Por uma filosofia humana

David Hume dizia que os filósofos deveriam ater-se mais à filosofia fácil, sem desprezar a filosofia abstrusa. Entendia a necessidade da filosofia abstrusa, mas sabia que ela não tinha muita utilidade para as necessidades primeiras do homem. Os filósofos que tinham como característica fundamental a razão, no que refere-se ao entendimento humano; acreditavam que os filósofos deveriam preocupar-se com a filosofia difícil. Pois essa daria ao homem um entendimento profundo acerca de sua natureza. David Hume acreditava que isso era um equívoco, pois a filosofia abstrusa tem como característica fundamental o isolamento às necessidades e problemáticas imediatas humanas. Daí seu conselho aos filósofos: Sede um filósofo, mas, no meio de toda vossa filosofia, sede sempre um homem(1).

Esse conselho de Hume ultrapassa o seu tempo e invade todos os tempos, exigindo uma postura em cada homem e mulher que se decidem pela filosofia. Sim, o filósofo exige que todos aqueles que optam pela busca filosófica do entendimento do humano, antes de serem filósofos sejam homens. Melhor, durante a sua filosofia, enquanto estiveres construindo seu entendimento filosófico não esqueças que és homem e falas para homens, por isso vossa filosofia deve ser essencialmente humana e para o humano.

Creio que nessa pequena frase deixada por um grande mestre do empirismo do século XVIII, reside uma grande máxima da ética filosófica. Ética por que tem como centro principal o homem. Muitos poderiam contestar a opção pela filosofia fácil como mais útil e assim julgá-la precipitadamente como uma postura ética. Pois poderiam dizer que uma postura ética não está relacionada ao que é útil, mas a algo que é necessário. Concordo que a ética não tem relação somente com aquilo que é útil ao homem, mas como o fundamento da existência. Mas quando Hume diz que a filosofia fácil é mais útil que a filosofia abstrusa (profunda) – e a esta ele refere-se principalmente à metafísica – ele quer dizer que ela penetra mais na vida cotidiana, molda o coração e os afetos, e ao atingir os princípios que impulsionam os homens, reforma-lhes a conduta e aproxima-os mais do modelo de perfeição que ela descreve(2). Podemos pegar aqui vários exemplos de grandes filósofos que tiveram essa postura e tornaram-se mais relevantes em seu tempo e além de seu tempo do que aqueles outros filósofos, que na própria história da filosofia os coloca como menores, que preferiram entregar-se ao estudo de uma filosofia tão distante das necessidades humanas mais imediatas, que não deixaram de contribuir para o enriquecimento da filosofia em geral, mas não deixaram um legado maior no que diz respeito às problemáticas mais íntimas e cotidianas dos homens das diversas épocas.

Um bom exemplo foi Sócrates, não nos deixou nenhuma obra teórica que expressasse seus pensamentos e idéias, mas sua postura filosófica impeliu que outros testemunhassem sua filosofia. Sócrates tinha como preocupação primordial o homem. Então se envolveu com a sociedade, abordando as pessoas em praça pública. Dialogando, confrontando, ensinando, mas nunca esquecendo que era homem e falava para homens. Em toda a sua filosofia, Sócrates mantinha-se homem. Não estava preocupado com as discussões da sociedade dos deuses gregos, mas preocupado com o comportamento e entendimento humanos. Sócrates foi tão homem em sua filosofia que reconhecia sua fragilidade de entendimento, pois enquanto adquiria uma parte de entendimento percebia que perdia uma outra parte bem maior desse entendimento. E chega a uma tese pessimista: só sei que nada sei. E no século XIX, Nietzsche decidirá: De uma vez por todas, não quero saber muitas coisas. – A sabedoria também traz consigo os limites do conhecimento(3).

Dentre os vários exemplos de filósofos que optaram por uma filosofia mais próxima das necessidades humanas, podemos também citar Marx. Marx faz uma leitura reduzida da História, onde essa resume-se em lutas de classes, ou seja, a velha dualidade maniqueísta (bem/mal) que sempre foi de fácil aceitação pelos homens. E a partir dessa história fácil ele apresenta sua crítica à modernidade, tornando-se assim uma voz cúmplice das mazelas humanas. Essa postura marxista até hoje é fruto de várias mímesis por conta das esquerdas de todo o mundo. Cria-se uma história reducionista e dualista da realidade, para então depois apresentar uma filosofia que é fruto mesmo dessa história em particular e assim tudo faz sentido(4). Mas Marx, diferentemente de Sócrates, escreve bastante e deixa uma rica crítica ao capitalismo burguês. Ainda hoje persiste sua filosofia, porque ela não resumiu-se às questões abstratas e profundas; mas, ao contrário, ela estava intimamente ligada às necessidades de sua sociedade. Marx e Sócrates empregaram uma postura de ação, de envolvimento, de diálogo, de inquirição, de cumplicidade, de renúncias, de comprometimento ético, de decisão, de não se vender ao que é politicamente correto, de não deixar-se levar pelo que era a filosofia legítima de seus tempos, mas ultrapassaram-na e perpassam-nos pelas suas posturas. Quem legitima suas filosofias não são suas idéias e pensamentos, mas as suas respostas e soluções oferecidas à humanidade no caráter íntimo de suas necessidades.

Enfim, procuro ater-me a uma filosofia ligada diretamente às necessidades mais imediatas dos homens. Sem deixar de lado, como recomenda Hume, a filosofia abstrusa. Creio que o filósofo que se isola e distancia-se das problemáticas que envolvem sua sociedade torna-se um inútil. E para Aristóteles e tornaria-se um animal ou um deus, pois o homem é um ser social. E a condição de filósofo só é real na presença do outro, pois a filosofia é uma característica humana e o ser humano só é plenamente humano quando em relação a um outro humano. O movimento filosófico não é para dentro, mas para fora, para o outro. Começa em mim e acaba no outro. Essa é a postura ética humeana e a minha em particular, devemos tirar a filosofia das alturas e colocá-la na terra, em contato direto com as mazelas da existência.

Notas

1. HUME, David. Investigação acerca do entendimento humano. Tradução de Anoar Aiex. São Paulo: Nova Cultural, 1999, p.28.

2. Idem, p.26.

3. NIETZSCHE, Friedrich. Crepúsculo dos ídolos: ou como filosofar com o martelo. Tradução de Marco Antonio Casa Nova. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000, p.10.

4. Aconselho, para um melhor aprofundamento nessa problemática da fabricação de uma história reducionista marxista, a leitura do livro: O Jardim das Aflições: de Epicuro à ressurreição de César: Ensaio sobre o materialismo e a religião civil; do filósofo Olavo de Carvalho.

Rodiney da Silva
Enviado por Rodiney da Silva em 28/11/2006
Código do texto: T303584
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