Revivescência

Revivescência

Atualmente conhecido como “PARAÍSO DE TODAS AS ARTES”, o distante reino de Laurínea se localiza em uma dimensão mitológica paralela à Terra.

Há quem diga que é para lá que se dirigem as almas dos artistas terrenos quando se desdobram em busca de inspiração.

É com os artistas de lá que eles aprendem as técnicas que empregarão futuramente na Terra.

Todavia, as coisas nem sempre foram assim.

Houve um tempo em que ser artista em Laurínea era considerado um crime.

Foi há cerca de quinhentos anos, durante o reinado de D. Padayothis I.

D. Padayothis I acreditava que toda intervensão artística humana sobre a natureza era uma contaminação e que toda contaminação devia ser varrida da natureza, pelo menos, em Laurínea.

Esta absurda crença fez com que ele publicasse, logo após sua ascensão ao trono, um decreto que proibia, em todo o reino, a prática de qualquer forma de arte.

Dizia o mesmo decreto que quem fosse flagrado em atitude que sugerisse o exercício de atividade artística seria imediatamente recolhido às Reais Masmorras e sumariamente condenado à morte.

Com a publicação do referido decreto, muitos artistas fugiram de Laurínea. Mas, houve quem resistisse às ordens do Rei e assumisse abertamente sua condição de artista.

Estes, quando apanhados, eram presos e, no dia posterior ao de sua captura, eram mortos.

Assim se procedeu até a prisão de Gorchazkys, tido como o último artista residente em Laurínea.

A prisão de Gorchazkys foi celebrada por grande parte dos súditos de D. Padayothis I, que, em razão disso, resolveu marcar para dali a uma semana a realização de uma cerimônia de erradicação das artes em Laurínea.

Nesta cerimônia, para a qual seriam convidados todos os legítimos cidadãos laurineanos, isto é, todos os habitantes de Laurínea que, nalgum momento de suas vidas, houvessem jurado fidelidade e obediência absolutas às determinações do Rei e Sumo Legislador D. Padayothis I, ao próprio rei seria concedido o pessoal privilégio de dar cabo à existência do renomado prisioneiro. Não sem antes conferir-lhe a oportunidade de confessar arrependimento perante a presença Massiça de toda a população de Laurínea.

Chegada a data da cerimônia, concluídos os discursos oficiais a ela inerentes, transmitiu-se a palavra a Gorchazkys, a fim de que ele pudesse proferir seu voto de arrependimento, em troca do qual, lhe seria consentido o Perdão Real. Entretanto, em lugar de se confessar arrependido, o artista fez saírem de seus lábios os seguintes termos:

“Prezado povo de Laurínea, Eminentíssimo Senhor D. Padayothis I, jamais me arrependerei de minhas práticas artísticas! Mesmo porque, não creio que haja algum crime do qual eu me deva arrepender! Nasci artista vocacionado e morrerei vocacionado artista! No entanto, afirmo sem temor à Vossa Eminentíssima Pessoa que, passado um ano da minha morte, Vossa Digníssima Esposa, a Raínha Panfiglia, dará à luz uma menina! Esta menina, a quem chamareis Eudáscia, viverá plenamente a sua infância! Mas, no exato instante em que os primeiros raios de mulher lhe tingirem o corpo, Seus sentidos e faculdades vitais se paralizarão! E só voltarão a funcionar no dia em que Seus lábios forem tocados pela lágrima sincera de um genuíno artista!...!”

D. Padayothis I não pôde esperar que Gorchazkys concluísse suas considerações. Decaptou-o num só golpe com a lâmina do seu sabre, declarou encerrada a cerimônia e partiu rumo ao seu castelo.

Um ano se passou e, conforme Gorchazkys havia previsto, a Raínha Panfiglia deu à luz uma menina, à qual foi dado o nome de Eudáscia.

Eudáscia viveu plenamente sua infância.

