ou sequer traduzível –, o que o jovem não respeitou. Os projeteis das submetralhadoras contribuíram para a decoração do complexo, que sofria uma década com pichações. A munição era não letal, os projeteis tinham eletrodos nas pontas, que em contato com a superfície, emitiam um pulso elétrico, ao atingir o alvo, o paralisava imediatamente.
    51GMA rapidamente chegou a porta da escadaria de incêndio, e quando a abriu, o vapor de poluição e esgoto correndo a céu aberto afagou-lhe o rosto negro. Atrás de si, os agentes vestidos como civis, apontavam e disparavam contra o adolescente. O garoto entendeu que estes estavam à paisana, aumentando a infiltração no complexo e deixando-o com a guarda baixa.
     A escadaria de incêndio, a qual ele nem sabia que existia – e nem fora usada pelos moradores do complexo –, estava em péssimas condições. Ele nem tinha certeza se a mesma estava instalada na parede de modo adequado. Ao que parecia, o vento lhe provocava rangidos que davam a impressão de fazê-la voar como uma bandeira.
    — Nem a pau que eu desço nesse troço — resmungou o garoto.
    — Para quem está fugindo de um mandato de prisão, você está exigindo demais — falou Omnicyber com o mesmo tom de voz tétrico de sempre. — Os agentes da Vector não vão te dar direito a um advogado, lembre-se que eles possuem poderes judiciais...
    — Judiciais... Tipo o quê, meter uma bala na minha cabeça?
    — Estava pesando em coisas piores como tortura — respondeu o frio interlocutor.
    Ra-ta-ta-ta. As submetralhadoras rugiam atrás dele, o hacker não esperou mais, saltou livre, leve e solto na escadaria.
    A cada passo, o cybercriminoso tinha a sensação de que seu coração explodiria devido à tensão. Sua corrida fazia toda a escada tremer, os degraus estavam enferrujados, era impossível andar pela estrutura sem ter a sensação de que em algum momento tudo desabaria. As balas tracejavam, resvalando acima de sua cabeça. O hacker se amaldiçoava e amaldiçoava Omnicyber.
    — Seja lá quem cê for Omnicyber — gritou o adolescente para o seu terminal — faça alguma coisa!
    — O máximo que posso fazer é mantê-lo longe das autoridades por enquanto, além do mais, você nem baixou o meu programa.
    — Cara, eu baixo a droga do teu programa, mas pra isso eu preciso ta vivo.
    — Quando descer as escadas — disse o estranho guia — vire a rua a direita, tome um táxi, vá a noroeste do Setor Leste. Pare em frente à estação Amarela, siga até a antiga Biblioteca Municipal, vire à direita, desça as escadas, haverá um guarda-volumes, lá eu lhe darei novas instruções.
    — Ta parecendo até um GPS.
    Sob intenso tiroteio, o jovem conseguiu sair da escadaria de incêndio e seguir pelo beco em alta velocidade. Os milicianos tentaram segui-lo, mas devido às péssimas condições e a sobrecarga, ela cedeu de cima a baixo, matando todos os seus perseguidores. 51GMA deu um sorriso satisfeito enquanto estendia os passos para o fim do beco.

5

    O taxista que andava com o carro o irregular estava reticente com seu afoito passageiro. O mesmo conversava com alguém no terminal portátil, numa estranha língua que talvez seu filho mais novo entendesse. No banco de trás, rindo e arfando ao mesmo tempo, 51GMA tentava esclarecer a situação com seu companheiro de fuga abstrato.
     — Olha aqui cara, chega disso sacou, ta na hora da verdade — disse o adolescente irritado.
     — O que deseja saber senhor 51GMA?
     — O tu quer comigo moral? Qual é a tua hein? — Omnicyber não respondeu, elevando o clima de suspense. — Essa correria toda é culpa seu desgraçado!
     — Isso é inverossímil — retrucou a voz robótica. — Já disse, desejo sua completa e integral segurança...
     — Então não haverá nenhum problema se eu jogar esse terminal lá fora?
    Segundos se seguiram sem uma resposta, e quando ela veio, chocou o seu ouvinte.
