REFLETIONS ON MY LIFE

Eu tenho muitas estórias para contar. Mas não aqui, não agora.

No momento pretendo mostrar uma imagem delas, ou melhor – Um esboço.

Elas estão em algum lugar, salvo nas memórias daqueles que compartilharam comigo, algumas no esquecimento e arquivadas no lado direito de minha cabeça e aguardando o momento de emergirem de um lago profundo de quase sete décadas. Às vezes algumas delas desafiam meus dedos e apontam em minhas mãos. É quase insustentável o desejo de acolhê-las como uma flor recém nascida, numa folha branca de papel.

A segunda feira de 25 de novembro passado foi um dia especial. Um dia bom para agradecer e para refletir. A reflexão é como fazer um back-up de minha alma. Olhar neste espelho é como brincar de anjo bom. Naquela manhã, senti-me um cara duplamente privilegiado. Primeiro por ter chegado até aqui (e só Deus sabe como) nesta vereda que chamamos de vida, com amor à vida.

Segundo, por ter conhecido e participar ativamente em três gerações: A geração dos meus pais, a minha própria e a geração do futuro – esta que vivencio atualmente. Percebo que o passado e o futuro estão conectados nas minhas reflexões e me sinto até feliz pelos momentos que compartilhei com movimentos culturais e políticos que produziram mudanças importantes na minha época.

Um dia me dei conta da geração dos meus pais – Os anos dourados – reflexos de uma República mal nascida, sob um predomínio religioso tirânico e opressor, e ainda, uma miscigenação desordenada. Ainda assim, uma Nação se identificou, e com os olhos voltados para a Europa e os Estados Unidos, o Brasil do pós guerra, dos anos 50, viveu uma história de evolução e muito romantismo. Vivemos um tempo de Esperança e relativa Paz. Eu era criança, mas compartilhava com os acontecimentos. Recordo-me com clareza esses momentos, esses lugares, a música norte-americana: (moonligth serenade) - que permanece na lembrança do tempo do Rádio. São fotografias em branco e preto.Mas, infelizmente guardo pouquíssimas recordações felizes da minha infância. Meus primeiros anos de vida foram improváveis e também um prenúncio de um futuro sem esperanças de felicidade, sombrio e sem amor. Fiquei órfão cedo demais, sequer conheci minha mãe. Logo meu pai faleceu e fui separado das pessoas que poderiam me amar. Fui criado ( e criado é a palavra adequada) e educado precariamente por familiares, que por sua própria natureza e formação defeituosa empenharam-se a me transferir uma disciplina rigorosa cuja moral é questionável, sob o ponto de vista humano apoiados pela religião Católica e pelo respeito às normas sociais da época. ISTO SERIA PERFEITO SE HOUVESSE AMOR. Mas não havia. Pelo contrário, o tratamento era grosseiro e quase sempre violento. Naqueles tempos, não havia razões para crianças e adolescentes. Os adultos sempre ditavam o certo e o errado, e os pais (pais?) e os responsáveis podiam castigar e humilhar impunemente. Agrediam física e psicologicamente. Isso em especial no meu caso, por ser um agregado e um estorvo, pois não era considerado como da família. Isto tudo é como levar um bolo ao forno sem adicionar o açúcar e o fermento...

Mais tarde, as conseqüências disto seriam devastadoras porque influenciariam profundamente na formação do meu caráter e da minha personalidade. Então, a Roda da Fortuna para mim, girou em sentido anti Álvaro e nunca mais parou.

