Construí um lar para minha mãe em outro plano?

[relato compartilhado no Canal Assombrado em 2022]

Esse relato não tem assombração, mas queria muito compartilhar com a comunidade, saber se alguém mais viveu algo parecido. Um dia, maratonando o Canal, vi que há casos parecidos com o que eu quero contar... por isso, me encorajei a escrever. Que seja Verdade que construí um lar para minha mãe!

Peço desculpas se o relato ficou longo – grande parte do que descrevi é para contextualizar por que eu não conseguia resolver de forma prática a situação que vivi em 2019. E, também, para justificar meus atos – ou inércia –, isso é, amenizar minha culpa...

O difícil ano de 2019

No início de 2019, me deparei com um problema que parecia sem solução.

Já há alguns anos eu me interessava por questões da metafísica, passei a me aprofundar, cada vez mais, em estudos da espiritualidade e também a fazer cursos de terapias holísticas, como Constelação Familiar, Reiki e, mais tarde, EFT. Esses estudos me ajudaram muito a me tornar uma pessoa melhor, embora ainda haja muito a conhecer e a melhorar em mim.

Tive uma infância e uma adolescência bem complicada. Meu pai era alcoólatra e minha mãe... Bem, é difícil descrever, mas ela tinha o que costumam chamar de “gênio difícil”. Hoje sei que ela era da forma que era porque teve uma infância e uma vida muito difícil e que ela me proporcionou tudo o que tinha de melhor.

Mas ainda em 2019, embora já tivesse feito algumas terapias breves, eu não tinha muita noção disso... A verdade é que eu nunca soube lidar com minha mãe, nunca soube relevar as coisas que ela dizia, não valorizava ou sequer percebia as coisas boas que ela procurava fazer por mim.

Antecedentes

Meu pai bebia todas as noites. Era um bom trabalhador, mas chegava do trabalho com a garrafa de pinga e se embebedava todas as noites, de segunda a sexta, e, nos finais de semana, depois do almoço. A bebida o transformava em outra pessoa, que nem gosto de lembrar. E quase todas as noites havia discussão e, muitas vezes, havia violência física entre meus pais.

Eu tinha uma irmã e um irmão mais velhos. Eles entravam na briga dos meus pais, tentando apartá-los. Eu também entrava, mas não sabia o que fazer; às vezes, ficava de longe rezando, implorando que Deus, santos ou anjos nos ajudassem a fazer aquilo acabar. Era comum a gente, os filhos, apanhar também. Com o tempo, ainda bem pequena, eu desisti... Eu era a que menos apanhava d aos meus pais, mas sofria muito com as agressões de meus irmãos, pois eles sim, apanhavam e eram ofendidos, e repassavam o sofriam em mim... Então, ainda pequena, fui desistindo de cada um deles...

“Desistir” significa que eu fui me desligando de cada um, como se houvesse uma chave me ligando a cada um emocionalmente e eu fosse desligando essa chave...

Meus irmãos também brigavam entre si. Eu era como uma bolinha de ping-pong, ora do lado de um, ora do lado do outro. Eu gostava muito da minha irmã; tudo que ela fazia, fazia com perfeição, e eu a admirava por isso. Mas também tinha um gênio forte: quando eu fazia alguma criancice, ou algo que ela considerava errado, ela ficava sem falar comigo – um dia, dois dias, uma semana, um mês... Até que um dia, quando eu tinha 12 anos, ela parou de falar comigo e nunca mais voltou a falar... Assim que completou 18 anos, ela saiu de casa e, desde aquele dia, nunca mais a vi.

Eu achava meu irmão bonito. Ele também se achava, e muito. Desde pequeno, com 6 anos, ele inventava trabalhos para ganhar dinheiro e comprar boas roupas. Ele era um empreendedor e eu o admirava por isso. Mas ele também era genioso e opressor: as coisas tinham de ser como ele queria. Se meu pai não estava em casa, ele acreditava que era ele quem “mandava” – era ele quem mandava, por exemplo, na altura do rádio, que ele gostava que ficasse no volume máximo, só para nos torturar. Mas o pior mesmo é que ele era muito agressivo. E, quando já éramos adultos, eu com 21 e ele com 23, houve um episódio que me fez nunca mais querer contato com ele.

