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O machismo nosso de cada dia


Querer ser livre é também querer livre os outros.
Simone de Beauvoir

Ontem um amigo me procurou porque gostaria de se inteirar sobre a história do feminismo. Quem me conhece mesmo que superficialmente, sabe que o feminismo é uma pauta que realmente me importo, então, não seria muita novidade alguém me procurar por conta de materiais sobre esse assunto; não fosse esse o caso de um amigo, que foi se tornando amigo, aos trancos e barrancos. Explico: em 2016 mudei de universidade, quando cheguei à nova turma eles já haviam cursado um semestre, ou seja, já estavam enturmados, eu era a estranha no ninho. E, na primeira oportunidade eu pude mostrar o quanto eu era mesmo estranha e, quanto estranhamento eu poderia causar.
A principio, fui devidamente acolhida e adicionada ao grupo de whatsapp da sala. Logo me chegou uma postagem da qual não pude me furtar de me posicionar. Meu posicionamento, entretanto, soou muito antipático e rude (coisa que uma mulher deve evitar ser (cuidado! contém ironia)). A postagem, com tom cômico, mostrava um frango morto sendo estuprado. Isso levantou uma enorme polêmica entre quem se ofendeu e quem achava a postagem algo inocente e considerava a resistência ao vídeo algo exagerado, coisa de feminazi.
O tempo foi passando e a antipatia aumentou reciprocamente, ao ponto de sentir muita, mas muita raiva mesmo de alguns colegas de sala. E, como é natural, quem quer se defender às vezes, ataca. Foi o que eu fiz por bastante tempo. Mesmo que a minha ideia fosse a militância em prol do feminismo, haviam muitas questões pessoais que não era possível desvencilhar uma coisa de outra, e, como não poderia deixar de ser, isso acabava me afetando e afetando meus adversários.
Muitos debates acalorados e muitas discussões depois, numa situação bem específica com um professor, eu e esse colega de repudio recíproco, nos posicionamos contra um professor. Nesse momento, penso, eu consegui, pela primeira vez depois de tempos, ver o ser humano por trás de toda questão conceitual que eu tanto queria enfatizar e fazer valer com aquela pessoa que, mesmo sem saber, com falas e atitudes, personificava o machismo que convivemos todos os dias.
 Com o passar dos dias notei que a situação teve o mesmo efeito sobre ele também. Nossa relação foi mudando, passou de raivosa para respeitosa.
Mais tempo passou, e, numa apresentação de trabalho dele, para minha grande surpresa, o tema escolhido por ele foi o feminismo. Não bastasse essa, maior surpresa ainda, foi que ao final da apresentação, ele trouxe um poema e pediu, sem aviso prévio, que eu declamasse. Por vários motivos foi para mim um momento tocante. Como se uma bandeira definitiva de paz tivesse sido hasteada. Na verdade, penso que assim foi entendido por todos ali, que em meio a brincadeiras comentaram a inusitada situação. Desde então nosso convívio passou a ser muito diferente, a forma das conversas mudaram, a forma de entendimento das necessidades e demandas de cada um também. A compreensão de que uma pessoa é constituída e formada por várias experiências desde que nasce, e que por outro lado, ninguém é estanque, ninguém é predeterminado ou predefinido, consequentemente estamos todos em constante desconstrução e reconstrução de valores e pensamentos. Ou, ao menos deveríamos estar.
Essa história que narrei aqui é uma tentativa de ilustrar como o machismo é algo tão estrutural, tão arraigado, que muita gente ainda hoje não se dá conta quando tem uma fala ou atitude machista. Obviamente, o machismo afeta diretamente e de forma descomunal todas as mulheres, mas não só. Se queremos ter uma condição igualitária entre homens e mulheres precisamos sim incluir os homens em nossa militância, pois a meu ver, essa reconstrução de pensamento e valores e atitudes não se sustenta e não se sustentará com ação apenas de nós mulheres. Esse texto não tem intenção de falar sobre conceitos e teorias, mas sim, falar sobre uma vivência, uma experiência, que me faz refletir mais ainda sobre algo que há tempos me ocupa o pensamento e me dá o atrevimento para mexer nesse vespeiro escrevendo o que agora escrevo.
