VIDAS CRUZADAS

VIDAS CRUZADAS

- Sílvia Grant

A semana era corrida, mal dava tempo de Maria conviver com suas crianças. Mãe de três pequeninos e, tendo que trabalhar fora para trazer o sustento, sua rotina se iniciava às cinco todas as manhãs. Levantava, preparava o leite das crianças, as mochilas, arrumava todos e saía apressada em direção ao ponto de ônibus. Alice, a mais novinha, ia no colo. André, com cinco anos, carregava as mochilas. Lucas, com três, pendurava-se na saia da mãe e implorava por colo durante todo o trajeto. Havia dias que tudo ficava mais difícil, esse era um deles. Chovia, fazia frio e o ônibus não chegava.... Moravam na periferia, em uma região pobre. O desleixo e a falta de escrúpulos por parte da subprefeitura, não provia sequer uma cobertura para que esperassem um pouco mais protegidos do vento e da chuva fina que insistia em cair. Após vinte minutos de espera, sob choros, espirros, e protestos, finalmente conseguiram pegar o transporte que os levaria para o berçário, a creche e o trabalho de Maria. Tendo o marido morto por uma bala perdida logo após o nascimento de Alice, não restou a ela outra opção a não ser ir à luta. Trabalhava de cozinheira na casa de dona Laura, uma renomada auditora do Tribunal de Contas. Dona Laura, também mãe de três, com idades semelhantes a seus filhos, conhecia a luta de Maria e, fazia o possível para ajudá-la na criação das crianças. Doava as roupas, os brinquedos e tudo o que fosse necessário para o conforto da cozinheira e sua prole. Era uma boa patroa, pagava um bom salário, tratava-a com dignidade. Os anos foram passando, a vida fluindo e a adolescência das crianças chegando. Maurício, o mais velho, Matheus com 15 e Maraísa com 13, filhos de Dona Laura, cresceram junto com os filhos de Maria embora, se vissem só em ocasiões especiais como aniversários, natais ou outras datas marcantes. Queriam-se bem, mas, era nítida a diferença de postura, gostos e estilo de vida. Ironias, censuras, olhares de deboche e desdém corriam solto entre eles. Aliás, diga-se, a bem da verdade, um comportamento típico inerente à adolescentes. É mesmo uma fase complicada...

- Aristeu Fatal

Era impossível não haver diferenças de comportamento entre os adolescentes. Mauricio, Matheus e Maraísa tinham uma criação muito diferente, estudavam em colégio particular, dos mais importantes da capital, o Bandeirantes. Frequentavam a alta sociedade, festas de aniversário, casamentos e Maraísa iria debutar quando fizesse 15 anos. Frequentavam, também, o Clube Paulistano, refinado local de lazer da fina flor da classe A paulistana. Maurício era da equipe sub-17 de futebol de salão do clube. Matheus, devido ao seu porte maior, era da equipe sub-15 de basquete e Maraísa era da equipe de florete. Então, não tinham como deixar de serem esnobes diante dos filhos da Maria, que estudavam em colégio público na periferia. Festas somente churrasco na laje. Mas, por incrível que possa parecer André, Lucas e Alice, muito ajuizados, e conscientes do sacrifício da mãe, fazendo de tudo para que eles fossem felizes, eram estudiosos e excelentes alunos. E, importante, eram jovens sadios, pois Maria, com o bom salário, caprichava na alimentação deles. Já os filhos da patroa, não contavam com a assistência integral dos pais. Não iam bem na escola. André, bom jogador de futebol, fazia parte dos Meninos de Cotia, como eram chamados aqueles que faziam parte da base do São Paulo Futebol Clube, cujos treinos eram efetuados no Centro de Formação do clube naquela cidade. Lucas seguia o mesmo caminho do irmão, e Alice fazia ballet na escola municipal existente no bairro em que moravam. Quando Maraísa completou os 15 anos, a festa foi no Clube Pinheiros. Os filhos da cozinheira foram convidados e Dona Laura fez questão de arrumar os trajes deles e inclusive os da Maria. Educados, aceitaram o convite. Uma festa maravilhosa, Maraísa fez questão de dançar uma das valsas com André. Ele arrasou, todas as meninas presentes quiseram-no como par. Era, de fato, um jovem bem bonito. Alice, vendo aquilo tudo, se entusiasmou e saiu da festa dizendo para Maria que gostaria de uma igual. Maria sorriu e pensou: como sair dessa? Faltavam apenas uns meses para acontecer!