Ao chegar da faculdade à noite, empolgada ainda com as aulas, me deparei com meu irmão discutindo violentamente com meus pais na cozinha. Fui para o quarto sem acreditar naquela situação tão oposta ao que estava sentindo, me perguntava, como de outras vezes, o que é que eu estava fazendo ali, naquele caos... Como podia conviver com duas realidades tão diferentes? Sentei na cama, arrumando os textos das aulas daquela noite; e, de lá da cozinha, por algum motivo, meu irmão resolveu me ofender e eu respondi que faltava pouco para eu chamar a polícia... E, sem que eu esperasse, ele veio até o quarto e disse: “Então vou tirar esse pouco!”, me dando um chute, que, por eu estar sentada na cama, pegou o meu rosto, que ficou ensanguentado. Ele foi covarde não só por dar um chute no rosto de uma pessoa desprevenida, mas porque pegou sua moto e fugiu ao ver que eu insistia com meus pais para irem comigo à delegacia dar queixa, achando que policiais viriam prendê-lo – só depois eu vim a saber que ele tinha “outros motivos” para temer a vinda de policiais em casa: ele roubava peças da empresa onde trabalhava. Enfim, era mau caráter em vários sentidos.

Esse episódio não trouxe nenhuma consequência grave para ele, a não ser a impossibilidade de passar em concursos públicos, pois eu realmente, com ajuda de guardinhas de bairro, fui à delegacia dar queixa e fazer um BO. Porém, o delegado apenas zombou da minha cara, dizendo que se eu quisesse alguma mudança eu teria de sair de casa e construir minha vida. Se para o infeliz do meu irmão o BO só trouxe a impossibilidade de passar em concurso público como ele desejava, para mim trouxe algo positivo: a faculdade na qual estudei oferecia moradia para estudantes necessitados ou em situação de risco. Juntei o BO à documentação e conversei com meu pai: uma assistente social viria em casa para atestar nosso baixo poder aquisitivo e a situação de violência que existia ali – ele teria “apenas” de confirmar. Isso foi muito difícil para ele, teve vergonha, orgulho ferido, mas eu o convenci mostrando minha carteirinha da faculdade, da qual ele tinha muito orgulho: “Se o senhor não me ajudar a sair daqui, eu não vou conseguir me formar, não vou conseguir sequer estudar... Vai ser sempre isso...” e mostrei o queixo ainda roxo. Assim, eu fui a segunda filha a sair de casa.

Desde essa época, nunca mais olhei na cara do meu irmão. E ele continuou morando com meus pais até se casar.

Fui construindo minha vida, aos trancos e barrancos, visitando esporadicamente meus pais. Eram visitas de algumas horas, porque eu não me sentia bem lá. Minha mãe preparava algo para comer, algo diferente do que costumava cozinhar, pois sou vegetariana desde criança, a única vegetariana da casa... Sabendo das minhas dificuldades financeiras, ela sempre preparava algo a mais para eu levar.

Hoje percebo que essas visitas eram bem estranhas, embora para mim fosse “o que dava para fazer”. Eu mal chegava e minha mãe sempre criticava algo em mim ou na minha aparência: que a roupa era feia, que estava apertada, que estava larga, que meu cabelo estava ridículo, que eu estava gorda, que eu estava magra... Ela sempre reclamava de tudo quando morava com eles, mas, de alguma forma, lá no fundo, eu esperava que algo mudasse... Ser recebida sempre com essas observações e não um “Oi, como cê tá? Cê tá bem?” me doíam.

Eu ficava um tempo com ela na cozinha, ouvindo-a falar. Às vezes, eu opinava e virava briga. Depois, eu ia para a sala, onde meu pai via tevê e mal trocávamos algumas palavras. Ele às vezes me perguntava sobre algo que eu estava estudando, ou satirizava alguma opinião que eu desse. Isso porque meus pais não ficavam no mesmo ambiente e sempre estavam discutindo, sobre qualquer assunto.

