A MENINA QUE NÃO SABIA PASSAR MANTEIGA

Por mais que tente não consigo deixar de lembrar de como era tratada naquela casa.

Parece que minha vida está escrita num diário. Em monólogos. Sem divisões cronológicas. Sem capítulos. Tudo vem. Tudo escrevo. O que me vem agora é isto:

“Minha mãe era uma daquelas mulheres que no avançar da idade não tinham pés de galinha. Tinham pés de onça. Não tinham bigode chinês. Tinham bigodes de leoa.

Eu pensava que mãe era aquela que cuidava. Acarinhava nos braços quando o medo do bicho papão tomasse conta do filho. Mas não. O bicho podia pegar, sim. E ela reafirmava isso constantemente. Por suas atitudes de predadora.

Eu era uma meninota de uns oito anos de idade. Estávamos todos à mesa para o café da manhã. Minha mãe, meu pai e minha irmã mais velha, meu irmão mais novo e eu.

Tinha pão de forma integral. Café, chá e leite de soja. E manteiga. Eu adorava, e adoro ainda, manteiga.

Numa distraída da minha mãe, me apossei da faca e passei um monte de manteiga no meu pão. Mas um monte mesmo! Quando ia dar a primeira mordida, ela pegou minha mão e começou a apertar meu punho até o pão cair na toalha da mesa.

Feito fera raivosa, olhou-me em chispas de fogo e rugiu: Sua lesada! Tá pensando o quê? Aqui dinheiro custa a ganhar. Acha que sou mãe de pançuda? Pegou a faca e raspou e raspou, toda a manteiga do meu pão. Fiquei muda. Engoli meu desencanto a seco.

Nunca pude me lambuzar nem de pão com manteiga e nem de esperanças de sonhos. E sempre soube da simplicidade do pão molhado no chá.

Fiquei muitos cafés da manhã só com o pão. Sem manteiga. Mas meus irmãos comiam e se lambuzavam. Meu pai fazia questão de lamber o canto da boca e estalar a língua cheia de manteiga. E soltava um grunhido de prazer. Olhava para mim com olhos de hiena. Vivia rindo de mim.

Às vezes achava que, quase nenhuma criança no mundo, recebia este tipo de coisas de seus pais. Soltei um belo palavrão. E ainda por cima à mesa. E aí a coisa ficou feia mesmo.

Meu pai continuou com suas lambidas. Mas minha mãe estava atenta. Mandou que eu batesse em minha própria boca. E quanto mais eu batia mais ela dizia: Vamos, com mais força! Quero ver se tem coragem de abrir esta boca nojenta. Vai se lembrar pra sempre que se bateu. Quero ver se assim você aprende a não falar palavrão.”

E ela tinha razão. Me lembro até hoje. Mas continuo a falar meus palavrões.

Mírian Cerqueira Leite

Mileite
Enviado por Mileite em 11/10/2016
Código do texto: T5788179
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