     — Com essa atitude, o senhor provocará um grande problema senhor 51GMA — disse Omnicyber. — Imagine que ao mesmo tempo em que posso livrá-lo de uma prisão, posso também jogá-lo rumo à morte certa, tudo dependerá de como você vai agir, posso invadir os sistemas da Vector e mostrar sua localização em tempo real para a SSS.
    — Olha mano, se eu fiz alguma coisa errada, foi mal aí veio. Só me deixa em paz falou — o hacker começou a choramingar, o taxista olhou pelo retrovisor especulando o que estava rolando dentro do seu VAT.
    — Creio que o senhor não se sentirá seguro enquanto não souber o que estou a propor — falou a voz didaticamente. — Por engano, você recebeu um implante neural que estava destinado a outro hospedeiro, ou melhor, outro corpo. Seu implante é uma unidade Saber A-1618, um protótipo para ser mais específico, eu devo instalar um programa que irá escanear o designer do implante e enviar uma cópia para que outros cientistas possam reproduzi-lo e aperfeiçoá-lo.
    O garoto se pôs a rir de modo convulsionante, Omnicyber queria nada mais nada menos, pôr um vírus em sua cabeça e sabe-se lá com que consequências! Seria um programa espião a lá Cavalo de Troia? Um programa com inibidor de funções biológicas? Um localizador? Ele não sabia, tinha apenas certeza de que seja lá o que fosse realmente, seu implante agora estava valorizado.
    51GMA sabe o quanto sofreu para receber o implante no antebraço e o cerebral. Durante dois anos, realizara missões para os seus “benfeitores”, ou melhor, o crime organizado. Os traficantes locais do complexo Duque de Caxias precisavam de um braço forte no cyberespaço. Garotos como ele valiam à pena cada centavo gasto em roubo de tecnologia e na montagem de clínicas de cirurgias clandestinas.
    O doutor que realizara a operação no adolescente recebera uma carga muito valiosa vinda da União Soviética por meio da Polônia, que diziam alguns. Mas foi no brasileiro que ela começou a funcionar. Sua unidade de medida de informação chegava aos incríveis quadribytes, equivalente quatro vezes um TB. A taxa de transmissão de informações era em terahertz. O chip era todo feito em grafeno.
    O mais novo soldado do crime organizado começou suas investidas em roubos de créditos, para pagar os custos de sua intervenção cirúrgica, com todos os juros e correções que as ardilosas mentes de seus patrocinadores lhe cobraram.
     — Seu interesse é apenas viralizar meu implante neural? — falou o jovem pousando a mão esquerda no seu óculos. — Mas há algo que eu não entendo, se você pode hackear o terminal de uma SSS, porque não pode hackear meu implante neural? — como se estivesse recebendo uma mensagem parapsicológica, ele berrou para o seu contratante: — É porque tu não é humano zé-ruela, tava se achando fodão não é? O chefão? O Neuromancer? O Puppet Master da história? Se ferrou! IA não pode hackear implante neural, é uma resolução do Conselho de Segurança da ONU rapaz, se liga! As três leis da robótica. Lembra-se?
    Houve um silêncio constrangedor, enquanto o taxista se persignava, 51GMA sorria e balançava a cabeça como se estivesse ouvindo reggae dub.
    — Te peguei não foi?
    — Na verdade o senhor não passou nem perto disso — e naquele timbre de microfonia rasgada, Omnicyber dialogou com uma firmeza jamais vista pelo fugitivo —, eu posso encontrá-lo aonde for senhor 51GMA, não importa se estiver com ou sem terminal, e quando estiver agonizando as portas da morte eu...
    51GMA lançou fora o terminal portátil e a voz parou de ressoar em seu cérebro. A conexão havia sido encerrada a força. Agora ele só imaginava saber como iria pagar a conta da corrida quando chegasse ao endereço. Para sua sorte ou azar, um balaço estourou o vidro traseiro e acertou a garganta do motorista. O cybercriminoso abaixou-se para não ser atingido também.
    Em suas missões ele havia puxado VAT em muitas de suas fugas. Mas estabilizar um veículo aerotrafegável girando como um cata-vento nas aerovias mais engarrafadas da Zona 05 era uma coisa que ele nunca tinha realizado. Três VATs de cor vermelha continuaram a disparar contra o táxi. Em pouco tempo a carenagem do veículo estava com mais furos do que uma peneira.