Sentia que não ia visitá-los por amor ou afeto, mas apenas por obrigação. Sabia que toda vez que fosse lá, ia ser esse suplício. Com os anos, passei a visitá-los cada vez menos, ia somente em datas comemorativas: Natal, Páscoa, Dia das Mães, Dia dos Pais, o aniversário de um e o aniversário do outro... Mas quase sempre eu voltava de lá chorando ou triste. Além da enxurrada de avaliações negativas a meu respeito e reclamações quando eu chegava, meus presentes eram sempre rechaçados. Eu costumava dar livros ou perfumes para meu pai, e ele apreciava como se fossem tesouros; mas minha mãe reclamava muito de qualquer coisa que eu lhe desse: se eu lhe dava um perfume, ela dizia “Tou fedida por acaso?”; se lhe dava flores, ela dizia: “Eu morri para receber flor de caixão?”; se lhe dava doces ou chocolates: “Quer me ver gorda e feia?”... Uma vez lhe dei um vestido que achei muito bonito, com um tecido de toque sedoso, preto com alguma flores em desenho neutro; aí veio: “Seu pai morreu para eu me vestir de viúva?”.

Talvez, para outra pessoa, isso não seja tão pesado. Mas para mim, passar a vida inteira ouvindo essas coisas era doloroso e frustrante.

Muitas vezes me perguntei porque eles escolheram viver aquela vida, se odiando tanto. Só muitos anos depois é que fui entender que esse convívio era um tipo de amor...

Viver na solidão é uma escolha?

Meu pai faleceu em 2015, aos 77 anos, o que pode ser entendido como uma vitória, pois dedicou grande parte de sua vida à bebida, ao cigarro e à má alimentação, maltratando seu corpo. Depois de sua morte, minha mãe definhou muito, deixou de ser aquela mulher forte e independente que sempre foi e se tornou uma idosa dependente, sem forças sequer para fazer compras de mercado, cuidar da casa, cuidar de suas roupas...

Eu continuava indo pouco à casa e não percebi essas e outras mudanças – foi uma vizinha dela, acho que a única pessoa que dedicava a ela carinho e atenção, que um dia me abordou e exigiu alguma atitude minha.

Meu irmão a visitava com frequência; administrava a pensão que ela recebia, as contas da casa; às vezes, fazia compras e a levava ao médico. Tudo isso, segundo alguns vizinhos, tratando-a com sua peculiar agressividade e estupidez.

E foi nesse época, final de 2018 e início de 2019, que me vi nessa situação que me parecia sem solução: minha mãe, com 72 anos, não tinha mais condições de morar sozinha – estava perdendo a memória, confundia informações, confundia notas de dinheiro, não conseguindo fazer comprar no mercadinho; não tinha forças para limpar a casa; quebrava coisas de vidro, podendo pisar nos cacos e se machucar; esquecia pratos com restos de comida em lugares estranhos pela casa, onde ficavam por semanas até que alguém que a visitava sentia o cheiro e se desfazia daquilo...

Uma das coisas que descobri que mais me chocaram era que minha mãe às vezes defecava nas roupas por causa dos remédios que meu irmão dava a ela e, como não tinha mais senso e força para lavar essas roupas, as jogava com outras peças dentro da máquina de lavar e lavava tudo junto!...

Tudo isso me contou a vizinha que se tornou sua amiga e, por sorte ou coincidência, trabalhava como cuidadora de idosos... Só essa moça tinha paciência com minha mãe, pois, agora idosa, ela era ainda mais difícil de lidar...

O que eu poderia fazer? Era fato que minha mãe não podia mais viver sozinha... Um filho “normal” a levaria para sua casa... Eu não era essa filha – já imaginando que minha vida voltaria a ser um inferno. Ainda assim, pensava na possibilidade: teria de adaptar o espaço para ela, transformar a sala em quarto, adaptar o banheiro, adaptar o piso... E seria preciso uma cuidadora, alguém com paciência para ouvir seus gritos, suas reclamações e xingamentos com tolerância... E eu não tinha dinheiro para nada isso... Além disso, ela não queria sair daquela casa, tinha suas plantas, gatos e cachorros.

Entre novembro e dezembro de 2018, passei a pagar a uma moça para ir à casa da minha mãe 3 vezes por semana para limpá-la. Era muito humilde e aceitou fazer o trabalho por um valor bem baixo. Minha ideia, na verdade, era que essa moça tentasse lhe fazer companhia, fazendo refeições com ela, assistisse televisão com ela e procurasse evitar que minha mãe fizesse alguma bobagem, como deixar comidas apodrecendo pela casa ou misturasse as roupas imundas com outras... Mas minha mãe reclamava de tudo o que essa moça fazia, perseguindo-a pela casa, dizendo que não sabia fazer nada direito, e não a deixava limpar...

