A tradição oral e a cabala cristã

 

 

 

“Ide por todo o mundo, e pregai o evangelho a toda criatura” (Marc. 16:15).

 

“Quem vos ouve, a mim me ouve; e quem vos rejeita, a mim me rejeita; e quem a mim me rejeita, rejeita aquele que me enviou”. (Luc. 10:16)

 

“E todos ficaram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que falassem”. (Atos 2:16)

 

“Porque não quero, irmãos, que ignoreis este mistério (para que não presumais de vós mesmos): que o endurecimento veio em parte sobre Israel, até que a plenitude dos gentios haja entrado e assim todo o Israel será salvo, como está escrito: Virá de Sião o Libertador, e desviará de Jacó as impiedades e este será o meu pacto com eles, quando eu tirar os seus pecados” (Rom. 2:25)

 

 

 

Quando vemos sobre a existência da escrita, também percebemos que antes dela havia uma tradição oral. Isso se deu também com a Torá, a qual foi entregue a Moisés na forma escrita e também na Oral, ou Mitsvá, segundo Maimônides. Segundo Rabino Shamai Ende, em prefácio ao Talmud, “a Torá oral, consiste nas explicações, interpretações, indicações, leis, costumes e tradições extraídas da Torá escrita”. E “ao entregar a Torá oral a Moishê, D-s o ordenou que esta não poderia ser escrita”. Para tanto, ainda sevemos de outra tradição que apenas era estudada após os 40 anos de idade, que era a Kabalah, e que vemos depois escrita em Zohar, Bahir e Sepher Yetzirah. Tudo isso se alinha a Torá escrita, e a complementa.

Com Yeshua (Jesus), essa lição parece ter sido continuada em seus discípulos (Talmidin), de modo que resta ensinos que também eram dados de boca a boca. Houve a escrita desses ensinamentos e também uma tradição, chamada apostólica, bem como a sintonia entre cristãos alinhados com sábios judeus “convertidos”, os quais aprenderam a kabalah, bem como fundaram a chamada cabala cristã, tendo como expoentes Reuchlin e Pico Della Mirandola. Mas tudo isso proveio de judeus, mesmo estes aceitando o Yeshua como messias. Posteriormente continuou em tradições como o Martinismo, em místicos como Jacob Boehme e Saint Martin. Mas de início cristãos pregavam, e ensinavam apenas por palavras. Com a morte dos discípulos de Yeshua, restou que se necessitava de escrituras, surgindo o que temos por Novo Testamento. Isso tudo foi transmitido de geração em geração, e até mesmo a Torá escrita, teria sido antes resultado de 4 tradições, a Javídica, Eloísta, Deuteronômica e Sacerdotal.

Mas a Kabalah guarda um segredo ainda maior que o Talmud, e assim vemos relatando Pico, em suas “900 Teses”: “Para os kabbalistas, a coluna de rigor é a coluna da Letra, a Torah escrita, seca porém necessita erudição, ao passo que a Clemencia é a Torah Oral, a do mundo das experiências espirituais, da mística”. Deste modo, vemos a importância da tradição oral, que leva a essa mística, em sintonia com escolas como a chassídica, que engloba ensinos da cabala com a Torá, mas sem abandonar ou desrespeitar a Torá escrita. E a cabala cristã fez se encontrar a sabedoria de Yehshua de acordo com tradição mais espiritual e profunda. Segundo Pico, Yeshua teria deixado verdades de alcance reservado, e assim talvez não tenham sido escritas, e mesmo assim, estão naquelas parábolas e ensinos que necessitam de uma chave de interpretação. Ensinos assim de mente para mente, sem escrita, lembrando do que teria falado Orígenes. Também Swedenborg teria lembrado que: “Se só olharmos a letra, não poderemos ver de forma alguma que o Verbo do Antigo Testamento contém profundos arcanos do Céu”. Há a necessidade de um espírito para a letra.

Já falamos aqui também da tradição oral estar em grande parte naqueles escritos não aceitos no canon pela Igreja, e que chamamos de apócrifos. Mesmo esses escritos que possuímos presentes na Bíblia, teriam sido baseados em um texto base, referido como “Q” (Quelle, ou Fonte em alemão). Desta feita o que era uma tradição oral dos Talmidin (Apóstolos), se transformou em Novo Testamento. Tudo parece requerer uma espécie de iluminação, como atesta Jacob Böehme: “A pessoa de Cristo, assim como sua encarnação, não pode ser conhecida pela compreensão comum ou pela letra das Santas Escrituras, sem a Iluminação Divina”. Mesmo com deturbação do termo “cristo”, lendo-se mashiah, se poderia compreender que se trata de uma consciência messiânica. Saint Martin fala sobre Moisés, que ao subir a montanha e a proibição do povo nesse acesso, uma vez que requeriria uma preparação da alma, fazendo a analogia de um pequeno preparo para os pequenos combates, e um grande aos grandes combates. Assim vemos que essa tradição oral (um grande preparo) se transforma em escrita, e que complementa e afirma a escrita, não contrariando a Torá, mas desde o início compartilhando dela a Criação do mundo. Pois a voz vem do Sopro, e está escrito que assim ganhou vida Adão, bem como estava assim o Eterno sobre as águas, quando da Criação. E na Ética dos Pais, está escrito que D-us havia Criado as coisas por dez pronunciamentos, assim através da palavra. E João ainda se refere a Yeshua como a Palavra, ou o Verbo. Por tudo isso que há importância desse contexto de não se ver apenas no que está escrito o que vai de acordo com a Torá ou com a vontade de D-us.

 

 

Fontes

 

900 Teses – Pico Della Mirandola

 

A dignidade do Homem - Pico Della Mirandola

 

Arcana Coelestia – Emanuel Swedenborg

 

A Encarnação de Jesus Cristo – Jacob Böehme

 

Instruções aos Homens de Desejo – Saint Martin

 

Bíblia – e-book – Versão João Ferreira de Almeida

 

Talmud Bavli – Editora Lubavich