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Análise Psicológica: Coringa (Joker 2019) – O sorriso que chora

Uma das primeiras menções ao sorriso na história vem de papiros do século III, mais especificamente de um autor anônimo que disse:

 “Tendo rido Deus, nasceram os sete deuses que governam o mundo... Quando ele gargalhou, fez-se a luz... Ele gargalhou pela segunda vez: tudo era água. Na terceira gargalhada, apareceu Hermes; na quarta, a geração; na quinta, o destino; na sexta, o tempo. “ Depois, pouco antes do sétimo riso, Deus inspira profundamente, mas ele ri tanto que chora, e de suas lágrimas nasce a alma. (George Minois – História do Riso e do Escárnio)

Esse trecho nos apresenta a uma noção do sorriso como a origem de tudo, uma antropologia do ser, segundo a qual o sorriso seria a própria imanência de Deus na terra, e os homens, através do humor teriam a possibilidade de se ligar ao divino, sendo a alma a presença de um riso dicotômico, marcado pela tristeza.

 Já os filósofos existencialistas ateus, entre eles, Jean Paul Sartre e Martin Heidegger nos apontam como a condição humana é marcada pela angústia, tédio, solidão e o nada, sendo inescapável ao ser vez ou outra se perceber diante de si, de seus fantasmas, e por vezes, dar-se conta do desespero e da morte. Essa ambiguidade entre olhares mostra como a noção de homem é variável e passível de diversas origens, cabendo uma pluralidade de olhares para se compreender a condição humana. Partindo disso, sigamos.

Quem seria então o Coringa(Joker)? Começo esse texto trazendo uma breve descrição da personagem apresentada nesse filme, e interpretada brilhantemente pelo Joaquin Phoenix. Arthur Flexer, um homem suburbano de trinta e poucos anos, que sempre morou com a mãe, na infância passou por violência infligida pelo padrasto, viu sua mãe passar por instituições psiquiátricas, cresceu uma pessoa solitária, não desenvolvendo muitas habilidades sociais básicas, como por exemplo, lidar com as próprias emoções de maneira assertiva, manter contatos sociais, entre outros.

Talvez sua maior dificuldade se deu devido a um traumatismo que sofreu ainda na infância, provocando nele um distúrbio neurológico que o faz sorrir descontroladamente sempre que está sob pressão, denunciando um transtorno de ansiedade juntamente com uma depressão; ainda no campo da psicopatologia, no decorrer do filme ele apresenta também traços de comportamentos psicóticos, sofrendo fortes dissociações com a realidade.

Aliado a esse histórico de vida pessoal, temos uma assistência médica pública deficitária, que em certo momento do filme deixa de dar o mínimo de suporte necessário, deixando-o sem nenhum local de acolhimento. Em relação a esse aspecto, o filme nos apresenta um contexto de fortes desigualdades sociais, conflitos políticos, abandono do Estado em relação a população, lugares periféricos marcados por uma violência social grande, levando a várias situações durante o filme onde ele é espancado, roubado, etc.

Diante dessa apresentação quase semelhante a um prontuário médico, é preciso falar da maneira como ele se desenvolve durante o filme, sendo de início perceptível uma tentativa dele de se adequar as normas sociais, trabalhando como palhaço, fazendo terapia e cuidando da mãe adoecida, sendo que esses três contextos que davam o mínimo de suporte a ele para se sentir parte do sistema, vão pouco a pouco ruindo, primeiro com a assistência médica que para de dar o suporte, depois ele perde o emprego, e por fim, descobre segredos sobre sua mãe, que fazem com que ele perca a confiança com a única pessoa que o tratava no carinho, fazendo com que caia de vez em crises delirantes, que posteriormente irão se transformar em ataques violentos.

Se tratando da violência, temos outro grande ponto do filme, pois de maneira inteligente, ele nos traz como o próprio contexto era marcado por uma forte violência estrutural, ou seja, ligado a maneira como a sociedade se organizava de maneira desigual, mantendo e aprofundando desigualdades e culpabilizando camadas sociais periféricas, sem levar em consideração que essas desigualdades surgem da estrutura como um todo que concentrava poder na mão de alguns poderosos, simbolizados no filme como a família dos Wayne. Esse contexto de violência estrutural leva a outro aspecto importante, como a subjetividade, inserida em um ambiente patológico, que não dá o suporte básico social, acaba por sucumbir e se entregar ao desespero, sendo representado pela população revoltada, que em determinado momento do filme se uniu, queimando carros, roubando lojas, etc.