Eu tenho algumas críticas ao movimento feminista, ou, com a forma que o vejo apresentado. Considerando que estou em meu lugar de fala, me sinto à vontade em fazê-las. Uma delas é essa espécie de demonização que é feita com todos os homens. Penso que é preciso sempre, separar o joio do trigo, separar as pessoas das atitudes, separar os homens (e mulheres) do machismo. Quase sempre problematizamos uma questão quando ela nos afeta diretamente, e neste caso não é diferente, sou mãe de menino. Tenho amigos homens, vejo em muitos deles uma sincera intenção e um trabalho de desconstrução do que aprenderam a vida toda, pois sendo o machismo algo estrutural, é quase impossível fugir dele, seja você homem ou mulher. E sejamos sinceros, mesmo nós, mulheres feministas, passamos num determinado momento por essa desconstrução, e a manutenção da mesma é feita diariamente, o tempo todo.
O que tenho visto e sentido é que vivemos uma opressão não só vinda do patriarcado, do machismo, mas sim pasmem do próprio movimento feminista que nos dita o tempo todo o que devemos ou não pensar em relação aos homens. No meu entendimento, o feminismo tem mostrado uma face deturpada quando demoniza os homens, e, infelizmente essa face faz um desserviço ao que pretendemos. Da mesma forma que há homens machistas há também mulheres machistas, e da mesma forma que há mulheres lutando por uma igualdade há homens que também o fazem. Não dá para expulsar pessoas do planeta por serem machistas, misóginas, sexistas. E que não haja o engano de achar que só os homens são.
 Esse texto não tem intenção de defender nenhum homem ou mulher que tenha postura machista, nem defender qualquer pessoa nem qualquer coisa, tem apenas a intenção, talvez, de convidar a pensar esse tema por um outro viés, pois o machismo não afeta só as mulheres. O poder, seja de que forma se apresente, deturpa até as mais louváveis intenções. Não há um consenso do que seja o feminismo, ele desemboca em várias vertentes de pensamento, e minha proposta hoje aqui, não é a de trazer algum conceito ou teoria, mas, antes, propor que a gente comece a desconstruir mesmo o que já acha que sabe, o que já tem estabelecido. Que a gente possa quebrar com qualquer paradigma de pensamento pronto, e pensar mais uma vez sobre o papel de cada um nessa construção ou desconstrução de sociedade que almejamos viver um dia, pois, convenhamos, somos todos um tanto quanto idealistas, ou não tentaríamos ainda e sempre resistir ao que nos faz mal, ao que nos afeta, ao que afeta a um coletivo maior que nós.
A meu ver, a melhor forma de conseguirmos voz é através da educação, não falo só das escolas, mas também. Educar pessoas que educarão pessoas. Educar futuros professores como é o caso de meu amigo. Educar meninos e meninas sem distinção ou separação. Corrigir sim desde brincadeiras, piadas, falas, atitudes. Sair apenas do discurso e viver de fato o feminismo que busca essa igualdade entre (humanos) iguais, busca a igualdade de direitos para os gêneros. Pois quando saímos do discurso e vamos para o front, quando trazemos o feminismo para o dia a dia, humanizamos a teoria e ela começa a ser realidade. Trazemos o feminismo de uma forma que possa ser compreendido pela vizinha, pela tia da cantina, pelo motorista do Uber que nos carrega pela cidade.
Ontem, quando meu amigo me procurou com o propósito de entender mais sobre o feminismo senti necessidade de externar o que há tempos habita a minha mente. Senti necessidade, por mim, que não tenho me sentido representada de forma plena como eu ainda espero ser, senti necessidade de dizer que o feminismo não é esse estereótipo que também massifica e até oprime. Senti necessidade também por eles, porque acredito verdadeiramente que podemos desconstruir ainda mais e mais e sempre, a forma com que interagimos no mundo e fazemos valer nossos pensamentos e direitos.
Simone de Beauvoir proferiu a célebre frase de que não se nasce mulher, torna-se mulher, e deixo aqui a pergunta que tenho feito a mim mesma: e o homem, nasce homem, ou torna-se homem?
Anita Regina
Enviado por Anita Regina em 09/01/2019
Código do texto: T6547132
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Sobre a autora
Anita Regina
Curitiba - Paraná - Brasil
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