SITUAÇÕES DA VIDA - A MENINA

A Menina

Martinha era menina levada. Solta o dia inteiro pelas ruas. Vendia bala no sinal junto com outros moleques que nem ela. Com o estudo não queria nada, porque sua mãe jamais lhe falou a respeito. Do pai, nem sabia o nome, muito mais quem seria! A avó já tinha morrido. Havia infartado quando soube da morte do filho atingido por uma bala de fuzil em troca de tiros entre a polícia e traficantes da favela em que moravam.

Diziam que o rapaz não tinha nada com aquilo. Mas sabia que ele trabalhava no tráfico. Ela uma ocasião havia descido o morro com cinco trouxinhas de maconha que entregara a um playboy lá embaixo, a pedido do tio. Ganhara uns trocados na ocasião e achara o trabalho moleza.

Já era quase mulher. Os seios já receberiam bem um sutiã. Mas, gostava do jeito como os homens dentro dos carros olhavam para as marcas deixadas pelos bicos dos seios na blusa apertada. Ajudava a vender mais balas.

Não era boa aquela vida, mas era a vida que levava. Se queria coisa melhor, não sabia se havia. Nascera no meio de tudo aquilo. O melhor era saber se virar pelo dia e sobreviver à noite e esperar pelo dia seguinte.

Havia o Serginho, moleque que nem ela, dois anos mais velho. Tornara-se mulher com ele. Foi numa noite quando não voltara para casa e ficara na calçada com os outros garotos. Serginho se chegou mais. Meteu a mão onde não devia. Havia permitido o toque, pois estava gostoso o carinho. No celular, Serginho lhe mostrou um vídeo pornô, não foi inteiro, apenas uma parte, o suficiente para lhe deixar com tesão. Depois da mão, veio o beijo, depois o chupão no bico do seio durinho. Doeu um pouco quando foi penetrada. Não havia mais carinho. Uma loucura a dominou. Dor e prazer, tudo junto. De repente, sentiu-se molhada por dentro. O menino começou a gemer e tremer. Depois sossego. Vontade de dormir.

Dia seguinte, vida que segue. Dolorida, mas mulher!

Quando uma barriguinha começou a despontar, comentou com Serginho que não quis saber. O jeito era se virar sozinha! A mãe sempre bêbada ou drogada, nunca sabia, falou para ela tirar a criança. Mas como? Não lhe ensinou.

Serginho já trabalhava com os meninos do tráfico. Já não descia mais. Passava o dia inteiro lá em cima. Um dia desceram com ele num saco plástico preto. O carro do rabecão levou-o e a mais dois. Ninguém falou nada! Nem mãe, pai, avó ou avô apareceu! Não teve ninguém para sepultar o Serginho.

Com a barriga já grande, ficava mais difícil vender balas no sinal. Lembrou do tio, de Serginho. O dinheiro era farto e dava para sustentar a si e ao guri que estava a caminho. Ninguém iria suspeitar de uma grávida. Seria fácil! Decidiu-se por fim!

No dia seguinte, bateu na porta de uma ong de proteção ao adolescente, cujo cartão um dia lhe fora entregue por uma mulher ao volante que lhe comprara dois pacotinhos de bala. Pensou em jogar fora, mas optou por guardá-lo.

Não quis ser como sua mãe!