Seus pais nada diziam acerca da maldição proferida anos atrás pelo último artista de Laurínea. Pelo contrário. Pareciam ignorá-la solenemente. Contudo, como bem se sabe, maldição de artista sempre se cumpre e, assim sendo, logo que os primeiros sinais de mulher começaram a despontar em seu corpo, a Princesa Eudáscia tombou, aparentemente, exânime.

A combatida previsão se tinha tornado fato. A maldição de Gorchazkys se havia cumprido. Pela primeira vez em toda a sua existência, D. Padayothis I, o Rei e Sumo Legislador de Laurínea se via completamente impotente.

Por sua culpa, todos os artistas residentes no reino haviam sido mortos. Restava, portanto, a ele assistir ao lento definhar-se de sua filha até que a Providência dela se compadecesse, decretando-lhe a cessação da vida.

O que o Rei não sabia era que, pouco antes do nascimento de Eudáscia, por ordem da própria Providência, Gorchazkys havia renascido com a única missão de salvá-la e que a realização de tal desígnio estava prestes a ocorrer.

Explica-se:

Uma antiga tradissão de Laurínea sustenta que, para cada integrante da Família Real que nasce, deve-se construir um jardim.

Os responsáveis pela manutenção do jardim de Eudáscia eram um jardineiro – Markléscio – e um aprendiz – seu filho Benéscio, que vem a ser a reencarnação de Gorchazkys.

Um dia, passados já três anos desde a súbita paralizia de Eudáscia, Benéscio, valendo-se da ausência de seu pai, foi a encontro da Raínha Panfiglia e lhe solicitou permissão para depositar nos aposentos da Princesa um arranjo de flores feito por suas próprias mãos. Permissão que a Raínha concedeu.

Benéscio subiu as escadas, adentrou o quarto da princesa e, depois de depositar o arranjo ao lado da cama da menina, contemplou-lhe docemente a figura. Entretanto, ver uma menina tão bela naquelas tristes condições deixou-o deveras bastante comovido.

Para Benéscio, não foi possível conter a emoção.

Seus olhos encheram-se de lágrimas.

Uma delas rolou impunemente e acabou por resvalar nos lábios da Princesa, que, num sobressalto, saltou repentinamente da cama, desceu rapidamente as escadas e foi ter com Sua Mãe.

A Raínha Panfiglia compreendeu tudo. Entendeu que o aprendiz de jardineiro que atendia pelo nome de Benéscio era, na verdade, um genuíno artista e que era a ele que se devia a ressurreição de sua filha.

Não tardou o momento em que Mãe e Filha fizeram informar ao Rei o glorioso feito de Benéscio.

Extático por ocasião da recuperação de Eudáscia, D. Padayothis I mandou chamar Benéscio e, entre os dois, deu-se o Seguinte diálogo.

D. Padayothis I: “Eminente Sr. Benéscio, devo a Ti a ressurreição de Minha Filha e disponho-me a dar-Te a recompensa que desejares, inclusive o Meu posto de Rei, se assim Te aprouver, porque a Ti haverei de ser grato por toda a eternidade! Por isso, peço-Te humildemente que Me digas o que queres receber por teres salvo Eudáscia!”

Benéscio: “Eminentíssimo D. Padayothis I, nada desejo receber por ter salvo a Sua filha, porque a única recompensa que eu esperava, que era a Sua ressurreição, já me foi dada! Para um artista, não há recompensa maior do que ver restituida a vitalidade aos corações que a perderam!”

D. Padayothis I: Então, já que não posso recompensar-Te o glorioso ato, farei o seguinte: Revogarei, amanhã mesmo, o decreto que criminaliza a arte em Laurínea e dar-Te-ei a incumbência de fazer despertar, em cada cidadão laurineano, o dom artístico que tem. Está bem assim?”

Benéscio: “Por mim, tudo bem!”

No dia seguinte, o Rei cumpriu sua promessa e, daquele dia em diante, Laurínea converteu-se no verdadeiro “PARAÍSO DE TODAS AS ARTES”.

Hebane Lucácius