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O problema do antipunitivismo e Caverna do Dragão

Continuação dos meus pensamentos sobre o antipunitivismo por meio de uma analogia com um desenho muito especial.

Com alerta de spoiler para quem nunca viu.

Tem um episódio do maravilhoso desenho Caverna do Dragão em que os discípulos do Mestre dos magos percebem aquilo que era evidente, desde que caíram naquele mundo... que o principal empecilho que os impede de voltar para casa é o próprio Vingador, seu arqui inimigo, e que, portanto, apenas eliminando-o para conseguirem regressar.

Para acabar com o mal é preciso eliminá-lo.

Concluíram.

O mundo em que estão presos seria uma espécie de limbo. O lugar de onde vieram seria a idealização de um mundo melhor, mais seguro e feliz. O Vingador seria o maior e mais óbvio obstáculo para a concretização da utopia desses jovens.

Mas, e o enigmático Mestre dos magos?? Que papel teria??

Se os criadores da estória do Caverna do Dragão não tinham nenhuma intenção filosófica implícita, de qualquer maneira, parece evidente que dá para fazer esse tipo de associação com facilidade. Aqui, talvez, um pouco diferente da proposta de reflexão deles...

Bem, voltando ao episódio.

Aquela turma de amigos perdidos finalmente faz o raciocínio que precisava fazer para, ao menos, parar de lutar incessantemente e vislumbrar uma maneira objetiva de conseguir voltar para casa. Mas, esse desenho é tão fabuloso que, em detalhes, nos deixa desconfiados sobre um dos personagens centrais da trama, o Mestre do magos. Porque, quando ele aparece, como sempre, do nada, para dar conselhos sobre o próximo desafio, eles o interrompem, com grosseria, por já estarem cansados de tudo isso e porque já sabem o que devem fazer para voltar para ao seu mundo, derrotar o Vingador, no sentido literal, de matá-lo. Sem falar que, na última batalha, o malvado ainda conseguiu ferir gravemente a unicórnio Uni, aumentando o ódio da turma. Ao liquidá-lo, o maior obstáculo terá sido eliminado, porque não poderá mais sabotar as tentativas de regresso dos jovens à sua terra de rodas gigantes e cachorros-quentes. No entanto, o mestre "sábio" tem uma ideia melhor e que não se consiste em matar o Vingador, claro. Porque ele apela com o argumento de que, se o fizessem, se igualariam a ele em sua maldade...

Mas, será mesmo que eliminar o mal é o mesmo que se igualar ao mal??

Então, no momento em que eles conseguem derrotar o Vingador, deixando-o preso e, portanto, vulnerável para o ''abate'', as "sábias" palavras do Mestre dos magos ressoam e convencem o nórdico arqueiro, Hank,  a repensar o que pretendia fazer, ferir o odioso bem no peito. Resultado: ele é libertado e, como era esperado, promete que não descansará enquanto não acabar com esses jovens. Dito e feito: nos próximos episódios, o Vingador e o seu exército de orcs continuarão com a ladainha de sempre...

Aqui, estou desprezando o último capítulo do desenho em que é revelado a verdadeira relação do Mestre dos magos com o Vingador, de pai e filho, e, por isso que o Mestre nunca quis matá-lo...

Antipunitivismo

Não bastasse a luta homérica daqueles que pregam pela justiça social ou existencial, que se consiste em tentar combater o domínio político, cultural e econômico dos mais inescrupulosos nas sociedades humanas, também temos que lidar com uma mentalidade tóxica, predominante entre nós mesmos, que enfraquece a nossa capacidade de compreender com precisão a magnitude dos nossos problemas, a ideologia do antipunitivismo. Pois esse episódio do Caverna do Dragão parece ser uma representação artística perfeita da nossa situação, em que percebemos que estamos vivendo em um limbo, por estarmos sob o domínio de tipos iguais ao Vingador, e que, então, algo deve ser feito para mudar essa realidade. Só que, aí, aparecem os antipunitivistas (representados pelo Mestre dos magos) com esse papo de "altruísmo patológico", de que não podemos agir com reciprocidade com quem comete crimes hediondos, a partir de critérios morais objetivos, basicamente opressão e exploração (corrupção política, por exemplo), porque seria o mesmo que nos igualar em absoluto com o mal...

Pois se não podemos agir com reciprocidade com parasitas e predadores humanos, como é que conseguiremos vencê-los???

