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Limites da prática e da ética em cenários hipotéticos de eugenia aplicada

Será que a possibilidade da prática de eugenia é sempre tão ruim??


Primeiro cenário: "humanismo" ou disgenia??


A perpetuação do debate sobre se é o meio ou a biologia que mais influencia a inteligência humana é sem sentido, porque, falando francamente, é possível perceber que apresenta uma forte carga intrínseca ou se você quiser usar esse termo, genética. Por exemplo, pelos padrões de comportamento que encontramos nos outros e em nós mesmos, também observáveis pelas semelhanças médias de personalidade e de capacidade cognitiva dentro das famílias biológicas. O que importa agora é saber o quão determinante é a biologia. Mas não nesse texto porque aqui eu só quis te introduzir para esse fato e te mostrar que não basta uma "educação de qualidade" para todos e esperar igualdade de resultados, a partir do momento que apresentamos diferenças intrínsecas de potencial ou de desenvolvimento intelectual. As mesmas regras sociais também não funcionam para todos se apresentamos diferenças de personalidade.

Agora, imagine que, com esse conhecimento fixado em sua mente, você percebe que, em média, os casais heterossexuais com maior escolaridade estão tendo poucos filhos, enquanto que os que têm apenas o ensino fundamental completo estão procriando muito mais. Qual é a única conclusão que você poderia chegar??

De que essa população está "emburrecendo".

Baixa capacidade cognitiva, apesar de não ser exatamente uma sentença de morte, se correlaciona com uma série de comportamentos de risco, principalmente com: maior impulsividade para cometer crimes, se viciar ou simplesmente agir com imprudência; maior incidência de transtornos mentais; sem falar que, em termos sociais e econômicos, ainda mais em uma sociedade de capitalismo tardio, como a nossa, aqueles com menor capacidade, em sua maioria, também acaba trabalhando nas profissões menos valorizadas, aumentando significativamente o risco de acabarem na pobreza relativa ou absoluta.

Eu poderia, grosseiramente falando, concluir que, nesta população estão nascendo mais futuros "pedreiros" do que futuros "engenheiros" (e, perdão por isso, mas acho mais eficaz falar deste jeito).

E se eu lhe disser que isso está realmente acontecendo, e no Brasil??

Sim, maior o nível de escolaridade por aqui, menor a taxa de fecundidade e o exato oposto para o menor nível. Não é à toa que a "igreja" evangélica tenha crescido tanto nos últimos anos... parece até que é um projeto de longo prazo de estupidificação em larga escala do povo brasileiro, fazendo com o que o mais irracional e o menos inteligente se multipliquem tal como "ervas daninhas"...

Se a eugenia não fosse tão demonizada, especialmente por intelectuais progressistas, não pareceria tão tóxico sugerir que, famílias cuja maioria dos seus componentes têm baixa capacidade cognitiva, deveriam evitar ter muitos filhos, inclusive para não acabarem extrapolando a regra malthusiana em que o número de bocas para alimentar supera a capacidade de alimentá-las. Eu já comentei que a eugenia pode ser e tem sido usada para o mal, especialmente porque tem sido sequestrada pela extrema direita. Mas, que também pode ser usada para o bem, se sua prática for justa e cuidadosa.

Mesmo em uma sociedade mais socialmente justa, um desequilíbrio na proporção de famílias ou de indivíduos com baixa capacidade cognitiva acabaria criando uma grande população de dependentes crônicos do Estado, não necessariamente ou apenas pela menor inteligência, mas, também, por causa dos comportamentos de risco associados tal como uma maior tendência para agir por impulso, resultando, por exemplo, em ter filhos antes de lhes ter garantido qualquer segurança financeira. Eu penso que, se as classes média e alta têm contido suas taxas de fecundidade desde há umas quatro décadas atrás, justamente pensando nesses gastos, então, as famílias mais pobres também deveriam ser ajudadas a se planejarem, até porque a maioria da população não mais vive no campo, nem a mortalidade infantil é tão alta, tal como era no início do século XX, sem falar da crescente mecanização do trabalho que acaba reduzindo e muito a oferta de emprego para esse grupo. Eu sei que, a maneira como tem acontecido, definitivamente não tem sido a mais correta, mas, se estamos falando de capitalismo...

