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DESAFIO LITERÁRIO - NEVE RUBRA - Neve no Suvaco

Veja só, contando ninguém me acredita!

Sério! E se deu numa cidadezinha lá nos cafundós do Sertão. O povo é tão esperto, mas tão original que quando cria nome, cria um que já diz tudo. Duvida? Pois veja só: “Suvaco da Cobra”... O próprio nome não já dá a idéia de que um tal lugarejo não pode mesmo existir? Pois num é? É o que eu digo... Parece que até tem uma favela em São Paulo com esse merminho nome... Imagina só: Favela Suvaco da Cobra... Rir das próprias desgraças e do esquecimento do poder público parece ser mesmo o melhor remédio...

Bom, quem plagiou quem: é coisa que eu não sei... Só sei que a cidadezinha que eu conheço também se chamava assim! Vai ver por ser antiga, mas tão antiga, do tempo que cobra até tinha patas e, portanto, suvaco. Taí, tá explicado.

E lá vivia Seu Zé das Idéias, homem trabalhador, inteligente que só ele só. De ofício, Seu Zé era marceneiro, tinha serraria e tudo mais, mas como pra todos os problemas da comunidade ele aparecia com a melhor solução, recebeu do povo o título de engenheiro.

Seu Zé das Idéias já tinha visto muita coisa nessa vida, coisas que contando muita gente diria que é inventado. Aprendeu muito com as andanças por esse mundão de meu Deus. Pra tudo que é coisa esse homem parece que achava um jeito. Precisava de ver! Uma situação que eu me lembro muito bem foi na inauguração da nova igreja. Eu tava lá, de passagem, visitando uns amigos. Fizeram uma festança enorme porque o bispo (da capital) vinha. Os jovens do Centro Caixeral tavam montando uma peça de teatro e no fim queriam neve, como efeito especial. Já pensou, neve no Sertão?... Foi em cima e foi embaixo, ao que um sugeriu:

- Vamo falar com Seu Zé. Ele tem jeito pra tudo, e se for pra fazer nevar no Sertão, taí que eu num duvido que ele consiga!

Já o Zé da Marcira, sujeito almofadinha, invejoso e muquirana que só, foi logo atalhando:

- Ah, isso eu bem queria ver! Sou até capaz de dar cinco mil contos pra igreja, do meu bolso, se esse disgramado conseguir essa façanha.

Seu Zé das Idéias era um cabra desses que come quieto... dá um boi pra num entrar numa briga e uma boiada pra num sair... Ouviu falar do despeito do Zé da Marcira e resolveu aceitar o desafio. Passou meses enfornado na oficina. Num saía de lá nem pra comer, nem pra dormir, só no dia de levar a máquina de nevar – como ele chamava -, na véspera da inauguração, para a pracinha da igreja. Tinha até uma modinha que os moleques cantavam pra seu Zé, nesse tempo, que era assim:

“Zé...
Tem que tu-má cuidado, Zé!
Tem que tu-má cuidado, Zé!”

“No meio da cidade
Vão te dexá nu
E nesse lundu
Sem querer razão
Até cum a mão
Vão querê dá em tú”

“Entrô pela frente
Saiu pur distrás
Puxou pur um lado
Mexeu e lá vai
O Zé não tem medo
Nem do Satanás”

“Zé...
Tem que tu-má cuidado, Zé!
Tem que tu-má cuidado, Zé!”

E Seu Zé chegou ao finalzinho da tarde. Veio com um batalhão de ajudantes e trouxe, na boleia de seu caminhãozinho, a preciosa invenção, o engenho que ia fazer nevar no final da peça. Tudo coberto com lona. Um segredo enorme de dá coceira em todo curioso, como eu. E Seu Zé não arredou pé do local. Ficou por lá, acampado com os outros, para garantir que ninguém iria se meter a besta de estragar a surpresa.

