Eterno retorno

“Tudo volta, as coisas e as palavras giram em círculo, às vezes dão a volta ao mundo, depois, um belo dia, se encontram, se unem e o círculo se fecha. ”

Sándor Márai

O início do verão tem dias perfeitos nestas cidadezinhas do interior. Junto com o cantar dos pássaros e o nascer do sol há um alvoroço de vozes, um farfalhar do vento matutino e, sobretudo, uma euforia dos estudantes no começo do ano letivo.

No caminho aberto pelo sol passam os carros, as motos, as bicicletas...A esta hora da manhã o cheiro de poeira orvalhada se mistura ao aroma de corpos lavados, perfumados e vestidos. Até o bar tem um odor diferenciado: sabão e água sanitária.

O nariz pontudo e travesso do velho João fareja o dia. O rosto balofo se volta a tempo de pressentir a chegada do dono do bar.

-Tá olhando as menininhas da escola, né?

O sorriso aberto de dentes amarelos confirma a pergunta do outro. Passa a mão pelos ralos e enrolados cabelos antes de observar o relógio. Respondeu só por amizade:

-Tô olhando as mães das menininhas.

O dono do bar deu meia volta, ligou o rádio no canto do balcão e alcançou a garrafa de café. Trouxe um copo para João. Ele o pegou com os dois dedos de coçar verruga. Passou o copo de uma mão para a outra enquanto assoprava para esfriar. Os olhos vivos, muito oblíquos, examinavam a rua. O botequeiro já impaciente:

-Esperando alguém, João?

Com um longo suspiro sexagenário João pensou em responder. Parou a tempo. O dono do bar não entenderia mesmo. Ele só entende de comprar e vender. Mas certas coisas não têm preço e nem boleto. Entretanto, o desejo de confidência é maior e mais bonito que a timidez, por isso virando de uma vez o gole do café amargo, ele disse:

-Sabe aquela dona do carro vermelho e vestidos estampados?

Entregou o copo ao homem e observou o rosto dele tentando descobrir algum sorriso fugaz ou ao menos um balançar de cabeça. Viu apenas o gogó dele subindo e descendo e uma tossezinha antes da fala:

-Foi embora com a filha, eu penso, depois que o marido morreu.

Agora era a vez do botequeiro olhar o rosto de João como quem se olha no espelho. Também não viu nada além do grande e recurvado nariz estremecendo sob o sol da manhã e sugando fatias de ar e poeira como um antigo e poderoso aspirador. Alisou o queixo duro e áspero antes de dizer:

-Vou ver se me acho por aí.

Levantou-se do tamborete e pôs a camisa e a barriga dentro da calça. Deu um breve aceno para o dono do bar e saiu quase trotando. O outro balançava a cabeça sorrindo. Levou o tamborete para dentro, monologando:

-É cada um que me aparece.

Voltando para casa João ia pensando nos olhos negros e profundos daquela mulher que era de outro. E que esse outro agora estava morto. Assim como ele, de certa forma, também estava. Desde que sua esposa morreu que ele não via tão belos olhos e tão lindas pernas. Aquelas pernas não seriam dele assim como nada jamais fora. Mas o olhar que escapava daquele rosto era um desafio. Uma súplica. Poderia ser pena também. Ou medo. Agora era apenas ausência. E um grito:

-Ora, dane-se!

Aprumou a coluna e soergueu os ombros caminhando altaneiro. O sol impiedoso castigava seu rosto arruinado. Pôs a mão em concha sobre os olhos e caminhou pelas sombras das raras árvores do canteiro. O barulho do trânsito, o suor e os calos começaram a pesar no seu corpo cansado. Parou encostado a uma árvore, suando muito. Tremendo um pouco e se liquefazendo teve um pensamento banal e uma descoberta. Preferiu ficar com esta última.

-O que os olhos não veem...

Não chegou a concluir o pensamento porque a pouco mais de vinte metros caminhava em sua direção uma senhora distinta de chapéu e vestido pretos. Óculos escuros no rosto. Deixou um rastro de perfume quando passou por ele, e pernas que só faltavam falar. Andava lentamente e cabisbaixa. Toda ela parecia em luto, menos os quadris. E aquele rosto voltando-se para trás...

make
Enviado por make em 21/02/2020
Código do texto: T6871391
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