Portanto, se havia mesmo a necessidade de se ter muitos filhos, no passado, ainda menos agora, especialmente para os da classe trabalhadora.

É bom senso pensar que precisamos de mais pessoas com boa capacidade para resolver e não para causar mais problemas. Portanto, promover o planejamento para famílias, geralmente mais pobres, com médias baixas de capacidade cognitiva, e incentivar aqueles com as maiores capacidades a ter mais filhos, não me parece, a priori, o fim do mundo.
 
Ainda sobre pessoas que causam mais problemas ao invés de resolvê-los, existe um tipo de personalidade que está mais associado a esse risco e que se consiste no segundo cenário que estou propondo, inclusive como complemento ao primeiro, continuando a mostrar que a eugenia não é o mesmo que nazismo.

E, novamente, parece que eu preciso estar sempre "ensinando" aos "aprendizes de iluministas" que, liberdade não é o mesmo que irresponsabilidade e que algumas ou muitas vezes precisaremos de ajuda alheia, mesmo se não solicitada, especialmente se for para melhorar nossas vidas ou aumentar nosso bem estar.

Segundo cenário: e se a personalidade anti-social também for variavelmente hereditária ou predominantemente determinada pela biologia??

Tudo parece crer que sim, que pessoas de má índole não são apenas ou unicamente produtos do seu meio porque "já nascem" com predisposições comportamentais para agir de maneira frequentemente egoísta, inescrupulosa e/ou cruel.

Mas o quão hereditárias seriam??

Um casal heterossexual de psicopatas têm quantas chances de produzir filhos igualmente psicopatas??

Segundo ponto, como definir, através de ações específicas, o nível de sociopatia??
 
Continuar a comer "carne" sem ter o mínimo de peso na consciência, mesmo depois de saber como acontece o processo macabro de produção industrial, poderia ser considerado uma expressão contextualizada e, a priori, isolada de sociopatia??

Ser ganancioso, materialista, sempre querendo acumular mais dinheiro e nunca ser generoso poderia ser considerado uma expressão mais generalizada de sociopatia??

Votar em partidos políticos (dica: geralmente conservadores) que pregam preconceitos, alienação/crenças religiosas (ou destruição do meio ambiente) e exploração/capitalismo, mesmo sabendo das consequências geralmente nefastas acaso forem/quando são eleitos??

Etc...

Terceiro ponto, a partir do momento em que estabelecermos os limites mais recônditos da expressão de sociopatia, devemos buscar saber qual é a verdadeira proporção demográfica dessas pessoas ... que também poderia chamar de "anti sociais".. que, talvez, varie de acordo com a população analisada: classe social, raça, cidade, região ou país, etc... Por exemplo, parece que tem mais sujeitos anti-sociais entre evangélicos pentecostais, no Brasil, do que entre ateus (não estou querendo dizer que todo evangélico pentecostal é anti-social ou que todo ateu é um "santo"... cuidado para não fazer a interpretação correta, hein?!).
 
Pois se buscarmos pela abordagem abrangente proposta no segundo ponto, creio que a proporção de sociopatas, dos menos (geralmente de narcisistas ou tipos que são frequentemente indiferentes à ocorrência de injustiças) aos mais perigosos (psicopatas), será bem alta, talvez em torno ou acima de 30% de uma população típica??

Quarto ponto, o que pensar em fazer a partir disso??

O que eu costumo defender: identificação precoce desses sujeitos, progressivo cerceamento de suas liberdades individuais, que variará de acordo com o nível de sociopatia apresentado, proibindo-os de exercer posições de poder ou de influência, promovendo a esterilização (se a personalidade anti-social apresenta carga hereditária) e, especialmente em relação aos mais perigosos, isolamento absoluto da sociedade (levados para instituições especificamente designadas para recebê-los), com possível castração química dos mais rebeldes ou incontroláveis. E olha que eu estou falando do tratamento mais "humano" que poderíamos dar a eles a partir de um cenário de conscientização social, tanto sobre a verdade da influência, biológica ou genética, predominante nos nossos comportamentos quanto sobre o grande mal que direta e indiretamente causam...