- Clea Magnani

A vida continuava. Cada um com suas preocupações: Os filhos de Dona Laura, estudando sem muita vontade, visto contarem com a solidez da família, e treinando seus esportes para os campeonatos. Os filhos de Maria, já se preparando para trabalhar, pois só com muita sorte conseguiriam sucesso profissional nos esportes. Maria preocupada com o pedido da filha que já ajudava em casa dando aulas de balé para três filhas de vizinhas onde moravam. Alice nunca havia pedido nada para ela, já estava até meio arrependida de haver comparecido com seus filhos àquela suntuosa festa, a qual jamais poderia dar à filha tão boa. Outra preocupação de Maria era com o interesse de André por Maraísa. Aquilo não poderia dar certo, e o filho iria sofrer quando Dona Laura percebesse. A cuidadosa mãe temia o deboche de Matheus que, certamente iria ridicularizar seu filho. Ela conhecia bem aquela família. Eram excelentes patrões, mas que não passassem dos limites da cozinha. Naquela manhã a cozinheira ouviu alguém chegando e não era hora de nenhum deles estar em casa tão cedo. Foi para a sala enxugando as mãos no avental e encontrou Maurício deitado no sofá ainda com o uniforme do time de futebol de salão. – O que houve, Maurício? Você está bem? - perguntou – o rapaz respondeu que estava muito cansado e com fortes dores nas articulações, que vinha sentindo havia dias, mas que saiu da quadra com tontura, assim que começou o treino e veio para casa. Logo depois, Dona Laura chegou da cabeleireira e ao saber do acontecido, marcou médico para seu filho. Os exames revelaram Doença Falciforme e o tratamento foi iniciado. Porém, os resultados não eram os esperados e o caso necessitava de um transplante de medula óssea. O desespero tomou conta de todos. As buscas por um doador na família se encerravam na incompatibilidade. Maraísa se encontrava com André nos shoppings, sem que sua família suspeitasse do namoro e o rapaz ao saber do problema, quis se submeter ao teste e, era compatível. Após a realização do transplante bem-sucedido, tudo mudou na visão daquela família.

- Alberto Vasconcelos

A notícia caiu como uma bomba. Laura estava internada em estado gravíssimo depois que o caminhão betoneira, desgovernado, passou por cima do seu carro. Os bombeiros tiveram que serrar as ferragens para efetuarem o resgate. Luís Cícero, empresário, marido de Laura, pediu a Maria para se mudar para o apartamento com os filhos para tomar conta de tudo, porque ele teria que acompanhar a esposa hospitalizada. Maria agora seria a mediadora entre os seis adolescentes. Dois meses depois do acidente, Laura voltou para casa, mas estava tetraplégica e, mais do que nunca, dependente dos serviços de Maria que dera conta de toda a incumbência tanto no trato com a casa, como no trato com os adolescentes, cujas vidas deveriam ser preservadas. Diferente dos pais biológicos, Maria soube impor respeito e obediência às normas estabelecidas para a convivência entre todos da casa e quando, um ano depois do acidente, Laura percebendo a falência dos seus órgãos, disse ao marido que queria conversar com ele e Maria. Sem dramas ou vitimismo, Laura expôs aos dois que sabia e aprovava o namoro entre Maraísa e André, principalmente depois da demonstração de altruísmo do rapaz e que depois da sua morte, Luís Cícero e Maria deveriam se casar, afinal as vidas deles já estavam cruzadas a tanto tempo que não haveriam os problemas que, fatalmente, surgiriam se uma pessoa estranha assumisse a direção da casa. Uma semana depois da conversa entre os três, Laura faleceu, apesar da assistência médica e dos cuidados de Maria. Aos poucos a vida da família voltou ao ritmo normal. Os quatro rapazes, começaram trabalhando nas empresas de Luís Cícero em horários que não prejudicassem os estudos e depois do noivado de Maraísa e André, Matheus e Alice tornaram-se inseparáveis. Alguns anos depois, numa cerimônia simples, mas bastante concorrida, os seis jovens foram as testemunhas do casamento entre Maria e Luís Cícero que juraram solenemente serem fiéis um ao outro, na alegria ou na tristeza, na saúde ou na doença, na riqueza ou na pobreza até que a morte os separem.

Aristeu Fatal, ALBERTO VASCONCELOS, CLÉA MAGNANI e SILVIA GRANT
Enviado por Aristeu Fatal em 21/05/2021
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