Esse ambiente desesperançado acaba se personificando na personagem do Arthur, que como protagonista, simboliza toda uma população cansada, que não vê mais esperança no futuro, desiludida com o sistema, sendo alvo de violência exercida pelo Estado, no entanto, é importante demarcar que como o próprio Arthur afirma depois, ele não pretende ser um político, ou seja, ele não defende causas sociais, justamente por não acreditar em mais nada, nem no governo e nem em revolução alguma.

 Essa fala se analisada pelo olhar da filosofia de Hannah Arent, carrega um peso grande, pois segundo a autora, o que caracteriza o ser humano é sua dimensão política, caso o homem se preocupe apenas com sua sobrevivência, como é o caso do filme, ele se tornará nada mais que um animal, e o que vemos no filme é justamente isso, um Arthur que gradativamente vai se despersonificando, e virando o Coringa, um personagem criado por ele, sem história, sem valores, sem sonhos, que abraça o caos e a anarquia, aquilo que Viktor Frankl chamaria de perda da vontade de sentido.

Ainda sobre a crescente desesperança que vai tomando conta de Arthur, é interessante pensar que ele passava por um adoecimento psíquico sério, tendo falas que sugeriam uma depressão grave, crises de ansiedade constantes, delírios que o tiravam da realidade, no entanto, em meio a tantos problemas, percebe-se que ele encontrava maneiras de se inserir no mundo, buscando algum afeto que não conseguia ter, seja através de sua arte, ou de seus delírios, como quando tem um relacionamento ficcional com a vizinha, etc.

Nesse ponto é interessante pensar que dentro da Psicologia, quando nos referimos a pessoas com transtornos mentais, devemos pensar que elas possuem uma realidade subjetiva, e que esta precisa ser encarada de maneira séria, pois mesmo na confusão mental, a pessoa fala coisas da sua vida, que com uma escuta profissional, podem ser acolhidas e gradativamente com o tratamento adequado, transformadas em comportamentos mais organizados.

Outro grande mérito do filme se refere a reflexão acerca de até onde começa a normalidade e até onde ela não se torna loucura, pois se formos analisar criticamente, o personagem do Arthur está inserido em um contexto onde dificilmente alguém teria uma saúde mental boa, isso se percebe no próprio comportamento coletivo, de pessoas descontroladas, desesperanças, mostrando como a psicopatologia para ser compreendida com totalidade, precisa ser vista também como um fenômeno social, e não apenas individual.

Nesse sentido fica a dúvida que provavelmente passou pela cabeça de quem assistiu o filme: “Será que no lugar dele, eu também não faria a mesma coisa?”, de maneira alguma essa pergunta quer incentivar a violência, ela foi feita no intuito de mostrar como esse tema é bastante complexo, e em situações específicas, como as da personagem principal, até a pessoa mais sã poderia se tornar o que ele se tornou, ou pior.

Voltando-me um pouco agora para os aspectos mais estéticos do filme, é de uma riqueza incrível a maneira como eles usaram a fotografia, mostrando momentos de tristeza simbolizados pelo azul, e momentos de euforia, com a cor amarela, principalmente quando ele começou a matar pessoas. Já em relação a atuação, um amigo cineasta me disse algo interessante, como ele usa o corpo através da dança para gradativamente mostrar-se cada vez mais, de início de maneira distorcida, esquelética e fechada em seu apartamento, para posteriormente, quando assume o papel de coringa, torna-se imponente, seguro, e a dança passa a ter um caráter de afirmação de si, mostrado por exemplo, na dança que ele faz quando é libertado pelos manifestantes, ou quando vai ao programa, mostrando uma postura segura, ereta, e bastante relaxada após falar que matou os empresários no trem e atirar no apresentador em rede nacional.

Vale uma ressalva sobre o tiro dado ao vivo na tv, simbolizando o rompimento com o último substrato de sua organização psiquica, a dimensão social, já que o apresentador significa pra ele o lugar do outro, do social, que o acolheria e iria lhe inserir em uma vida em comunidade, no entanto, ao se confrontar com a realidade, viu esse vínculo ser rompido, pois se tornou uma chacota, quebrando de vez qualquer ligação com o mundo.