    O jovem saltou para o banco da frente e tomou o volante em mãos. Abrindo a porta, ele tinha o plano de despejar o corpo do taxista, mas de modo inesperado, outro VAT o atingiu em cheio enquanto posicionava o defunto, e tanto ele como a porta caíram no capô de um dos seus perseguidores. O veículo girou e bateu contra outro VAT.
    — Um já foi, faltam dois.
    Entrecortando pelas aerovias na contramão, o fugitivo tentava livrar-se de seus perseguidores, que mostravam uma larga perícia em dirigir num trânsito congestionado. A vinte andares das ruas atulhadas de pessoas, a corrida desenfreada se dava de modo violento. Tiros resvalavam em todas as direções. O painel do VAT tremelicava. Os tiros deixaram alguns circuitos elétricos aparentes.
    O garoto desligou todo o sistema conectado ao cyberespaço, para que assim a inteligência artificial não hackeasse o veículo. Evitando uma batida frontal com um VAT de luxo, o jovem redirecionou os jatos que faziam o veículo levitar e entrou em uma aerovia mais baixa. A propulsão eletromagnética, assim como nos trens-balas, permitia aos veículos voar com um único pressionar de botão.
    O trânsito agora era aéreo, o teto de aeronaves teve que aumentar devido a esses veículos e também pelo tamanho portentoso dos arranha-estrelas, que muitas vezes batiam a marca dos 5 km de altura, ou seja, alcançavam a metade da troposfera. E tento a miríades espectrais dos arranha-estrelas reluzindo a luz mortiça do entardecer, o cybercriminoso acelerou ao máximo e cortou os veículos que surgiram em sua frente.
    Como um animal do volante ou um suicida em potencial, ele deu uma canseira nos seus perseguidores. Suas manobras chegavam a um perigo tão extremo, que nem os mais irresponsáveis motoristas alcoolizados do Brasil conseguiram protagonizar.
    E como resultado, um enorme caminhão fechou um dos VATs que estava em sua cola, causando um grande acidente na aerovia. Agora só restava um. O hacker formulou um plano, perigoso como fora toda a sua vida. Ele só não conseguia se vê numa cela fria e desconfortável, terminando o resto da prisão perpétua que iria pegar se fosse preso.
    Ziguezagueando, ele tomou uma reta, numa área em que ainda existiam prédios com tetos baixos, numa altura em que ele pudesse saltar. O cybercriminoso girou o veículo no ar e parou por um instante, flutuando. Os milicianos pararam no outro lado da aerovia, essa menos engarrafada. De súbito, o adolescente acelerou, sendo acompanhado pelos seus antagonistas.
     — Iha! Morram filhos da puta!
     No último instante, quando nem se podia contabilizar o velocímetro, 51GMA saltou para o terraço de um edifício, foi impossível para os agentes desviarem. Os VATs se chocaram com toda a força. O garoto ergueu-se com dificuldade, e arrastando os passos até a mureta ele viu duas enormes bolas de fogo chocar-se contra o chão. O garoto alisou o cabelo, precisava de ajuda, mirou o horizonte, disperso, já sabia aonde ir.

6

    Quando ele bateu a porta do apartamento, ela se abriu de repente, revelando o seu exótico anfitrião:
    — Apareceu a margarida, olé, olé, olá...
    — Não ferra cara, não ferra!
    Após esse lacônico diálogo, 51GMA foi convidado a entrar. O ambiente extremante organizado e asséptico chegava a provocar-lhe asco.
    Seu ex-companheiro no cybercrime sempre fora extravagante no que desrespeito ao seu estilo de vida. O mesmo maníaco cheio de transtornos obsessivo-compulsivos que daria muita matéria de estudo para os psiquiatras tinha a fama de invadir qualquer sistema sem deixar nenhum sinal de fumaça, ou seja, era impossível rastreá-lo.
    Ele começara desde muito cedo no cybercrime, invadira o banco do Vaticano, o banco de dados da Apple estore e roubara as lista de endereço das verdadeiras pinturas do Louvre para traficantes de arte, depois dessas façanhas, ele foi apadrinhado por uma das quadrilhas do Duque de Caxias, que lhe deu um implante neural. Conhecera 51GMA e Overall por acidente, a dupla já trabalhava há algum tempo pra mesma gangue.