Quando conheci a minha geração, (1960-1969) pessoalmente julgo que me tornei um rebelde contra tudo e quase contra todos. Acabei me condicionando ao Sistema, mas não me capacitando para enfrentar sozinho o enorme desafio da minha vida futura. Mas, diante da realidade-porque sempre fui um sonhador- me tornei um sobrevivente e um guerreiro. Foram tantas as dificuldades, muitos os caminhos e certamente teria sucumbido se não tivesse coragem e audácia suficientes para vencer meus medos, enfrentar meus demônios, poder andar no escuro e caminhar na chuva. Às vezes, me sentia perdido no meu mundo idealizado, oprimido pelas circunstâncias, humilhado por algumas pessoas que poderiam me compreender. Assim, realizei impossibilidades, atravessei paredes, rompi elos, subi montanhas inacessíveis, e desci ao fundo dos vales desconhecidos. Confesso que por uma ou duas vezes, estive muito perto de desistir (acabar com tudo), mas uma voz interior repetia: “Um guerreiro, às vezes ganha, às vezes perde. E quando perde pode chorar – então chore! Mas desistir nunca!

Para sobreviver, tive que trabalhar – claro – e a profissão que a vida me escolheu, não me permitiu terminar meus estudos. Nunca sentei num banco de uma Faculdade.

No início do Ano Solar de 1964, uma longa noite (que duraria vinte anos), se abateu sobre nossas vidas. Forças do mal atacaram às Instituições democráticas do Brasil e destruíram esperanças. Pessoas foram presas aos montes, torturadas, exiladas e assassinadas sob um pretexto não convincente. De certa forma, eu também fui atingido, indiretamente. Fui obrigado a deixar pra traz, meu lugar, meus amigos e meus sonhos. A minha juventude idealista, partiu-se ao meio. Quase sem perceber, acabei de alguma forma como um exilado. Todos receavam e ninguém estava totalmente imune ao governo cruel e fascista no poder. Felizmente, nunca gostei de política, mas o meu desejo era lutar contra a ditadura militar e entrar para a guerrilha. Enfim, não tive a mínima chance de me engajar neste movimento. A minha “transferência” de Recife para São Paulo foi dramática. Meu primeiro vôo aconteceu num avião buffalo da FAB junto com as cargas (Este avião era um cargueiro), sem nenhuma pressurização. Ainda hoje, meus ouvidos “agradecem” por aquela viagem.

Depois com o tempo, retomei a minha vida em Presidente Prudente e depois em São Paulo. Confesso que nunca fui “bonzinho”. Cometi deslizes, joguei fora oportunidades e certamente fui injusto com algumas pessoas. Por isso, fui castigado, mas merecia ser perdoado. Acho que não amei o suficiente – no sentido filosófico – mas, fiz muitos planos, alimentei sonhos, porque só pretendia ser FELIZ como todo mundo merece. Na verdade, nunca tive um lugar que pudesse chamar de lar. Convivi com pessoas que me acolheram, mas não conseguiram me amar. Tive poucos amigos, talvez pelo meu jeito de ser. Motivado pelas minhas carências, fui levado a confiar em pessoas que me traíram. Mas, não guardo rancores. Sempre obstinado por justiça, me envolvi em questões complicadas e sem respostas por que eu não conhecia os fundamentos da VERDADE. Hoje quando faço minha oração matinal digo: “Pai, perdoa minhas ofensas, porque eu estou perdoando àqueles que me ofenderam.”

Mais tranqüilo, hoje em dia convivo em Esperanças de um mundo melhor para todos. Encanto-me com o lado bom, desta geração do século XXI a Era de Aquarius plena de Liberdade.

Durante anos, de alegrias e lágrimas, esperanças e frustrações, desejos e paixões, encontros e despedidas, acabei fazendo uma revolução interior e uma nova leitura do Projeto Divino: Uma nova relação com DEUS. Aprendi que nascer é uma oportunidade, viver é preciso e morrer não é um fim. Morrer é recomeçar.

Ao longo desta jornada terrestre – até aqui – já percorri 69 voltas em redor do sol e vi-o levantar-se e deitar-se 25.186 vezes. Isto é muito bom! Viver é muito bom!

Álvaro Francisco Frazão.

Florianópolis, abril 2014.

Frazão
Enviado por Frazão em 14/04/2014
Código do texto: T4768801
Classificação de conteúdo: seguro
Copyright © 2014. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.