Quero ser feliz!

Há dias que Alberto, um garoto estudioso, carinhoso, amigo, educado, educado até demais, queria ter uma conversa com sua família. Sentia-se sufocado, não suportava mais os ensinamentos e modelos sociais exaltados no ambiente familiar. Não lhe preenchiam, ao contrário, constrangiam-lhe mas era consciente que todos esperavam naturalmente que fossem seguidos por ele. Seu pai, sempre dono da verdade, era o mentor de todos naquela casa, um marido exemplar, um pai bondoso, que sempre estivera presente na vida dos filhos.

"Prendam suas bestas porque meus cavalos estão soltos", dizia com aquele orgulho de sertanejo machista. Incomodado com aquela situação, quase oprimido pelos seus sentimentos, Alberto escolhera o almoço de domingo, uma tradição familiar, para revelar a todos o seu rumo de vida. Sim, pois apesar de ter apenas 14 anos já se sentia absolutamente resolvido para tomar as rédias do seu destino. Disse-lhes que assim como ele, muitas pessoas estavam tomando coragem, até mesmo Gil, aquele amiguinho que sempre lhe fazia companhia, estava decidido e talvez naquele exato momento estivesse fazendo o mesmo, comuncando aos pais dele idêntica decisão.

Ele começou explicando que entendia, compreendia, que o caminho que ele desejava tomar ia lhe trazer isolamento, que a família seria alvo de preconceitos, chacotas, que seu pai iria ser motivo de piada entre os amigos, mas ele não abriria mão. Não seria possível que em pleno século 21, um cidadão (ele ainda não compreendia o sentido de cidadania) não pudesse se conduzir de acordo com seus desígnios. O pai, trêmulo, com um nó na garganta, olhava para o filho sem acreditar. Logo comigo, pensou. E o filho resoluto na sua decisão comunicou a todos que não desejaria viver com trapaças para se dar bem na vida, que não iria fazer uso do jeitinho brasileiro. Chega, ou mudamos nosso modo de proceder ou a sociedade pagará pelos males decorrentes de tais condutas. Eu desejo viver honestamente, só isso!