Os antipunitivistas têm a solução: acabar com a aplicação de punições severas porque não "ensinam" ou regeneram o criminoso (não sei se isso é realmente possível, especialmente com os piores tipos); com o próprio sistema prisional e com as desigualdades sociais, porque, desse jeito, não haverão mais razões "lógicas" para roubar, matar, estuprar (???).

Mas, será que, literalmente falando, todo ser humano nasce bonzinho e é a sociedade que nos corrompe???

Como de costume, temos mais um caso de confusão entre correlação e causalidade, em que se acredita que o meio tem uma influência absoluta sobre o comportamento dos seres humanos ou que nascemos como "folhas em branco".

Um meio ruim gera indivíduos ruins.
Pensam.

No entanto, a existência de indivíduos sem escrúpulos que foram criados em berço de ouro ou em lares com pais amorosos, e daqueles que vivem na miséria ou que cresceram em lares abusivos, mas demonstram resiliência moral quanto à tentação de praticar atos que seriam supostamente justificáveis, por causa da situação em que se encontram ou que já vivenciaram, nos mostram que essas crenças não comungam plenamente com a realidade. Por isso que, não basta apenas "dar uma lição" a tipos com o Vingador, sem puni-los com o rigor que merecem, especialmente a partir do momento em que passam a praticar atos indiscutíveis de crueldade, porque eles nunca aprenderão essa lição tão importante, de que a maldade é uma alienação absoluta à hiperrealidade ou à perspectiva filosófica, que é a mais realista que podemos ter sobre vida e existência.

O antipunitivismo ainda parece ser totalmente baseado na ideia de que existe o livre arbítrio, isto é, de que (quase) todos os seres humanos estão plenamente dotados de racionalidade, mas, são forçados pelas circunstâncias a terem que agir de certas maneiras, diga-se, irracionais.  No entanto, podemos perceber que existem diferenças não-superficiais entre nós quanto às nossas capacidades de discernimento moral e/ou racional. Portanto, se não somos igualmente capazes de desenvolver o caráter, aprendendo o que é objetivamente certo e errado, então, não há mais razão para nos basearmos em ideologias que pregam o oposto, não importa o quão bem intencionadas forem.

Se, ideal e integralmente falando, não existe livre arbítrio; se talvez a grande maioria das pessoas mais egoístas, assim como também as mais altruístas, não são capazes de controlarem suas naturezas, em oposição às mais reflexivas e, portanto, autocríticas, então, esse conhecimento deveria ser sistematicamente integrado ao "senso comum", se é "bom senso" ter a verdade, e não a ilusão, como substância elementar de qualquer cultura.

Não tem jeito...

A maneira mais ideal, que também parece ser a única, de se conseguir abolir, total ou significativamente, a necessidade lógica da prática das punições mais severas, seria a partir da detecção precoce [desde a infância] de indivíduos de má índole; restrição de suas liberdades (por exemplo, proibição da adoção de animais) e, dependendo de fatores tais como a precocidade, a frequência e/ou a gravidade dos seus atos de crueldade, posterior internação ou isolamento do meio social, seguido por esterilização e possível castração, também dependendo do nível de impulsividade ou de periculosidade dos mesmos. Desta maneira, a necessidade das práticas remediativas mais severas, tal como a pena de morte, seria significativamente reduzida em prol e por causa de medidas preventivas, porque, novamente, potenciais "criminosos" seriam identificados, isolados do convívio com os outros e impossibilitados de cometerem atos de crueldade, pior ainda se tiverem fácil acesso a posições de proeminência ou poder.

Isso também salvaria muitas vidas inocentes, humanas e não-humanas.

(Apenas imaginem se Adolf Hitler tivesse sido assassinado ou ao menos preso e isolado do convívio social, bem antes de tomar o poder na Alemanha??)

De qualquer maneira, graças ao domínio praticamente absoluto de ideologias que pregam alienação, opressão e injustiças como verdades intransponíveis, como o capitalismo e as mitologias, especialmente as monoteístas, o desafio de conseguirmos, algum dia, sair desse limbo que mais se parece com o do desenho Caverna do Dragão, tem sido bem mais árduo.

Como conclusão, em um mundo sem mágicas, dragões e feitiços, "Vingadores" raramente "aprendem a lição" e já passou da hora de nós, que tanto prezamos pela justiça, aprendermos a nossa também.
Thiago Fávero
Enviado por Thiago Fávero em 01/05/2021
Código do texto: T7245634
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Thiago Fávero
Bicas - Minas Gerais - Brasil, 32 anos
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Thiago Fávero