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O Grande Guerreiro e a Estrela do Pastor

"O Sol já desaparecera por detrás das palmeiras de Guariroba, acompanhado de um céu avermelhado com tons amarelados e ofuscantes. E o preto velho Djeli, ao se virar em direção ao jovem príncipe, viu por detrás dele, ao horizonte, a grande Estrela do Pastor levantada no imenso céu acinzentado do final de tarde. E o que mais chamou sua atenção foi o fato da Grande Estrela de todas as tardes e manhãs estar de um brilho tão intenso como nunca vira antes. Assim, Djeli teve a confirmação oracular de que verdadeiramente N’zambi era o filho daquela que mais brilha.
Djeli, com os seus olhos fixos na Grande Estrela, se aproximou lentamente do jovem, ficando ao seu lado, e disse:
— Repara na moringa que quebra se esvaziando das suas águas. No galho que cai e no barulho que faz, ao se romper da árvore frondosa. Na flor que murcha, e no baile do cair suave e silencioso de suas pétalas. No vento que arrasta a poeira no olhar de quem anda na estrada de barro. Nas folhas que rodopiam nos caminhos dos vilarejos, arrastadas pelo vácuo do cavaleiro veloz. No mato que cresce nas brechas das construções de pedras. Na topada que se leva ao caminhar distraído, e na dor aguda do bater do cotovelo. Nas orelhas amassadas das páginas dos livros e nas pingueiras do telhado da casa, quando cai a chuva forte. No simples broto que cresce no pedaço de pau que serviu como estaca. Veja, meu jovem! As coisas conversam falando conosco constantemente. Nos alertando, nos ensinando e nos confirmando toda a verdade do Sagrado e Eterno Contínuo, que se encontra agora oculto aos olhos inocentes. Pois as mensagens do Grande Espírito Criador vêm a nós na maneira e na forma mais simples e singela que podemos conceber e conhecer. Eis aí a importância de estar atento a tudo, e a todo movimento ao nosso redor, acima e abaixo. Devemos nos manter sempre alerta, com os olhos do espírito despertos, e a cabeça livre de julgamentos prévios. Para ver o que não se pode ver. Ouvir o que não se pode ouvir. Sentir o que não se pode sentir. E cheirar o que não se pode cheirar.
N’zambi, vendo que o velho griot lhe falara olhando para algo por detrás dele com tamanho espanto, virou-se e também olhou para Grande Estrela. E sentiu uma forte sensação de que já tinha visto aquela cena antes, e disse:
— Impressionante! Eu acho que já vivi esse momento antes.
E Djeli lhe disse:
— Sim, meu jovem. A vida no mundo é como uma história contada de traz para frente. Pois o Grande Espírito Criador de Todas as Coisas Existentes, Aquele Algo Poderoso e Vivificante que move em todos e em tudo, assim! Tudo já determinou. Se não fosse assim, não existiriam os videntes e as suas profecias. Afinal! O que é uma profecia senão uma história contada de traz para frente? — Questionou o velho griot, e continuou:
— É por isso que você já viveu isso antes.
O jovem, então, disse:
— Mas, como isso pode ser possível? Se surge um dia após o outro dia, e coisas novas em cada novo dia. E se somos nós que tomamos a decisão e as escolhas do que vamos fazer a cada hora e a cada momento.
E o velho griot disse:
— Aí está a maravilha, e aí está a ilusão. Pensamos que de tudo sabemos e de nada sabemos. Aquele que pensa que move algo está primeiro sendo movido por Algo. Há uma força maior que movimenta todas as coisas. Este é o segredo que revela a paciência. Aí está a sabedoria do leão, o bom caçador não corre atrás da caça, ele fica parado em um lugar camuflado pensando na caça, e só então a caça chega até ele. Se ele corre atrás da caça, a caça correrá dele. Aí está a sabedoria da aranha, que tece sua teia sem se preocupar com o inseto que lhe servirá de alimento. O inseto voa de encontro à teia sem se preocupar que vai servir de alimento. A teia é o atrativo dos propósitos. A aranhazinha, depois de tecer sua teia, apenas somente espera. Deve-se armar a teia e pacientemente esperar. Então, aquele Algo que dança em todos e em tudo fará com que mova na rede do invisível o perfeito movimento de todas as coisas. Você pode compreender isso, N’zambi?
E o jovem exclamou:
— Como você sabe quem eu sou?! Tenho quase um ano que cheguei aqui no K’ilombo. Sendo a primeira vez que saí da Cerca Real dos Macacos, e nunca te vi antes.
E Djeli lhe respondeu:
— Como eu não reconheceria o filho daquela que mais brilha?
N’zambi perguntou:
— Era assim que era chamada minha mãe aqui no K’ilombo?