    O quarto integrante do grupo entrara depois por “pressão de forças superiores”. O quarteto cyberterrorista operou até a separação forçada depois da morte de Overall, o chamado cérebro do grupo. SHAD perdera o contato com 51GMA depois da última missão, e como o outro não respondia seus contatos, parou de tentar e se mudou para outro complexo.
    O jovem fugitivo caiu pesadamente no sofá revestido com plástico-bolha, todos os assentos da casa eram revestidos com ele. O chão era excessivamente limpo. Quadros e fotografias muito bem alinhadas, perfeitamente simétricas, como se um erro de posicionamento causasse alguma desarmonia tipo feng shui que acabasse levando o mundo ao Armagedom.
    — Você parece acabadaço hein! Ta sonhando com a morte do Overall de novo?
    — Olha SHAD, você realmente sabe como animar uma pessoa.
    O ex-colega dos tempos de outrora notou o volume na calça do maltrapilho hacker e rapidamente correu as persianas, fechou-as, e depois apontou pra o recém-chegado de modo acusador.
    — Qual foi à merda que tu se enfiou agora 51GMA? Me diz que tu não foi seguido, não, que pelo menos deu um ninja nos cara...
    — Relaxa cara, senta aí vai, tu quer ensinar truque novo a cachorro veio!
    O outro não confiara muito em suas palavras e manteve alguma reserva, pousou no sofá com o estridente som do plástico-bolha espocando no ar.
    — Eu fui visitar o Hy-Bit — o visitante resolveu não entrar no assunto, sabia muito bem onde aquilo tudo ia dar, mas o garoto insistiu. — Ele saiu do coma, não ta falando ainda, mas os médicos dizem que talvez ele tenha “sequelas”. Sabe o que ele me disse quando me viu, “você foi o único que veio me visitar”. Eu não falei sobre o Overall... eu tive que sair de lá, o Hy-Bit tava vegetando naquela cama cara.
    — Eu sinto muito...
    — SENTE MUITO UMA PORRA!
    O cybercriminoso se levantou e os dois começaram a se encarar como se fossem se agredir a qualquer momento. O adolescente virou o rosto. Hy-Bit também era seu amigo, e nunca procurara saber como ele estava ou o que tinha acontecido com ele. Depois de pensar, ele sentou-se novamente no sofá e disse com mais calma:
    — Eu sei que a morte do Overall foi culpa minha, dava pra livrar o flagrante — falou o hacker num tom de desânimo —, mas eu tinha dívidas para pagar cara, eu sei que cê num vai entender. Se me ajudar dessa vez, eu garanto que eu nunca mais venho aqui.
    O ex-colega ergueu-se e pôs as mãos na cintura e passou a andar de um lado para o outro, resmungando baixo, de modo irritante. Depois gesticulou um “tanto faz”. O cybercriminoso contou sua situação e porque tinha um berro na cintura. SHAD o ouviu pacientemente, até erguer-se novamente e continuar a andar dando volteios na sala.
    — Quando você faz isso fica com uma cara de cachorro louco que cê nem sabe.
    — E você quer que eu diga o quê seu animal? — depois ele indagou: — Eles só podem te rastrear em atividade no cyberespaço, que é quando teu implante neural dá o sinal de fumaça pros canas, isso te da uma vantagem sabia? “O que serve ao inimigo a ti prejudica, e o que te serve prejudica o inimigo”, adoro a Arte da Guerra.
    — Saquei, aquele lance de Sun Tzu né?
    — Não sua besta, isso é Nicolau Maquiavel.
    — Vá se fuder você e Maquiavel.
    — Mas que coisa maquiavélica de se dizer — como SHAD era metido à intelectual, 51GMA deixou passar essa provocação. — Quanto à questão da SSS, deixa eu te dar uma notícia meu amigo, a Vector não assumiu porra nenhuma, a Lobato Segurança continua reinando por aqui.
    O jovem ficou desconcertado. Agora ele é quem caminhava de um lado para o outro. SHAD revirou os olhos, ele foi até o seu terminal e acionou a projeção holográfica para que o fugitivo pudesse acompanhar as buscas junto com ele.
