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Memórias de Maria Teresa - Num Carnaval (versão 2.0)

Acordei de um susto. Abri os olhos lentamente tentando acostumá-los à escuridão do quarto. Fantasmas imaginários surgiam por entre as roupas penduradas no cabide. O relógio marcava 2:00 hs da madrugada e um silêncio enorme dominava a casa - incrível a quantidade de ruídos que eu conseguia captar. Será que havia sido meio-surda até alí? Fantasmas, em forma das mais diversas lembranças, povoavam minha mente e me impediam de conciliar o sono. Por que cargas d’água não tenho o poder de parar meus próprios pensamentos? Eu quero dormir, esquecer de tudo: do passado, do presente e do futuro! Em vão... Fiquei alí, ruminando coisas passadas, pequenas, inúteis.

Eu devia ter uns 8 anos. O filho da minha mãe adotiva, a quem eu chamava de tio por ter idade de ser meu pai, e sua segunda esposa, me convidaram para uma matinê de carnaval num badalado clube da cidade. A esposa dele deu alarme quando pegou meu cabelo pra ornamentar: "Nossa mãe, a menina tá cheia de piolho!"- o que na verdade era um tremendo exagero! Como esse meu tio não perdia uma oportunidade sequer de me avacalhar, só me chamou então de "porca-pra-baixo". Disse que era uma vergonha eu não cuidar direito da minha higiene pessoal.

Todas as crianças que eu conheci tiveram piolhos uma vez ou outra na vida, principalmente quando começavam a freqüentar escola. Eu me cuidava sim, mas a praga é resistente pra caramba e às vezes demora muito pra gente se livrar completamente desses parasitas. E foi realmente uma fase. Depois disso, nunca mais voltei a ter esse problema.

Mas o que ele falou - e como falou - me marcou, me magoou muito, principalmente por causa da inferioridade que eu sentia. "Pode deixar, tia, precisa me arrumar mais não... Eu não quero mais ir pro Carnaval." – disse enquanto tentava me desvencilhar dela.

Mas é claro que eles ficaram zangados comigo: "E ainda se ofende?! Deixa de besteira, menina!" - ele me disse.

Ele contava comigo pra fazer companhia à filhinha dela, uns quatro anos mais jovem do que eu. Queria que eu fosse junto e brincasse com a menina pra que os dois pudessem curtir o Carnaval mais à vontade... Eu também sou tinhosa: bati o pé e não fui! Não tinha porque sair com eles, já que eu era "uma porca piolhenta".

Tá bom! Chega!! Não quero mais ficar lembrando dessas bobagens. O que passou, passou... Águas passadas não movem moinho!

Ingenuidade minha pensar que tal estratégia funcionaria... Levantei da cama frustrada, caminhei até a sala, peguei papel e caneta e comecei a escrever:

"Acordei de um susto. Abri os olhos lentamente ..."

Helena Frenzel
Enviado por Helena Frenzel em 25/11/2008
Reeditado em 10/03/2010
Código do texto: T1301975
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Helena Frenzel
Alemanha
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