Ah, mas não se preocupe, principalmente você, amiguinho progressista, porque acho muito difícil que este texto será lido, um dia, por gente importante, realmente racional e que suas observações sejam aplicadas de maneira sistemática. De qualquer modo, a função do filósofo, além de dizer obviedades que muitas vezes nem todos querem ouvir, também é a de propor resoluções ideais, igualmente impopulares. Portanto, pode ficar sossegado porque se não acontecer um milagre, o Brasil, pelo menos, já é um país condenado.

Terceiro cenário: Transmitir sua doença hereditária ao seu filho ou não? Eis a questão...

Se você descobre que tem uma doença hereditária e grave ou se passa a apresentar sintomas psiquiátricos que também indicam uma doença ou desordem que causa grande sofrimento, especialmente se não tratada, então, você têm em suas mãos a possibilidade de decidir se vai arriscar ter um filho que pode se tornar, por exemplo, esquizofrênico no início da vida adulta, ou ainda pior, que pode estar condenado à devastação programada de uma doença de Huntington, geralmente a partir dos trinta, quarenta anos. No entanto, não parecem ser poucos os portadores dessas condições que se deixam levar pelo desejo egoísta de serem pais biológicos do que de não arriscar o bem estar dos seus hipotéticos filhos se nem pensam como viável a prática de adoção...

Aqui, a eugenia também não parece tão ruim assim...

Quarto cenário: nível de sofrimento individual e ao outro como um dos principais critérios em uma possível prática sistemática de eugenia


Eu já comentei em outro texto que, esse debate binário e simplista sobre o que é saudável e o que é doentio precisa ser melhorado, já que parece existir um espectro mais amplo e que não é toda condição que cairá em um dos dois rótulos podendo ficar mais para o "meio". Esse debate é fundamental para uma prática ética de eugenia. Aqui, eu vou usar quatro exemplos para analisá-lo e propor observações: "homossexualidade", síndrome de down, esquizofrenia e doença de Huntington.

Segundo esse mesmo debate predominante, um grupo afirma que todas essas condições são doenças.

Outro grupo exclui a homossexualidade.

Já, um terceiro grupo, também exclui a síndrome de down.

Mas, qual deles que estaria mais certo??

Eu acho que nenhum, justamente por pensarem de maneira binária para abordar o assunto.

Em relação à homossexualidade, não dá pra dizer que seja igual à heterossexualidade, mas também não dá pra dizer que seja doença e nem desordem, que seria uma expressão mais branda de uma condição de desequilíbrio e, portanto, variavelmente mórbida. Porque se a homossexualidade não tem características suficientes para se equivaler à heterossexualidade e nem para cair numa categoria de desordem, acaba em uma zona cinza entre comportamentos considerados perfeitamente "normais" e comportamentos, estados ou condições considerados variavelmente mórbidos, sendo, novamente, a desordem como a sua expressão mais leve, de desequilíbrio. Também temos que pensar no nível de sofrimento intrínseco que a condição pode causar ao seu portador e, também, aos demais. Nesse aspecto de análise, o nível de sofrimento intrínseco da homossexualidade é baixo, mesmo que esteja positivamente correlacionada com comportamentos de risco e com hostilidade irracional, especialmente de tipos mais irracionais. Porque nascer gay a priori não causa nenhum sintoma específico à condição que debilita a saúde ou o bem estar de maneira causal. Portanto, em uma situação em que fosse possível detectar sinais da homossexualidade em fetos não haveria razão lógica ou racional para abortá-los. Seria o mesmo se fosse detectado que o feto nascerá estrábico, com olhos castanhos ou mais baixo do que a estatura dos pais.

Porque o que também diferenciaria uma prática ética de uma prática não-ética de eugenia seria se os progenitores deliberadamente escolhessem por si mesmos como gostariam que fossem os seus filhos, usando critérios subjetivos.

Os comportamentos de risco que muitos homossexuais, especialmente os do sexo masculino, se sujeitam, e que contribui para aumentar os seus níveis de sofrimento, parecem estar relacionados com uma combinação de fatores desfavoráveis: grande estresse provocado pela discriminação ainda muito enraizada; hegemonia de uma ideologia hedonista que parece pregar como regra a irresponsabilidade, confundida com liberdade, associada à prática sexual promíscua, enfim, praticamente uma cultura feral sem o mínimo de regras básicas de comportamento sexual que possam estabelecer ou inculcar limites à maioria dos componentes que pertencem ao grupo; predisposição comportamental para se enveredar em comportamentos de risco e, também, para a sensibilidade emocional. Enfim, pode-se concluir que os fatores extrínsecos parecem ser mais influentes do que os intrínsecos para a carga de sofrimento de se nascer LGBT. Caberia, portanto, a sociedade evoluir em seu tratamento aos outros que muito do sofrimento indiretamente causado por essa condição desapareceria. Partindo do pressuposto que, a carga de estresse a que são acometidos pode ser comparada até a um trauma.