Certa vez, cheguei na casa para pagar a moça e minha mãe estava ajoelhada diante da geladeira, limpando uma prateleira, reclamando que “ninguém deveria se meter nas coisas dela”, enquanto a moça me olhava com expressão de desespero. Encontrei um dos quartos trancado a chave e, quando o abri, havia nele uma caixa de papelão sobre a cama, com alguns produtos, como bolachas e maionese, que eu tinha comprado para as duas, minha mãe e a moça: minha mãe trancou a caixa em um dos quartos para a moça não “roubar”! Até que um dia, ela expulsou a moça de casa, xingando-a aos berros, com os palavrões mais baixos, como me contaram os vizinhos...

Eu fiquei muito p. com tudo isso! Antes disso, eu estava indo a sua casa 1 vez por semana, para pagar a moça, levar alguma coisa que estivessem precisando. Mas esse episódio foi demais para mim. Ninguém merecia passar pelo que essa moça passou! E o valor que eu pagava a ela, embora fosse bem baixo, era um valor que me fazia falta. Eu fiquei com tanta raiva da minha mãe, que não conseguia nem pensar em olhar para ela e parei de visitá-la naquele primeiro semestre de 2019. Sei que, nas condições em que ela estava, era uma coisa errada a se fazer, mas eu não consegui fazer outra coisa...

Continuei, contudo, pensando em uma solução. Não conseguia ir vê-la, mas me preocupava com ela, e sabia que duas vizinhas a visitavam e a auxiliam no que podiam. A única que me vinha à mente era juntar esforços com meu irmão e pagar por uma casa de repouso, onde profissionais minimamente preparados poderiam cuidar dela. Mas como tratar disso com ele, depois de tantos anos sem nos falarmos? Quando meu pai faleceu, acabaram me passando o número de telefone dele. Então, graças ao whatsApp, pude trocar algumas mensagens com ele sem precisar olhar em sua cara. E foi assim que comentei sobre a ideia da casa de repouso, que poderíamos pesquisar um lugar bom, adequado, onde nossa mãe fosse bem tratada. Ao mesmo tempo, ir preparando-a para essa nova realidade: ela sair de sua casa, não ter mais suas plantas e seus cães e gatos. Acreditei mesmo que nossa conversa por mensagens tinha sido civilizada e que, mesmo que não nos déssemos bem, deveríamos nos unir para proporcionar uma vida digna para nossa mãe.

Porém, alguns dias depois, uma vizinha me ligou dizendo que minha mãe estava transtornada, chorando: meu irmão tinha “proibido” ela de sair de casa, mas ela saiu e, quando ele a viu na rua, foi logo gritando com ela, dizendo que eu planejava “jogá-la” em um asilo e que “se ela não o obedecesse”, ele ia deixar eu fazer isso! Isso: o idiota, além de distorcer, o que eu estava tentando combinar com ele, foi agressivo e repulsivo, deixando-a apavorada!

É terrível, eu sei, mas eu tinha vontade mesmo de esquecer que eles existiam... Eu não via uma solução...

Quando entra o “sobrenatural”

Eu não sei se podemos chamar o que aconteceu de sobrenatural. Alguns, talvez, digam que foi apenas uma “coincidência”... Como disse no início, eu sempre me interessei por temas que ultrapassam o comum, o tradicional. Por isso, pelo que já estudei e li sobre metafísica, não acredito mais em “coincidências”...

Sempre reclamei muito da vida, das coisas ao redor, repetindo, sem perceber, o comportamento de minha mãe. Tive problemas de relacionamentos – no trabalho, nas amizades, no amor... Procurei ajuda; porém nunca fui fã de terapias tradicionais, pois me pareciam – e ainda me parecem – “limitadas”. Fiz terapias holísticas e, como mencionei antes, estudei Constelação Familiar, Reiki, EFT e vários outros temas que observam o ser humano de uma forma mais ampla.

Naquele ano, 2019, eu estava apenas começando a me aprofundar. Já estava vendo meus pais de forma diferente, com mais respeito, reconhecendo que, apesar de eu ter tido uma infância e adolescência de muito sofrimento, meus pais me deram o melhor do que podiam dar. E, com certeza, me deram muito mais do que receberam de seus pais.

