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O voluntário

       Carlos era um servidor público muito respeitado em seu departamento, seguia seus horários, fazia seu trabalho e quando o tempo permitia, ainda dava a mão a algum colega — a mão, nunca ouvidos aos boatos que se espalhavam por lá. Entre todos, havia uma colega de função compartilhava uma opinião diferente a respeito de Carlos com o zelador, eles concordavam que ele era o puxa-saco mais estranho que já haviam visto, pois era frio e completamente "sem sal", um oportunista quieto, o tipo que um chefe autoritário quer, um bom funcionário que aceita tudo, não faz estardalhaço e ainda acalma os ânimos dos injustiçados mais fracos. Carlos apenas queria ser o homem de paz que sempre almejou.
       Há muitos anos ele era voluntário na principal clínica psiquiátrica da cidade, onde tinha livre acesso por ser um amigo da família do dono. Todas as tardes de sábado (e quando lhe dava na telha) aquele servidor ia auxiliar no trato com os internos, embora fizesse o serviço que fosse necessário, tinha predileção por vigiar ou entreter os pacientes. Os momentos na clínica pareciam ser parte necessária na vida daquele homem tão discreto.
       Em um dia comum de voluntariado, Carlos distraiu-se enquanto guardava os jardins no horário livre dos pacientes, percebeu-se olhando o céu deitado na grama através dos olhos do paciente novato, sentiu-se inconsolável pelo colo de "mamãe" por meio do pranto de Dona Maria Alice, dançou músicas inaudíveis pelo gingado de Edivaldo, emocionou-se ao se ver aplaudido mediante "gritos musicais" dados pela boca de Aparecida, experimentou a satisfação de derrotar um exército de piranhas gigantes e decapitar um monstro marinho com um só golpe de espada pelas mãos do jovem Pedro, antes que pudesse retornar do devaneio apavorou-se ao constatar em quantas vozes ferozes podia se dividir a voz interior e foi interrompido por Selma, que sacudindo-o, implorava que ele a deixasse sair, pois dizia estar contaminada pelo vírus da liberdade e esse deveria ser espalhado pela cidade em um dia, do contrário, as pessoas morreriam na ilusão de uma vida de verdade.
       Chegado o horário de ir para casa, já era noite e no caminho Carlos se esforçava para deixar toda loucura para trás, para manter o que ele acreditava ser desejada paz, tão indispensável para o homem que ele quis ser. Amanhã era segunda-feira.
Naiara Ferreira
Enviado por Naiara Ferreira em 20/03/2017
Código do texto: T5947137
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Naiara Ferreira
Juazeiro - Bahia - Brasil, 21 anos
345 textos (6342 leituras)
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Naiara Ferreira