Em relação à síndrome de down, mesmo que seja uma desordem, inclusive a nível fenotípico, por alterar as características faciais e físicas do seu portador, não pode ser considerada uma doença, porque apresenta, em média, um alto nível de estabilidade sintomática (ou é aquilo que eu percebo). Claro que apresenta comorbidades intrinsecamente associadas e por isso que é categórico denominá-la como uma desordem. De qualquer maneira, em relação ao nível de sofrimento intrínseco que causa ao portador e aos demais, principalmente ao portador, não parece ser alto. Em termos de capacidade do portador da síndrome de down de cometer atos de crueldade, também parece ser bem baixa, bem abaixo da média humana. É verdade que existem casais que não conseguem superar ter um filho ou uma filha com down, mas a partir da promoção positiva da diversidade, tem havido uma maior aceitação por muitas famílias. Infelizmente, graças à prática lamentável daquilo que tenho chamado de "eugenia de mercado", milhares de abortos de fetos com down têm sido administrados a partir do momento que essa informação ou possibilidade foi disponibilizada. Essa situação nos mostra que, enquanto a eugenia continuar nas mãos de idiotas morais, continuará a ser sinônimo de coisa ruim.

Em relação à esquizofrenia, uma desordem,  quase uma doença psiquiátrica, altamente incapacitante e com elevada herdabilidade, causa sofrimento intrínseco tanto ao seu portador quanto aos seus familiares e amigos, sem falar que, em alguns casos não tratados, o indivíduo "esquizofrênico" pode agir com violência. Não haveria razão de sujeitar um futuro ser humano ao risco de padecer desse sofrimento. Foi o que falei no terceiro cenário.O caso da doença de Huntington é ainda mais óbvio, tanto por ser uma doença devastadora quanto por apresentar um padrão mendeliano de hereditariedade.

Ainda em relação ao critério do sofrimento, novamente volto à personalidade anti social para mostrar que, sim, sua expressão tem causado grande sofrimento, não apenas aos seres humanos e, portanto, entra na categoria de condições objetivamente indesejáveis a partir de uma proposta de abordagem racional sobre a eugenia. Na verdade, uma das mais indesejáveis. Afinal de contas, mantê-los seria o mesmo que cultivar aqueles que mais causam problemas até mais do que os "tolos".

Personalidade melancólica??

Eis aí uma provável e significativa exceção em termos de sofrimento individual e compartilhado, como critério básico para uma possível prática eugênica e ética, porque, vezes, a questão principal não é apenas a probabilidade de nascer com uma predisposição para se tornar mais melancólico mas que também esteja causalmente relacionada à de se tornar mais realista, em um sentido filosófico, de conseguir amadurecer a ponto de enfrentar de frente as verdades mais duras, que são as existenciais, do que se deixar ser engolfado pelas próprias opiniões subjetivas: desejos, ânsias ou expectativas, corrompendo a sua capacidade de perceber e interpretar objetivamente a realidade, resultando, por exemplo, no abraço acrítico à crenças religiosas. Porque melancolia e racionalidade costumam ser complementares.

Se como o resultado de um aprofundamento filosófico e não "apenas" como tendência intrínseca, que se expressa sem ter uma razão anterior, a melancolia (existencial) é fundamental para a espécie humana, por nos situar na realidade das verdades mais importantes, que são as existenciais ou absolutas, enfim, de servir como um farol que sempre aponta para a sanidade ou lucidez máxima que o exercimento da verdadeira filosofia requer.
Thiago Fávero
Enviado por Thiago Fávero em 10/06/2021
Reeditado em 10/06/2021
Código do texto: T7275922
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Thiago Fávero
Bicas - Minas Gerais - Brasil, 32 anos
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Thiago Fávero