 Ainda sobre a atuação, tem um aspecto que acredito ser o ponto chave do filme, o sorriso que ele dá durante todo o filme. Nos acostumamos a ver o coringa como um personagem icônico, sempre no estereótipo do vilão, mas sem muito aprofundamento, e seu riso de certa maneira sempre foi subestimado, servindo apenas como mais uma característica que o distinguia dos outros vilões de histórias em quadrinhos. No entanto, nesse filme eles trazem uma complexidade ao sorriso, que passa talvez a se tornar um dos personagens principais da história, mostrando de início ele como um reflexo de um distúrbio patológico, que causava grande sofrimento e dificuldades de interação social, causando muita angústia, pois seus sorrisos passavam um sofrimento profundo, e no decorrer do filme, esse mesmo sorriso vai se transformando, justamente quando ele abraça o absurdo e em uma reviravolta, passa a olhá-lo como sua maior potencialidade, repetindo aquilo que sua mãe dizia, de que ele nasceu para alegrar o mundo, e posteriormente afirmando que sua vida não era uma tragédia como sempre acreditou, sempre foi de fato uma grande piada.

Em suma, esse é um filme denso, que definitivamente não é para qualquer público, pessoas muito jovens dificilmente vão conseguir perceber as várias camadas que ele se propõe a debater, provocando talvez um equívoco ao acreditar que ele vangloria a violência, esse engano pode ser causado justamente pela ideia que construímos do coringa na história, como sendo um ídolo, ideia essa que é desconstruída no filme, mostrando apenas um homem comum, que chora, apanha, se revolta, guarda ressentimentos como todo mundo, e que transformou tudo isso em um grande comportamento confuso e disfuncional.

Além disso, é muito interessante como a narrativa dá lugar de voz para o coringa, mostrando um lado da história que nunca foi contado, pois nos habituamos a ver o batman como mocinho, que pertencendo a uma elite, desenvolveu a ideia de que alguém se torna um vilão por pura índole, no entanto, se esquece que ser bom e ser mau envolve bem mais que aspectos orgânicos e subjetivos, é preciso levar em conta questões econômicas, políticas, sociais, morais, éticas, etc.

Talvez pela primeira vez na história desses quadrinhos, vimos que os Wayne não são tão santos como fomos levados a crer, assim também como o Coringa não é um ser puramente mau que nasceu assim, pelo contrário, ele assim como o Bruce, cresceu em um ambiente violento, passou por traumas, no entanto, devido ao lugar social que ocupa, acabou por se tornar antagonista do Batman, em uma briga que vai além de revanchismo pessoal, simboliza uma desigualdade social.

 Tendo refletido sobre esses vários pontos que o filme suscita, e os tantos outros que podem ser levantados, retomo a citação do início do texto, o riso sempre foi um traço da sociedade que se organiza em crenças, normas, no entanto, essas crenças e normas sociais nem sempre são saudáveis, causando bastante sofrimento psíquico, exclusões, e tantas outras iniquidades que testemunhamos todos os dias, tornando o sorriso do coringa um simbolismo da condição humana naquilo que ela carrega de mais singular, o paradoxo entre a alegria e a tristeza, a ordem e o caos, a vida e a morte.

Nesse sentido, coringa é um filme que provavelmente vai gerar muitos debates, e como um profissional da saúde mental, acredito que ele seria um ótimo meio de trazer à tona essas várias reflexões, e quem sabe através destas, promover uma sociedade com mais saúde mental, com menos desigualdade, violência,  e principalmente, mais acolhimento, pois na realidade os “coringas” não se pintam de máscaras e saem matando, eles são nossos irmãos, vizinhos, tios, colegas, pessoas vulneráveis economicamente, socialmente, afetivamente, que se calam, e escondem seus sofrimentos em sorrisos que escondem dor e tantos outros silêncios.


Thales Coelho
Psicólogo
Graduando em Filosofia
Thales Coelho
Enviado por Thales Coelho em 17/10/2019
Reeditado em 23/10/2019
Código do texto: T6772268
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Thales Coelho
São Luís - Maranhão - Brasil, 28 anos
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