E o preto velho disse:
— Não falo da sua mãe, a Princesa Sabina, falo dela. — Apontando com o seu M’bolumbumba para a estrela maior que havia no céu totalmente estrelado, e continuou:
— De tempos em tempos, no fim e no início de uma nova era, quando uma geração entra em caos, e o povo desta geração está em grande sofrimento e tamanha ignorância do Sagrado e Eterno Contínuo, surge um homem dotado de toda a força, o Grande Guerreiro que é o filho daquela que mais brilha. Este vem quando uma geração está para ter um fim, vem para renovação e início de uma nova geração. Pois, assim como há o nascer e o morrer de um dia, para dar vida há outro dia. Uma geração tem que morrer, para que surja uma nova geração. Assim são os ciclos de todas as coisas criadas, até que venha o grande fim deste mundo, para que possa surgir um outro mundo. Primeiro as coisas acontecem no pequeno e por último no grande. E você, meu jovem N’zambi, é um dos filhos daquela que mais brilha. Nesse mundo houve muitos filhos dela, e ainda haverá vários. Até que venha o último Filho que também foi o primeiro. Este último que também foi o primeiro será dotado de toda sabedoria. Um homem capaz de conhecer a existência. O descobridor dos mundos e conhecedor dos homens. Sendo o arquétipo da vida e do universo, chamado de o Grande Arcano, a Perfeição da Essência, denominado o Absoluto! Podendo ser compreendido como a maior Beleza de todas as belezas! O maior Amor de todos os amores! O mais Alto dos altos e o Ser Maravilhosamente Maravilhoso. A forma arquetípica perfeita, contida dentro do Todo e o Absoluto que constitui a Redenção Universal, e a humildade em pessoa. Este vem quando uma geração universal está por ter um fim. Vem para renovação e início de um novo mundo, uma nova era. A Este são dotados poderes especiais, e Este é capaz de fazer a coisa certa na hora certa, e age de conforme a verdade, e todo o universo e toda natureza gira ao seu favor. Suas palavras não são suas. Suas obras não são suas. Nada Ele realiza. Pois Ele é a própria existência e criação corporificados. Quando Este estiver por vir. Inúmeros como você, meu jovem N’zambi, surgem o procedendo, para lhe preparar o caminho. E novas ideias e verdades começam a despertar nos corações da humanidade. Trombetas para anunciar “Aquele que Veio, já É, e Vem”. Pois, quando Este for reconhecido e revelado, todos o conhecerão, e ninguém o poderá resistir. Pois será como uma chave que abre todas as portas. Este, quando for revelado, será vitorioso e conquistador, rei e senhor do mundo inteiro, e de todas as nações e povos. O último dos filhos daquela que mais brilha, porque de certa forma foi o primeiro. E estará à direita dos povos oprimidos, para salvá-los dos que julgam a sua alma, e, subjugará no meio daqueles que são as cabeças das terras populosas, despedaçando governantes e executando julgamento entre as nações no dia da sua força militar, em que o povo se oferecerá voluntariamente, tendo na sua companhia de homens e de mulheres jovens, assim, como as gotas do orvalho. Será o sacerdote do Grande Espírito Criador por tempo indefinido. Se manifestará de uma maneira e forma simples, nada de grandiosamente extraordinário aos olhos, num momento inesperado e não previsto, sem mais profecias, ou astros que o descrevam. Pois este mundo está com os seus dias contados! Não para destruição, e sim para renovação do espírito. Uns para vida de consciência eterna, e outros para uma segunda morte. A morte do espírito-alma, que é o fim eterno da vida existencial. E todos sentirão e reconhecerão o TODO-PODEROSO, a Grande e Poderosa e Atemorizante Energia PAI-MÃE-FILHOS, que permeia por toda partícula e por todo universo, e por toda natureza, e todas as estruturas cairão por terra. Em verdade digo, meu jovem, que Este já nos visitou como um cordeiro e ascendeu uma fogueira no mundo, que agora arde até o seu retorno como um leão. E Este é aquele que o povo da estrela do norte, que fica acima da nossa Terra-Mãe África, o espera. Mas, por agora, meu jovem, aquela Grande Estrela que mais brilha é sua. Você pertence à grande família das estrelas, e o Algo que movimenta em todas as coisas vive em você. E a esperança desse povo oprimido, nessas terras que os homens doentes do coração chamam de Novo Mundo, está em ti, meu jovem. Eis que agora é chegado o fim do ciclo e da era dos reis e rainhas sobre os domínios dos povos da nossa amada Ama Terra. Pois outro tipo de governo muito mais brutal o substituirá, disfarçado pelo direito à liberdade que todos terão de ser um governante. E o domínio dos egos reinará, encoberto pelo manto roto e sujo de uma ignorante democracia.
O preto velho Djeli, possuído pelo Espírito Revelador, depois de pronunciar essas palavras proféticas, encarou o jovem príncipe com firmeza nos olhos e disse:
— Vamos, meu jovem, já é tarde. Essa noite você passará em minha companhia. Creio que você deve estar cansado e com fome, da longa caminhada que trilhou até aqui. Vamos! Comamos e descansemos por hoje, pois você tem uma longa jornada pela frente, que já começou."

Resenha do Livro: O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRILHA - A incrível saga do Quilombo dos Palmares no Novo Mundo
Jp Santsil
Enviado por Jp Santsil em 01/06/2018
Código do texto: T6352211
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Jp Santsil
Ness Zyonna - Central District - Israel, 38 anos
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