SERRA NEGRA

PRIMEIRA PARTE

TUDO COMEÇOU ASSIM

Capítulo I

O QUE ME MOTIVOU A ESCREVER UM ROMANCE

Quando estive na Serra Negra, na hora tardia do ocaso, fui sentar-me nas pedras que cercavam uma lagoa que se situa na parte lateral da residência do senhor José Ribeiro. Extasiado, voltado para o poente, via um por do sol colossal, formidável em seu esplendor, se prolongando num céu que se encontrava salpicado de nuvens, que modificava-se imperceptivelmente e eu podia escolher detalhes brilhantes nas estruturas coloridas dos corpos celestes, ou paragens etéreas que pareciam miragens de campos desertos esperando para serem habitados. Fiquei sem saber o que fazer de tais coisas, de tais oferendas que a natureza concedia para mim, de como retratar aquele momento transformando-o em algo que pudesse ser transferido ao leitor em caracteres impressos para que ele participasse daquele calafrio abençoado – e esta inabilidade me deixou frustrado. Lentamente, a sombra da noite corria a terra, invadia os campos e escurecia a humilde casa do campônio humilde como também escurecia o quarto de dormir onde se encontrava a humilde enxerga. Os animais da noite já estavam a postos tais como os vaga-lumes que reluziam entre os recôncavos vazios, as corujas, sentinelas da noite, iriam velar o sono que ora se avizinhava. Automaticamente, eu poderia ter feito um esboço daquele momento e levá-lo comigo para que, em hora oportuna, numa lúcida inspiração, pudesse descrever aquele momento para ofertar aos leitores uma surpresa esplendida que seria gravada em sonhos e orvalhos, mas, naquele entardecer, os meus pensamentos estavam longe, presos na magia do momento. Foi um particular pôr-do-sol. Jamais vou esquecer aquelas nuvens compridas de um violeta-escuro e riscadas de rosa, imobilizadas, num leque; tudo era uma profusão de cores e formas! E a tarde morria nos quadrantes da terra, a tarde da Serra Negra estava escurecendo também; mas logo acima do horizonte, num espaço lúcido de azul turquesa, abaixo de uma estrato negra. os meus olhos depararam-se com uma vista que poderia ser imperceptível para muitos neste ou em qualquer outro pôr-do-sol, mas foi peculiar para mim. Ocupava um pequeno setor daquele enorme céu e tinha a nitidez de um clarão de raio a me convidar para concentrar toda a minha atenção. Lá estavam, à espera, pequenas nuvens, brilhantes, anacrônicas e distantes. Remotas mas perfeitas em cada detalhe; fantasticamente reduzidas, completamente delineadas em uma beleza incomum. Maravilhado vi uma porta se abrir em minha mente: meu amanhã de escritor estava pronto para ser entregue a mim. Que ótimo! Saí daquele local já noite escura, com o clarão da mente abrindo caminho por onde passava...

Com a finalidade de reconstruir uma época de romantismo, sofrimento e aventura a partir do ano de 1945 até o final do século, é que me reporto até à cidade de Bezerros, até ao povoado da Serra Negra e adjacências, e devo aproveitar essa fúria adormecida para escrever e que agora acordou em mim, para içar das brumas do passado homens e fatos até então desconhecidos. Tudo o que necessito é visualizar alguns personagens marcantes daquele tempo e desenvolver uma trajetória de dor e sangue, de amor e ventura. Em via de regra, em meus pensamentos, os personagens deste romance que ora escrevo parecem completamente independentes de suas implicações subjetivas, aos quais, é claro, podem ser qualquer coisa, desde santos até pecadores incorrigíveis. Eles pairam por perto, emitem opiniões, me corrigem, roubam o meu sono, mas sem o intrometimento de minha assinatura. Encontro-os grudados a um canto de minha tela mental ou sutilmente enfiados em alguma parte ornamental de um passado glorioso.

Depois daquela experiência mística e viva em detalhes, as primeiras letras começaram a brotar. Sem o sopro do vento, a gravitação transparente de uma gota de chuva ou o orvalho da noite, reluzindo em luxo paradisíaco sobre uma folha adormecida, inclinava-a para baixo, e então, tendo vertido aquela carga brilhante, a folha aliviada voltava à sua posição natural. Chuva, gota, folha, alívio, agreste, seca, infinitas idas e vindas - eis os ingredientes constitutivos para delinear uma bela história. Sabendo, a partir daquele momento iluminado, que o instante em que tudo aconteceu em cada romance, não foi uma fração de tempo e sim uma fissura nele, uma festa, uma troca de olhares, uma promessa de amor eterno,e que tudo arrefeceu dando lugar a uma reposição imediata através de rimas, versos ou prosa. Comecei a escrever compulsivamente quando uma lufada de vento revolveu o passado e desnudou páginas e páginas escritas sobre homens e mulheres desconhecidos, que viveram intensamente e fizeram história em meu rincão. Com este vento, as árvores começaram juntas a gotejar vivamente, numa imitação tão tosca do aguaceiro recente quanto as palavras que já se murmuravam em mim, semelhante ao impacto de beleza que experimentei quando, sentado naquela paragem da Serra Negra descobri que amor e eternidade se confundem. Daí e sempre, até agora, comecei a dar vida a todas aquelas pessoas que começaram a viver em meus pensamentos.

clira
Enviado por clira em 03/05/2012
Reeditado em 22/08/2017
Código do texto: T3647541
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