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A Fraqueza e a Morte

Os ventos uivantes balançavam as árvores fazendo-as crepitarem sombriamente neste anoitecer. A rua de paralelepípedos mal nivelados e a pouca iluminação nesta noite fria transformavam o cenário quase que em um conto de terror.
Os carros estacionados estavam sendo cobertos pelas folhas e um cachorro latia a distância, foi quando um garoto virou a esquina caminhando lentamente. Ele estava sujo e seus braços sangravam, o passo estava lento porque suas pernas estavam cansadas de suportar tantos dias a caminhar, seu cabelo esvoaçava com o vento gélido e seus olhos carregavam um enorme pesar, apesar de sua visão turvando a cada passo, mesmo assim ele pode perceber a figura encapuzada no extremo da rua mal iluminada próximo a uma praça. Seu destino já estava próximo e quando suas forças se extinguiram, o garoto se apoiou em um carro e fechou os olhos, até que a Morte se revelou próximo a ele...
— A fraqueza que hoje o assola, já foi a sua maior força, garoto! — Disse a Morte lentamente — Eu gostaria de compreender seu enorme esforço, mas a situação nunca esteve fácil de entender, não é mesmo? — Questionou
— Morte, a situação pareceu ser esquecida, pareceu estar superada. Mas novamente você está certa: a fraqueza que hoje me deixou neste estado deplorável e deprimente, antes já foi a fonte da minha força e bem-estar — respondeu o garoto fraco abrindo os olhos para ver além de seus entendimentos.
— Esta casa, esta rua e as suas memorias nunca deixaram de ser aquilo que você buscou, talvez, mas devo-lhe alertar que a sua vida está diferente agora e tu deves entender o caos que isso lhe traz sempre que insiste em acreditar que algo poderia ser feito ou mudado — disse a Morte agora conduzindo o garoto até a frente de uma casa com muros altos e um portão de ferro — Posso lhe perguntar o que lhe trouxe aqui?
— O meu coração continua batendo como sempre. O que me traz aqui é saber que eu ainda possuo o coração que não é meu e o meu está aí dentro sangrando. Posso estar sendo um tolo agora, mas nunca fui orgulhoso e eu me orgulho de ser o que sou, eu fui ferido fatalmente, mas jamais deixei de acreditar que a maldade foi responsável por destruir algo tão solido.
— Eu entendo — respondeu pensativa a Morte — As pessoas são responsáveis por suas escolhas e, também, pelas consequências que essas podem trazer. O que quero dizer: Garoto, não se sinta mal pelas escolhas de outra pessoa, não se condene. A verdade sempre aparece e cabe a cada um mudar o cenário, voltar e retroceder são sinônimas, mas podem ter um significado diferente a cada situação. Nem sempre voltar é retroceder, mas retroceder é sempre voltar. Os dois aprenderam muito e ser sincero consigo mesmo é o melhor começo, saber aceitar aquilo que é seu por direito ou o que você mereceu ter também é um ato de sabedoria. O mais sábio é aquele que admite ter errado e aprende com seu erro, mas humanos são propícios a cometer o mesmo erro novamente, talvez o destino queira algo assim.
— Você está certa. Mas hoje eu volto aqui sem retroceder, eu volto aqui porque meu coração pede e clama. Hoje eu volto aqui porque acredito ser o certo a se fazer.
— De fato, eu te admiro por isso. A fraqueza, a volta, o sentimento e o coração. Tu tens sentimentos nobres, garoto. — Disse a Morte se afastando — Novos rumos, lembra-se?
— E como poderia esquecer? — Riu o garoto com uma expressão de dor.
— O novo assusta, mas a maldade ainda existe e visita esta casa regularmente. Cuidado! Você se feriu demais em diversas ocasiões, esteja forte, pois só assim poderá mudar as coisas. Essa fraqueza nutre muito mais o inimigo, tanto de seu lado como do outro e não se esqueça: Aquilo que é verdadeiro, permanece, muitas vezes não fisicamente e, sim, no coração...

E assim, a Morte se foi deixando o garoto na rua mal iluminada e no frio do inverno. As arvores tinham parado agora e o sangue já estava seco, mas o aprendizado foi muito para sua mente perturbada. Nem sempre a vida nos reserva aquilo que sonhamos, pensou o garoto, mas muitas vezes ela lhe mostra novos rumos, novas pessoas, novas perdas e também novas conquistas. A vida não para e, infelizmente, quem é fraco tomba.

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Bruno Gandin
Enviado por Bruno Gandin em 20/11/2019
Código do texto: T6799874
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Sobre o autor
Bruno Gandin
São Paulo - São Paulo - Brasil, 32 anos
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Bruno Gandin