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Cinquenta tons de preto ( Fifty Shades of Black - 2016) e a masculinidade negra

O filme foi lançado no ano de 2016, dirigido por Mark Tiddes, conta a história de Christian Black, um empresário negro bem sucedido, que tem fetiches sexuais que envolvem sadomasoquismo, dominação e tortura. Ele encontra uma jovem moça negra chamada Hannah, que se envolve com eles, e passam a viver situações que fazem sátiras diretas ao livro “Cinquenta tons de cinza” com a mesma temática, só que com um final diferente.

Neste filme, é interessante pensar primeiramente o lugar de fala, se em cinquenta tons de cinza a sexualidade é vivida por um casal branco, neste, o lugar de expressão é de pessoas negras, tornando o enredo uma excelente oportunidade de se pensar diversas questões relacionadas à subjetividade das pessoas negras, sua sexualidade, seus processos históricos, etc.

Vamos às personagens principais, começando por Christian Black, um homem negro, musculoso, que diante da sociedade alimenta a imagem estereotipada do machão, violento e dominador. Esse primeiro ponto nos remete ao próprio processo histórico que homens negros foram submetidos durante o processo de escravidão, onde aqueles que eram mais viris, eram vistos como melhores trabalhadores, sendo comparados a cavalos, além de suas genitais serem expostas como um tipo de show para as donas de escravos.

Ainda nesse sentido, o lugar do negro violento dominador, surge de um processo de construção de imagem distorcida fomentada por muito tempo pela ciência e pela filosofia, que entre outros absurdos, afirmava que negros eram mais propensos a violência, menos inteligentes, que suas peles não eram adaptáveis a determinados climas europeus, etc. Essas teorias ficaram conhecidas como teorias eugenistas, e tinham como finalidade manter a sociedade “limpa” da sujeira do negro, sociedade essa dominada economicamente por brancos aristocratas e escravagistas.

No que tange a ligar o negro a violência, outros fatores precisam ser levados em consideração, como os processos socioeconômicos que surgiram após a abolição da escravatura nos diversos países, no Brasil observamos a criação de favelas, que não tinham suporte social básico e acesso a condições de vida digna, surgindo o que se tornaria o que conhecemos como racismo estrutural, ou seja, a organização desigual do Estado que colocou os negros historicamente em uma situação mais vulnerável, seja economicamente ou sendo mais exposto a violência, sendo por exemplo a existência do crime organizado por vezes uma solução alternativa encontrada por pessoas que não tiveram acesso a camadas sociais elitizadas, ao ensino básico, condições de trabalho, moradia, etc.

Já nos estados unidos, vemos um decorrer histórico marcado pelo Apartheid, por movimentos como a Ku Klux Klan, em contrapartida a existência dos Panteras Negras como modo de resistir ao preconceito. Esses vários exemplos mostram como também na américa do norte, o racismo estrutural advindo da escravidão também provocou marcas profundas na maneira como a pessoa negra construiu sua subjetividade coletiva e individual, mostrando como ligar a violência ao negro, é no fundo, um reflexo de como ainda somos passados por uma ideia colonialista de pensamento.

Voltando ao personagem, outros aspectos chamam atenção, entre eles: o fato dele querer se passar por másculo, mas no decorrer do filme se mostrar uma pessoa sensível, com as genitais de tamanho menor que a média, de não conseguir expressar sentimentos, mesmo quando tenta ser violento, não tem forças físicas o suficiente, ter crescido em uma família rica de pais brancos e racistas.

No que se refere a sensibilidade e a inabilidade de demonstrar afetos, é interessante pontuar como a masculinidade negra passa por esse lugar do silenciamento, homens negros devido a serem estimulados a serem fortes, viris e violentos, são tolhidos de demonstrar afeto, sendo privados de aprender sobre si próprios e como lidar de maneira mais saudável com o mundo. Levando-se em conta que a aprendizagem emocional perpassa a cognitiva, a corporal e a social, quando uma pessoa é privada de explorar suas sensibilidade, ela sobre uma violência simbólica, onde não pode ter uma existência mais livre e consciente de si.