    — Então você quer que eu busque a origem desse tal de Saber A-1618 né?
    — Se souber de onde ele veio, saberei quem quer essa coisa.
    — De acordo com o que cê disse — comentou o anfitrião curioso —, o pessoal que tava atrás de você era militar dos brabos, talvez SEAL ou fuzileiros navais?
    — Não — respondeu 51GMA —, eram loiros de olhos azuis, e falavam rosnando.
    — Neonazistas? — o outro negou meneando a cabeça. — Olha, pode ser qualquer agência secreta europeia cara, você não viu um símbolo, um logotipo, nada?
    Forçando a memória, o adolescente refez os seus frenéticos passos mentalmente.
    — Não cara, deu não — o outro hacker suspirou. — Se liga, eles falavam coisas tipo kamerad, yurich, vasilitov, sabe, não eram americanos, os cara da CIA não grita quando persegue alguém que eles querem matar... ou melhor, espere! — o cybercriminoso esbugalhou os olhos como se tivesse recebido uma revelação divina. — Só um grupo queria me matar, o outro grupo tava usando aquelas paradas que acerta, mas não mata...
    — Munição não letal lerdo, bem, já temos onde começar, Kremlin, aí vou eu!

7

    Um bom hacker só precisa de um nome e um terminal para acessar o cyberespaço, e submergir naquele mundo de dados e criptografias. Através de impulsos elétricos, o cérebro de SHAD pôde entrar literalmente na rede mundial de computadores, não como um usúario ou um mero vírus, mas como uma estrutura codificada amorfa, uma lógica variável abrindo caminho naqueles milhões de séries de construções algorítmicas.
    Com as poucas informações passadas pelo colega, ele invadiu os sistemas de defesa militar da União Soviética. O trabalho de filtragem foi extenso, mas uma checada nos jornais comunistas e no MI-6 ajudou bastante. Desde a virada do século, o bloco capitalista – incluindo o Brasil recém-democratizado – passou cada vez mais a assediar a URSS para que os países do Leste Europeu voltassem ao liberalismo. Nem mesmo a reaproximação com a China fortaleceu o sistema de governo em pré-falência. Dezenas de países se revoltavam, e a Alemanha se reunificara, tornando-se capitalista.
    Karov Nijladinsk, atual líder do Partido Comunista, estava tendo grandes dificuldades em manter as velhas relações de poder à moda do mestre mandou. Agentes da Spetsnaz, as Forças Especiais da Rússia estava entrando em conflito com a KGB, a Polícia Política, o equivalente a CIA americana. O Exército Vermelho já não aceitava mais esperar horas numa fila pra comprar um pão preto. O uso de campos de trabalho forçado para aumentar a produção agrícola e industrial já entrara em colapso há muito tempo, e esses horríveis campos de concentração não conseguiam mais abrigar a enorme massa de trabalhadores. As pressões do ocidente contribuíram para o arrefecimento ideológico.
    Antigos inimigos de Karov estavam se articulando para derrubá-lo do poder. Embora fosse o último dos líderes comunistas da União Soviética, ele não desejava ser reconhecido como o aquele que findou o comunismo, ele acreditava no marxismo-leninismo como o Führer acreditava no reich de mil anos. E como em toda psique ditatorial, ele enxergava em si mesmo a luz de um novo mundo, uma espécie de messias político, Karov não pretendia morrer! Pesquisas foram desenvolvidas para mantê-lo “eterno”.
   Embora não houvesse fontes confiáveis sobre o fato ou o hacker tivesse conseguido acesso ao projeto, ele chegou a uma conclusão assertiva. Com 51GMA ao seu lado, ele não demorara a fazer as inferências. O fugitivo não ficou satisfeito com as notícias, ele seria caçado até o fim pelo resto de sua vida. Só restava uma única alternativa.
    — Se matar?
    — Você tem outra opção melhor SHAD? — o mesmo por um momento ficara calado, como que meditando. Quase meia hora se passou quando ele teve uma ideia satisfatória. — Olha 51GMA, eu acho que sei como posso te ajudar, em meu complexo, todo mundo gosta do Tio Sam.

