Poodles Pop Rua

Poodles Pop Rua

Vivíamos no bem bom. Nossos donos eram médicos cirurgiões.

Andávamos de Mercedes Bens, frequentávamos teatros, cinemas e

shoppings centers. Boa educação, boa gastronomia, boa vida,vida boa.

Até que um dia nossos donos mudaram para a Europa. Pensávamos que

íamos com eles para a França. A casa grande foi vendida e nós fomos

jogados nas ruas pelos novos donos da casa.

Nós éramos cachorro de madame. Falávamos até francês. Nosso pelo era

branco e usávamos perfume. Agora fomos abandonados na rua. Era noite.

Dormimos nua praça. Eu e meu amigo. Meu nome é Herculano e meu

amigo o Monarca. Choramos muito. Esperávamos que alguém nos viesse

buscar. Nada. Até que a fome bateu. Depois encontramos outros cachorros

na rua. Eles riram muitos de nós. Por causa do jeito jeito de cachorro de

madame. Só que a gente era macho e valente. Era um Rottweiler,

Doberman e um vira lata preto. Eles nos ensinaram a viver nas ruas.

Muke: “ cara, para você pedir comida na rua tem de fazer cara de coitado.

Fala que está em situação de rua. Faz o grunhido canino da piedade. Pede

com jeitinho. Se não te derem negócio é roubar. Fica tranquilo nós vamos

te ensinar a roubar”

muita gente nos dava comida. Quando não dava a gente roubava nos

açougues e restaurantes.

Depois de semanas na rua nosso pelo ficou sujo e encardido. Aprendemos

o linguajar das ruas e guetos. Eramos cinco cães vacantes e vagabundos.

Os donos da rua. Aprendemos a beber e fumar nas ruas. O rap e hip hop.

Frequentemente íamos ao parque da cidade tomar banho no lago. O lago

era vigiado pelos patos. Havia muitos deles lá. O chefe deles o Psicopata.

Os patos não gostavam de cachorro. As vezes eramos cercados por patos

que nos bicavam de modo cruel. Quando a pataiada ia para o outro lado do

parque a gente ficava nadando e se refrescando no lago. Era muito bom

nadar no verão. Certa vez quando saiamos do lago fomos cercados por

centenas de patos que nos bicavam em um “corredor polonês”

O Psicopata era um patão grande e branco e bravo. Se achava dono do

lago. O lago era público.

Também fugíamos dos pastores alemães, os cachorros de policial. Eles

queriam prender nós cachorros de rua, malandros do asfalto. A vida nas

ruas não é fácil. A gente tem de se desviar dos automóveis, pessoas, pedir,

tem muito pombo nas ruas, ratos, outras aves, morcegos e mendigos

humanos.

O Monarca pensava que era um gato. Ele fora criado junto com gatos.

Passou a infância com esses carinhas. Ele fora criado na casa de Madame

Mimosa. Madame Mimosa tinha muitos gatos. Eu não curto gato. Nada

contra e nada a favor a gato. Mas o cachorro é o melhor amigo do homem.

O Monarca aprendeu a subir em muros e telhados com os gatos. Eles subia

nos apartamentos para roubar comida. A gente ficava em baixo esperando

ele voltar. Ficávamos torcendo por ele. Ele era rápido, como as gatos.

Tinha um apartamento na cidade que era vigiado por um grande gato preto.

Conhecido como Maldoso. Esse camaradinha era terrível. Ele vigiava dia e

noite, mais a noite porque os gatos dormem de dia. Tem hábitos noturnos.

Nós alertamos os Monarcas sobre os perigos do apartamento do Maldoso,

mas tinha muita comida lá. O dono do Maldoso era padeiro e confeiteiro.

Tinha muita comida mesmo. O gatos tem sete vidas. Cachorro é uma só.

Vida de cachorro não é fácil. Nas primeiras 35 vezes ele entrou e roubou

comida na casa do Maldoso sem problemas. O gato estava bravo.

Arrupiado. Espirrando raiva pela boca. Com a pata levantada. Foi no

centésimo assalto que a coisa aconteceu. Na varanda o gato preto pulou em

cima do Poodle Monarca mordeu e arranhou ele. Ele caiu lá de cima.

Morreu. “ socorro ! Ambulância! Cachorro machucado !” os veterinários

demoraram a chegar. Era tarde demais. Monarca partiu desta para a

melhor. Fiquei triste e depressivo. Não parava de chorar e a noite uivava, a

ponto dos mendigos de rua quererem me bater. Virei alcoólatra. Perdi um

grande amigo. Poodle de sangue azul. Nós os poodles morrer desses jeito

estávamos na corte do rei Luís XIV, todo rei absolutista tinha um poodle.

Gato assassino. Gato preto de Edgar Allan Poe. Prometemos vingança.

Acontece que gato tem sete vidas. Não havia como subirmos em um

prédio para pegar um gato. Somente Deus faz a justiça. E agora nossa

comida já era porque só o Monarca subia lá para nos trazer doces e

salgados.

Descobrimos um açougueiro bonzinho que dava restos de carne para

cachorros pop rua. Para quem não sabe pop não é de música pop. É de

população de rua. Em troca fazíamos a vigilância do estabelecimento

comercial. Fazíamos o trabalho de flanelinha, guarda carros e tráfico de

osso duro de roer. Até que um dia, de supetão chegaram os cachorro

policia. Corre vagabundo ! Corremos, infelizmente Rott e Dober foram

capturados. Levados pela carrocinha. Restávamos apenas eu e o vira latas.

O vira latas era o Zé Negão. Ele era um camarada legal. Malandro,

sambista, usava uma cartola na cabeça. Ficava em rodas de samba. Mulato

do Brasil. Caboclo brasileiro. Nunca fora pego. Nasceu, cresceu e viveu

sempre nas ruas. Nunca teve dono ou dona. Nunca teve lar. Depois de

muito tempo o Zé Negão adoeceu e morreu. Eu fiquei sozinho. Eu já

estava ficando velho e havia cinco anos nas ruas. Na porta de uma igreja,

sem muita esperança acabei sendo adotado por uma velha católica rica.

Minha vida voltou a ser muito boa. Eu tinha saudades das ruas. Não tinha

hora de dormir, de levantar, de comer. Éramos livres. Total liberdade. É

verdade que haviam perigos nas ruas. Havia a liberdade.

Música : “ cachorrinho está latindo lá no fundo do quintal, cala a boca

cachorrinho para meu amor passar”

Davy Almeida
Enviado por Davy Almeida em 20/03/2024
Código do texto: T8024103
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