No contexto brasileiro, dados recentes do IBGE mostram que homens negros cometem mais suicídios que o resto da população, isso deve a diversos fatores, no quesito gênero, homens ainda tem mais acesso a armas de fogo, fazendo com que as tentativas de suicídio sejam fatais, e somado a isso temos a questão racial atrelada a subjetividade, levando os homens negros a sentirem culpa pelo sofrimento, como se não pudessem sofrer, confundido isso como sinônimo de fraqueza.  Esses dados mostram como ligar a masculinidade negra a violência e a força como únicas possibilidades de ser, podem ser extremamente prejudiciais, pois expõem gerações a um maior adoecimento emocional e envolvimento com o crime.

Outro ponto trazido pelo filme é o fato de ter um pênis pequeno, subvertendo a lógica estereotipada do negro bem dotado, muito alimentada pela indústria pornográfica e pela mídia em geral. Esse detalhe no filme, mostra como a subjetividade e características físicas do homem negro podem assumir diversas formas, sendo esses padrões idealizados como um reflexo de uma visão colonial, como já foi comentado.

Trazer a imagem de um homem negro musculoso, mas de pênis pequeno, nos traz a reflexão de como precisamos repensar esse lugar, pois cria-se no imaginário popular e na própria construção subjetiva do negro, a ideia de que ele necessariamente precisa ser uma máquina sexual, sempre pronto, sendo uma ideação que não leva em conta as diferenças individuais, e o fato de que a sexualidade envolve diversos fatores que a tornam complexa e bastante sutil.

Essa cobrança irreal sobre a potencia sexual do homem negro pode inclusive provocar casos de impotência sexual, pois ele acredita que deve ter um desempenho sexual fora do comum, não respeitando seu tempo e suas características, e por consequência, sentindo-se culpado por isso.

Por fim, um dos pontos que chamou atenção foi a criação que ele teve, vindo de uma família adotiva branca, conservadora, passou por um processo de embranquecimento, ou seja, em sua construção social, foi exposto ao ideal branco, não tendo conhecimento de sua ancestralidade, do modo como os padrões racistas afetaram sua subjetividade, fazendo com que ele crescesse naturalizando uma visão colonialista de mundo.

O embranquecimento pode ser compreendido como um processo no qual a pessoa negra cresce em um mundo construído e pensado para brancos, sendo os pensamentos, as instituições, as relações, pensadas no padrão eurocêntrico e caucasiano, não dando espaço para a construção de uma identidade racial, e consequentemente, maior consciência sobre o que afeta sua percepção de mundo, suas escolhas, medos, etc.

Devido ao filme ser do gênero humor, ele brinca com os padrões sociais ligados às pessoas negras, inclusive, abordando de maneira irônica o racismo recreativo, que é aquele que tenta naturalizar o preconceito através de piadas supostamente neutras. No trecho onde ele escolhe os chicotes com nomes de filmes que se remetem a escravidão, e não consegue infligir dor( simulando o lugar do branco colonizador) , mas ao trocar de papéis, sofre com as chicotadas, ridicularizando esse lugar do dono de escravo, que tinha sua força através de uma violência estatal, denunciando a fragilidade do branco colonizador.

Em suma, o filme aborda diversas outras questões, sendo essa análise apenas um breve olhar, no entanto, acredito que ele traz uma temática bastante atual e necessária, desconstruindo de maneira divertida vários conceitos de masculinidade negra e mostrando como a existência da pessoa negra vai além de visões racistas e estereotipadas.
Thales Coelho
Enviado por Thales Coelho em 23/11/2019
Reeditado em 29/12/2019
Código do texto: T6802219
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Thales Coelho
São Luís - Maranhão - Brasil, 28 anos
1362 textos (74515 leituras)
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