Gravatá, o rei do bico

Gravatá, o rei do bico, foi uma dessas figuras inesquecíveis do cotidiano santa-cruzense. Com o seu violão, perambulava pela cidade fazendo parada onde houvesse pequenas aglomerações.

Não bebia, mas costumava frequentar e alegrar os diversos bares da cidade, onde, atendendo aos pedidos dos fregueses, cantava, assoviava e tocava o seu violão, sempre com versos e peripécias inusitadas. As pessoas aplaudiam e, como era de convir, lhes pagavam um sanduíche, um refrigerante, uma refeição.

Dizem que costumava fazer pequenos furtos para sobreviver. Vez por outra, saía pelo mundo afora em demoradas excursões a mostrar a sua arte.

Quando menos se esperava, cá estava Gravatá, brincalhão como sempre, a tocar alegremente o seu violão, a assoviar e a cantar as suas músicas de ocasião. E sempre ocorria o inesperado: ao concluir a música, tinha o hábito de, em tom jocoso, levantar o pé direito, segurar suavemente na orelha do interlocutor, e bradar o seu grito de guerra: Decá a orelha!!! “Seu Chagas Farias, me dá a orelha!!”. As pessoas riam com a sua desenvoltura, pois Gravatá era conhecido e querido por todos.

Em busca de fama e reconhecimento, esteve na sede da TV Globo, na Gávea, Rio de Janeiro (RJ), onde participou do programa do apresentador Abelardo Barbosa, o “Chacrinha”, cujo programa “A buzina do Chacrinha” era uma atração de repercussão nacional. Lá se apresentou com o nome artístico de “Jerônimo”, numa alusão ao personagem das revistas em quadrinhos, das novelas do rádio e da televisão: “Jerônimo, o herói do sertão”.

Sua apresentação foi um verdadeiro sucesso. Não era à toa que o chamavam de o rei do bico. Assoviou o dificílimo frevo vassourinha (de Joana B. Ramos e Matias da Rocha) com maestria e muita perícia.

Chacrinha olhava para Jerônimo, o rei do bico, com ar de quem o estava aprovando, e por isso Gravatá conseguiu terminar a sua apresentação sem ouvir o temido soar da buzina do velho guerreio.

Mas... Jerônimo concluiu a sua apresentação com o seu gesto característico: levantou o pé direito, segurou a orelha do velho guerreiro e exclamou: “Chacrinha! me dá a orelha!!!

Imediatamente, a buzina do Chacrinha se fez ecoar: Fon! Fon”

DJAHY LIMA
Enviado por DJAHY LIMA em 04/03/2018
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