8

    Ele tinha um revolver, e essa era a única arma que ele tinha. Com certeza o Rossi travaria no segundo disparo, ele estava se sentindo o próprio Ocelot, Seu arsenal se resumia a seis insignificantes balas. A União Soviética mandara seus melhores homens, armados até os dentes para capturar 51GMA. Mas a operação devia acontecer à surdina. O EUA não podia suspeitar mais do que já sabia de toda a história.
    Pé ante pé ele desceu as escadas, àquela hora da noite, as luzes conferiam matizes multicoloridas, como uma festa. A poluição visual que não era vista de dia, agredia os seus olhos às dez da noite. Com a arma enferrujada em punho, ele continuou a caminhar sob os degraus, não encontrara nenhum russo, pelo jeito sua isca tinha dado certo, mas não podia se antecipar.
    Os militares soviéticos estavam indo com muita sede ao pote, a KGB queria o implante neural, mas os revolucionários queriam destruí-lo, para nunca mais ter que dormir sob a égide comunista. Para sua surpresa, o local estava vazio, ou melhor, seja lá quem tivesse estado lá havia desaparecido sem deixar vestígios.
    O guarda-volumes estava lá, com vinte portas sanfonadas de cores variadas, ele hackeou o sistema do local para encontrar a porta certa, aquele volume cadastrado no nome falso de Omnicyber. A porta sanfonada foi aberta a meio trilho e o homem esquálido entrou. Para a surpresa do invasor, havia um extravagante terminal cheio de cabos e conectores com um painel amontoado de botões e alavancas. Parecia antigo, mas completamente funcional. Ele tinha uma grande tela de cristal líquido no meio, nela estava estampado o busto do tão conhecido líder comunista.
    Karov primeiro mostrou espanto, depois voltou à mesma postura fria. O anfitrião rosnou alguma blasfêmia em russo. Era um sexagenário de cabelos grisalhos e bigode farto, estava vestido num uniforme militar de alta patente. Os lábios eram finos e o rosto descascado como de um lagarto. Seus olhos eram encovados.
     — Não pode ser! Mas você está tentando invadir o sistema de defesa do Kremlin nesse momento 51GMA! Como pode estar em dois lugares ao mesmo tempo? — disse o ditador em um português impecável.
     — Eu também não esperava ver essa sua cara feia — ironizou SHAD se revelando. — Quer dizer que vocês finalmente conseguiram decodificar o funcionamento do cérebro humano em um conjunto de dados binários? Mas de nada adianta se a pessoa não está instalada no hardware certo né não? E transformado numa IA você não pôde hackear o brinquedinho né bigodudo? A coisa ta russa! Como é ficar aí num terminal sem os braços e as pernas hein coroa? Não, não, melhor, me deixe vê, você sente câimbra ai dentro vovô?
    — Não importa, nesse momento meus agentes já estão alcançando o senhor 51GMA — disse Karov triunfante. — Logo ele será obrigado a baixar a minha consciência decodificada, logo eu estarei no poder novamente e eu vou esmagá-lo como a uma mosca seu inútil.
    O líder comunista caíra na armadilha da dupla brasileira e agora amargava o fim trágico. Sua representação em pixels borrados suava frio. O bigode se eriçava enquanto sua boca blasfema destilava ódio contra o garoto.
    — Infelizmente não vai ser possível. — SHAD apontou a arma e girou o tambor do revolver, colocando-o de volta com um clique seco. — Você está só blefando e nos subestimou. O 51GMA matou a metade do seu esquadrão acidentalmente lá no Duque de Caxias enquanto fugia pela escadaria de incêndio, outra divisão, com certeza da Spetsnaz morreu numa perseguição de VAT, e quanto aos KGB remanescentes que estão indo pro meu apê sem convite... eles serão bem recebidos pela minha galera, uma fina cortesia da Zona 05. Você errou em fazer sujeira na minha cidade comuna de merda. Agora se me der licença...
    O russo xingou, mas seis disparos o fizeram calar. Depois, um molotov foi usado para brindar a sua morte, a porta sanfonada foi fechada e o fogo devorou o terminal.

Fim
Caliel Alves
Enviado por Caliel Alves em 17/07/2017
Código do texto: T6056887
Classificação de conteúdo: seguro

Copyright © 2017. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Caliel Alves
Araças - Bahia - Brasil
46 textos (607 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 23/09/17 13:14)