Dia da festa. O bispo veio como combinado e tudo ia muito bem. Banda tocando e o Zé da Marcira se roendo de raiva, num canto, já sentindo os bolsos latejando. Se a máquina do velho funcionasse mesmo, para não perder a honra, ia ter de pagar a língua e doar os cinco mil contos.

Ato final da peça. Todo mundo se coçando de curiosidade. Seu Zé mandou descobrir a geringonça – parecia um alambique gigantesco! Apertou um botão e a bichona começou a se tremer todinha. Um troço lá dentro girava, mas numa velocidade alta que só vendo! Parecia máquina de lavar e rugia que nem motor de caminhão véi... A bicha soltou uns traques e cuspiu pra cima uma nuvem rubra, grossa, que logo depois começou a cair do céu na forma de flocos vermelhos. Parecia algodão, só que congelados e em forma de cristal. O povo todo de boca aberta, olhando pro céu admirado...

- Olha, e tem gosto de uva! – berrou um de lá, bem do meio da multidão.
- E é doce! – avisou outro.
- É vinho! É vinho! Tá chuvendo vinho! – alguém deu o alarme.
- Tá chuvendo não, anafabeto! Tá mais é ne.va.no! – corrigiram os doutos.
- Não! É suco de uva! –gritaram outros de acolá.
- O que é Seu Zé? –quiseram saber.
- Vou dizer não... tem que provar pra saber! Aquele que descobrir ganha uma prenda: bilhetes pra andar de graça na roda gigante do Seu Joca!
- Êba!!

Aí foi aquele mundaréu de gente, tudo de boca pra cima, mais de vinte minutos, todos querendo provar a neve rubra que caia do céu e vinha da máquina de Seu Zé. Até o Zé da Marcira! Esse, passados uns quinze minutos tentando encher a boca com o vinho ou o suco do céu, baixou a cabeça e abriu um sorrizinho “poca-coisa”, de desprezo.

- Ora mas esse véi é ignorante mermo! Como nunca viu neve na vida, nunca andou pelas Oropa, como eu, tinha mermo era que dá nisso! Esse povo mequetrefe ele até pode inganar cum essa neve de tolo, mais eu? – e dando uma banana: - Taqui ó! Vô muito pagar os cinco mil pra igreja! - Nem bem acabou de dizer isso, já se preparando pra ir tirar satisfação com Seu Zé, viu o Coronel Juvêncio, o homem mais poderoso da cidade, se aproximar do velho, rindo e falando com ele.  O Zé da Marcira se aproximou também.

- Mais o Sinhô é danado mermo, Seu Zé! - Coronel Juvêncio disse isso dando tapinhas nas costas do velho – Taqui o prometido! - e tirou um bolo de notas do bolso (devia ser uns três mil contos) e entregou na mão do velho. Depois olhou para o Zé da Marcira, sorriu maroto e falou: - Aí Zé da Marcira, convencido da neve de Seu Zé?

Oportunidade melhor que essa Zé da Marcira não esperava. Empertigou-se todinho, como cascavel se enrodilhando, pronta pra dar o bote, já espumando seu veneno:

- Aí Seu Zé, Parabéns pela neve. O senhor sabe que, pelas minhas andanças pelas Oropa, vi muita neve, inté brinquei cum ela, fiz buneco e tudo mais... A neve que eu cunheço é branca, branquinha qui nem leite... – disse em tom de desdém, brincando com a ponta do bigode fino, duro e ensebado.

- Meu fiii, - atalhou Seu Zé – se cai do céu, é gelado, cristalino e depois vira lama no chão, é neve! Num importa se branca ou rubra e aliás, minha neve é rubra por um bão mutivo – disse piscando o canto do olho para o Coronel Juvêncio.

- Diacho é isso? Qui será que esse véi andou aprontano? – falou baixinho o Zé da Marcira para si mesmo.

