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Conversa Interrompida

-- Assim não pode! Assim não dá! Será que você não encontra mais tempo pra mim, criatura? Alô, alô! Paredes? Tem alguém nessa casa que ainda me escuta? -- Quando ele disse isso, percebi sua presença. Parecia muito irritado comigo. Pensei: -- Por que será, meu Deus? Há quanto tempo estaria ele ali a esbravejar? Respondi-lhe: -- Amor, só mais um pouco, sim?  -- e com voz mais adocicada ainda:  -- Agora não, que estamos num momento muito importante... “Pleaaaaaase!”
-- Ignorando qualquer reação, voltei para a conversa que mantinha com o meu amigo escritor, o brasileiro:

-- Observa, minha cara, -- dizia ele -- os dois foram nacionalistas...

-- E também não tiveram filhos -- interrompi-o -- Pra ela foi muito pior, pois o aborto deixou traumas. Há provas disso! Tiveram também um único grande amor, Ú-NI-CO, que durou por toda a vida. -- falei, encantada.

E do meio de um sorriso debochado, vi meu amigo trair por um momento sua elegância ao deixar escapar:

-- Ah não! Dessa outra aí eu sei de coisas... Era bem o tipo que costuma dar nó no vento e esconder as pontas... Sei!

-- Tá certo que ela deu umas “puladinhas de cerca”, mas o porto seguro sempre foi o “cabrão” lá.

-- “Cabrão”?! O que é isso? -- perguntou-me o amigo fingindo-se de desentendido.

-- Creio que devíamos deixar de lado as afetações -- disse-lhe eu, devagar -- Não é por tua influência, nem a de outrem, que vou mudar meu jeito de falar, entendeste?! -- conclui impaciente. Ao que ele replicou:

-- E assim pretendes tornar-te uma boa escritora, em Português? Tsc, Tsc, Tsc... --  praticava agora a inspeção habitual da ponta do nariz.

-- Algumas coisas mudaram muito de teus tempos para cá. Se bem que... Talvez tenhas razão! Podemos deixar para discutir isso uma outra hora, sim? Estou mais interessada em que me ajudes a juntar as peças que faltam neste quebra-cabeças. --  Segui com a listagem: -- Ambos gostavam de gente e tendiam para o pensamento socialista. Ela declarada, ele mais discretamente. Fato é que militaram pelo que acreditavam, cada um à sua maneira, claro!

-- Humm... -- disse meu amigo, levantando os ombros levemente e fixando o olhar agora no “bonsai”, no parapeito da janela. -- Interessante técnica, não?

Esse meu amigo sabia muito bem levar outros ao extremo. Controlei-me, recusei-me a morder a isca e continuei, simplesmente: -- Ambos foram exímios pedagogos, disciplinados, autodidatas... ela pintou sua história na Arte e ele mudou o mundo com sua Ciência... -- Falei admirada. Ainda não acreditava que tal coisa estivesse acontecendo comigo. Como podia algo assim ser possível? E por quê justo comigo? Ruídos ritmados, muito distantes, descarrilharam-me o trem dos pensamentos.

-- Vai demorar muito ainda? -- perguntava meu marido e enquanto esperava por uma resposta, batia nervosamente a sola do sapato contra o chão. Juro que não estava entendendo o por quê de toda aquela zanga. -- Amor, por favor não nos interrompa agora o raciocínio. – Pedi mais uma vez, gentilmente.

-- Era só o que me faltava... -- ele continuou e com maior agonia gritou: - Estou com fome!

-- Amor, tem comida na geladeira. Você bem sabe... É só esquentar! Você sabe onde estão o microondas, os pratos, os talheres...  Por favor, não interrompa mais, sim? O que estamos fazendo aqui é algo muito sério. -- Não vindo logo outra reação, retomei a conversa com o brasileiro:

-- Veja só: os dois tinham criatividade e humildade impregnadas no corpo. Ao que tudo indica, sempre foram coerentes, pessoas de honra, leais aos amigos.

-- E cada qual com suas próprias convicções religiosas, o que parece ter sido bem mais forte no caso dele... -- Meu amigo falava comigo mas não tirava os olhos da porta, como que tentando antecipar as reações de meu marido, do outro lado. Ainda continuou, de forma mecânica: -- Mantiveram-se fiéis ao que acreditavam e... -- remexeu-se na cadeira em que estava sentado, como que preparando-se para ter que correr a qualquer minuto -- ao mesmo tempo parecendo que não praticavam qualquer tipo de... proselitismo... – Seus olhos não desgrudavam da porta, que a essa altura quase fora derrubada pelos socos de meu marido, do outro lado, desferidos ao mesmo tempo em que gritava: -- “Nós”? Que “Nós”? Olhe, vou lhe  internar, viu?! Doida, você está doidinha de pedra! -- ao que se seguiu um silêncio súbito. Levantei-me, fui até a porta, abria-a e vi que meu marido tentava voltar a si, recuperando o auto-controle. Como não é uma pessoa violenta, ficou desconcertado com a própria reação. Ficamos nos olhando por um tempo, o qual não posso precisar, sem dizer palavra, os dois, respirando apenas. Ao final ele me disse: -- Desculpe-me! Vou-me embora, antes que me abandone a razão que ainda resta. Não me espere para o jantar – e saiu de casa batendo portas atrás de si.

O meu estado? Diria que me encontrava agora num tipo de torpor. O brasileiro, esse também não estava mais à vista.

Nota da autora:
Este conto está relacionado aos seguintes (por ordem de postagem):
- Histórias;
- O Cientista;
- Sobre Necessidade de Aplausos;
- Entre Mulheres;
- À Tarde Entre Mulheres, à Noite Entre Homens;
- No Bosque.



Helena Frenzel
Enviado por Helena Frenzel em 04/07/2009
Reeditado em 02/01/2010
Código do texto: T1682024
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Helena Frenzel
Alemanha
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