E agora eu me via nesse impasse: sabia que tinha de ajudar minha mãe e não sabia como. Pior: uma parte de mim, muito escondida, queria dar proteção e afeto a ela e outra parte a repudiava, não queria estar perto dela...

O que mais passava pela minha cabeça é que, se eu tivesse muito dinheiro, todo o problema estaria resolvido: eu não a abandonaria em um asilo, eu pagaria para ela estar em um excelente lugar, onde pessoas cuidariam de sua saúde, de sua alimentação, de seus cabelos; pintariam suas unhas, como ela gostava, de vermelho... E ela teria sempre companhia e até novas amizades. Faria exercício em piscina, teria aulas de dança de salão, assistiria a shows... Eu sonhava com isso!

Nessa época, eu assisti a vários vídeos que ensinavam técnicas de materializar desejos. Boa parte deles reportava às técnicas ensinadas por Neville Goddard. Uma delas era bem simples, porém um pouco difícil de executar, porque é preciso estar tranquilo, com a mente tranquila para realizar. Estando tranquilo, você deveria se concentrar no seu desejo e imaginar que ele já se realizou, imaginar-se dentro de uma cena, como em um filme, detalhando essa cena, procurando sentir os elementos que há nela, tocando coisas, sentindo cheiros, ouvindo sons... Para facilitar, os horários recomendados para realizar a prática é de manhã, assim que acordarmos, e à noite, quando formos nos deitar, momentos em que nosso corpo está mais tranquilo e nossa mente, mais aberta. Por meio dessa prática de criar filmes, você se conecta com seu desejo, atraindo-o para sua vida e, assim, ele se realiza.

Essa me pareceu uma saída.

Então, era junho de 2019 e decidi usar essa técnica para tentar alcançar alguma solução. No primeiro dia, me imaginei chegando em uma grande propriedade, que era minha, dirigindo meu carro, tirava os sapatos e sentia a grama sob meus pés. Senti a grama fofa e úmida sob meus pés. Sentei na entrada da casa, senti o sol da manhã e o vento, e, como se estivesse dirigindo um filme, ou montando uma maquete, coloquei minha mãe tomando sol também nesse cenário, sentada em uma cadeira de balanço, com uma cuidadora em pé, vestida de branco, a seu lado.

No dia seguinte, imaginei a mesma propriedade, e quis que fosse cinco horas da tarde e, com o dedo, “puxei o Sol” para o outro lado do horizonte e “tonalizei o céu” para o pôr do sol. Me encontrei com a cuidadora ao lado de minha mãe e ela me contava, alegre, que minha mãe havia plantado flores em um canteiro. Fui com minha mãe até esse canteiro e ela me mostrava, orgulhosa, as flores coloridas que havia ali. Comecei a entender que, como o “filme” era meu, eu podia fazer o que quisesse; então, minha mãe poderia estar saudável e feliz. Assim, continuei a desenvolver essa técnica a cada dia, fui gostando cada vez mais de “construir” as cenas! E estava parecendo cada vez mais fácil!

Certa vez, ainda naquele mês de junho, escolhi a noite para esse cenário, acrescentei um lindo gazebo de madeira no gramado e coloquei minha mãe apreciando a noite sentada em uma confortável poltrona que havia nele. Pensei que ela gostaria de companhia e coloquei um simpático senhor conversando com ela. Me vi no deck ou varanda da casa com meu marido e, como a noite estava muito gostosa, coloquei um rapaz tocando violão...

Então, nessa mesma cena, coloquei outros senhores e senhoras, todos com cerca de 60 anos – inclusive minha mãe –, todos alegres, com roupas brancas, bonitas e confortáveis. Todos conversavam animadamente, se divertindo. Coloquei a cuidadora se divertindo com eles – ela era apenas uma assessora ali, pois todos era cheios de saúde. Dentro da cena, olhei para meu marido e pensei que aquilo estava se tornando uma pequena festa, então precisava de comida, e coloquei duas pessoas servindo variadas comidas e bebidas saudáveis. Em dado momento, “meu eu” dentro da cena disse a meu marido “cinematográfico”: “Isso está indo longe demais, já estamos gastando demais com essa festinha.” E ele respondeu, sorrindo: “Pára com isso! Está todo mundo se divertindo! Além do mais, nós somos ricos!”. E rimos. E, depois, quando contei a cena desse dia a meu marido “real”, rimos de novo, pois eu provavelmente faria essa observação e ele com certeza me responderia da mesma forma!