- Coroné Juvênço me disse que aduvidava deu cunsiguir mermo fazer nevar no Sertão, inda que fosse neve anssim, de mintirinha. E eu disse pra ele que fazia isso, e muito mais! Dexava o povo da praça, tudim, todo mundo, de boca aberta, olhando pro céu uns dez minuto.

- E tudo isso sem usar fogo de artifício! – atalhou o Coronel, admirado.

- E não é que eu cunsegui mermo? Inté mais! Só ocê, Zé da Marcira, reparei que ficou de boca aberta pra cima uns quinze minuto... –  E riu com gosto, antes de continuar: – E cum isso a igreja ganha dez mil conto, cinco d’ocê e cinco do coroné! Como o coroné é home que gosta de apostar, apostô que me dava oito mil contos se eu fizesse nevar e inda dexasse o povo de boca aberta, por mais de deiz minuto!, incluindo ocê, Zé da Marcira, que duvidava de mim.

O queixo do Zé da Marcira caiu e ficou por lá mesmo, no chão.

- Acertei com Seu Zé treis mil pra ele e cinco mil pra igreja, - disse o Coronel olhando com aprovação pra Seu Zé e puxando o Zé da Marcira pra sí, pelos ombros: - assim como ocê vai fazê, né cabrão? Ou num vai? – apertou inda mais o abraço, que agora mais parecia cobrança de pacto com o chifrudo. Zé da Marcira não dizia nada, tanto amarelo sorriu que roxo foi ficando.

Nisso, chamam do palanque o Seu Zé, Coronel Juvêncio e Zé da Marcira para as “honras” das doações à igreja. O padre ficou tão feliz que declarou usar os dez mil contos para melhorar a oficina de marcenaria e carpintaria da cidade, obra da igreja sob direção de Seu Zé.

- Ah, véi disgramado! – isso praguejava baixinho o Zé da Marcira, enquanto deixava a festa e corria pra casa, a pretexto de uma terrível enxaqueca. E a molecada cantando, só que agora para o Zé (da Marcira):

“Tem cabra que eu num sei
Que marvadeza é aquela
Na rua do panelero(*)
Na frente da casa do covero
Tão te isperano Zé... “

“Não fique de boca aberta Zé
Em cidade que for chegando!”

Pois é, muito mais coisas interessantes aconteceram nesse lugar especial, o Suvaco da Cobra. Aliás, duvido muito você conseguir imaginar como seria - de verdade! - o Suvaco, da Cobra. Cinco mil contos não tenho não, mas idéias é o que por enquanto não faltam... Valeu, Seu Zé das Idéias!

Trilha sonora: trechos de José (Siba) – Mestre Ambrósio.
(*) - parece-me que "paneleiro" é gíria usada em alguns interiores do nordeste para pessoas que nascem com hardware para um sexo e software para o outro... Parece que é assim! Só a título de esclarecimento, vice! Não vão (por favor) ver discriminação e preconceito onde não tem :-)

Um abraço fraterno.

Desafio proposto por:
Fabio Codonho - Vingança
http://www.recantodasletras.com.br/contosdesuspense/1586846

Réplicas dos colegas:

Maith – Um Planeta Evoluído
http://www.recantodasletras.com.br/infantil/1584704

Suzana Barbi
Neve Rubra
ou
Colocando Ordem na Desordem
http://www.recantodasletras.com.br/cronicas/1594005

Alex Ribeiro
Josadarck
Isak damasio

Michele CM - Uma receita para lá de fantástica
http://www.recantodasletras.com.br/contos/1590239

Flávio de Souza – Sangue e Gelo
http://www.recantodasletras.com.br/contosdeterror/1582545

Victor Meloni - Mainstream
http://www.recantodasletras.com.br/contosdeterror/1588176

Ian Morais











Helena Frenzel
Enviado por Helena Frenzel em 10/05/2009
Reeditado em 15/05/2009
Código do texto: T1585810
Classificação de conteúdo: seguro

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