O JUIZ DO LAVA-JATO

Doca mal acabara de chegar em casa, encostou a bicicleta na parede da varanda e entrou, com os bofes para fora e a respiração curta. Já na pequena sala do barraco, chamou a mulher. Ninaaaaaaa!

To aqui, Doca! Aqui no tanque? Tô lavando aquele seu macacão todo engordurado! Não posso misturar com as outras roupas, principalmente com a roupa da criança!

Aproximando-se, Doca, apavorado foi logo desembuchando sua desdita:

-- Sabe, Nina? Hoje, lá no trabalho, estiveram uns caras vestidos de preto e armados com fuzis e granadas. Eram da Polícia Federal! Bem que eu já tinha visto aquela gente rondando por ali, já faz alguns dias!

-- Mas, e daí? Polícia tem andando por aí, todos os dias e sempre estão armados até os dentes? Qual é o drama? Houve tiroteio, alguma bala perdida matou alguma mulher grávida, velho ou criança? Saiu alguma coisa no jornal?

-- Nada disso, Nina! Muito pior!

-- Então fala logo! Pô!

-- Eu não entendi direito porque estava longe na hora em que eles estavam falando com o gerente. Levaram ele na viatura e não falaram nada com a gente. Disseram que era para uma tal de “averiguação”.

O lance é que fiquei sabendo que era alguma coisa de “lava-jato”! Parece que um juiz mandou investigar alguma queixa. Acho que de afanação, roubo, sabe? O pior é que o homem é Juiz Federal! Sentiu a craca? Dizem que não perdoa nem a mãe dele!

-- Sim! E então?

-- O Filó, que estava mais perto, na hora, andou espalhando que o tal Juiz parece desconfiar que está havendo uma tremenda roubalheira e está querendo meter todo mundo na cadeia! Acho bom a gente aproveitar enquanto é tempo e dar no pé! Vamos voltar lá para a Paraíba e ficar uns tempos escondidos. Se bobear esses caras vão me pegar!

-- Te pegar? Não estou entendendo patavina! Nadica de nada! O que foi que você andou fazendo?

-- Nunca falei nada para não te deixar preocupada. Sabe aquelas coisinhas que, de vez enquanto trago para você? Aquele fone de ouvido, a caixinha de bom-bons, a bolsinha com moedas, o maço de cigarros americanos, a garrafa de coca-cola?

Pois é! Quando a maré estava para peixe, eu costumava tirar uma ou outra coisinha dos carros que entravam no posto para lavar. Ficavam tão esquecidas pelas bolsas das portas ou no guarda-malas que ninguém dava pela falta! Na hora de enxugar eu via o que dava para aliviar e pronto! Já era! Acho que deram queixa. Amanhã, não irei trabalhar. Não boto mais os pés lá!

No dia seguinte, já eram mais de nove horas, o gerente, todo orgulhoso, contava para os empregados que fora solicitado pelo pessoal da “Federal” para dar um jeito numa das viaturas que tivera um enguiço ali perto! Nada de mais! Apenas o fio da bobina que escapara do alojamento. Não deu outra, o carro parou!

-- Na véspera havia chovido bastante. A fila de carros para o lava-jato já estava começando a incomodar o trânsito do “Eixinho”. Doca não aparecera para o trabalho e seu celular não atendia...

Na vizinhança, ninguém sabia do paradeiro de Doca, Nina e Belinha. Sumiram de noite para o dia! Naquele dia, por causa do juiz federal, o lava-jato não funcionou.

Amelius
Enviado por Amelius em 27/03/2015
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