Criar esses filmes mentais, ao acordar e antes de dormir, foi se tornando divertido, sempre imaginando esse encontro no quintal da propriedade, em vários horários, acrescentando novos detalhes. E minha mãe, a cada cena, estava cada vez melhor, cada dia mais forte, mais jovem, independente e feliz. Em pouco tempo, me peguei criando filmes enquanto fazia outras coisas, como lavar louça, tomar banho, dentro de ônibus...

Em um certo dia, pedi a meu marido que comprasse um lanche e o levasse para minha mãe e me peguei com uma sensação estranha quando ele me explicou o trajeto que faria, pois o imaginei indo à propriedade que eu estava criando, e não à casa onde ela morava – como se ela já morasse naquele local imaginário!

Alguns dias depois, no último final de semana daquele junho, participei de uma grande imersão, da qual participaram cerca de 2 mil pessoas, com palestras e várias meditações guiadas. A última meditação guiada, que aconteceu no final da tarde domingo, 30 de junho de 2019, o som era altíssimo, com muitas telas e imagens sendo projetadas nelas – um clima que me fez entrar em uma espécie de transe –, enquanto o facilitador pedia para imaginarmos estar em uma festa de Réveillon. Acredito que a intenção era fazer com que nós, os participantes, sentissem que, a partir daquele dia, iniciaríamos uma nova vida... Porém, eu não me lembro do que ele dizia enquanto conduzia aquela meditação: em transe, eu me transportei para o mesmo cenário que estava criando nas últimas semanas – me vi ao lado de minha mãe e de meu marido e nós assistíamos aos fogos de Ano Novo no quintal da minha nova casa, que ficava próxima ao litoral. Minha mãe estava tremendamente feliz, sorria, impressionada como toda a exuberância dos fogos, apontou para os fogos e, olhando para mim, disse: “Olha que lindo!”.

Abri os olhos e vi que todas as telas da imersão mostravam fogos como os de Ano Novo, e chorei de alegria, porque eu nunca tinha visto até então minha mãe elogiar algo, nem nunca a vi tão feliz e sorrindo. Aquela cena eu praticamente não criei – ela se formou sozinha, criou vida!

Voltei para casa feliz, com a sensação de que tudo aquilo estava chegando também à minha mãe, de fato. Sabe quando você pensa em alguém e pouco tempo depois você recebe uma ligação dessa pessoa? Deve existir uma conexão entre as pessoas para isso acontecer. Foi mais ou menos o que eu senti: eu havia pensado tanto em minha mãe naqueles dias, cada dia melhor, mais saudável, mais feliz, até ter aquele ápice – eu sentia uma certeza de que essa sensação de felicidade estava chegando nela também!

Algumas horas depois, quando já estava deitada para dormir, recebi uma mensagem do meu irmão informando que nossa mãe tinha sido hospitalizada e de que eu deveria fazer o acompanhamento. Fui. Ela sentia muitas dores, mas os médicos deram alta, sem encontrar nada de anormal. Eu e meu marido a levamos para sua casa e, na tarde do dia seguinte, dia 1º de julho de 2019, ela faleceu.

Sim, foi um choque tremendo, um desfecho inesperado e eu demorei meses para me recuperar. Nos primeiros dias, não tinha vontade de falar, de comer, de levantar da cama, me sentia em completa inanição.

Contei todos os principais detalhes porque creio que sejam importantes para expor minha dúvida: Seria coincidência minha mãe partir desse mundo um dia depois de eu vê-la em um ápice de alegria e bem-estar? É possível eu ter interferido na vida de minha mãe, eu ter interferido na vida miserável que ela levava? Seria possível eu ter criado esse lugar feliz em outra dimensão e minha mãe ter ido para lá – respeitando seu livre-arbítrio -, estar feliz e se reabilitando como imaginei?

Já se passaram alguns anos e eu ainda não tenho uma resposta, mas talvez um dia tenha. Enquanto isso, eu guardo comigo a imagem de minha mãe apontando o céu e dizendo, feliz como uma criança: “Olha, que lindo!”.

Sal Maciel
Enviado por Sal Maciel em 28/06/2022
Código do texto: T7548109
Classificação de conteúdo: seguro
Copyright © 2022. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.