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Lucia, Regina ou Dulcinéia

LUCIA, REGINA, DULCINÉIA
F. W. Baumann

-Aonde vamos? Perguntei.

Ela deu de ombros: ̶  Em frente, é o caminho para a casa da minha mãe; vou visita-la.
̶  Posso acompanha-la  até lá, se quiser.
̶  Claro, pensei mesmo convida-lo.
Caminhamos um pouco mais, era um começo de tarde agradável.
̶  Eu não sei o seu nome, falei
̶ ̶   Agora as pessoas me chamam de Lucia, e eu gosto. Notei alguma indecisão na sua resposta, parecia não ter certeza do nome ou pensara esconde-lo. Achei natural.
̶  A mim chamam Gualberto, mas não gosto muito.
Estendeu-me a mão direita:
̶  Muito prazer Gualberto!
̶  Muito prazer Lucia, respondi apertando-a e prolongando o contato alguns segundos a mais. Ela tomou a iniciativa de desprende-las. Caminhávamos num parque era mesmo tudo muito agradável, a brisa, o sol, no chão caídas das árvores centenárias, bolinhas que estalavam, um barulhinho gostoso à medida que as pisávamos.
‒ Eu espero fora da casa, sua mãe não me conhece, ela pode não gostar de me receber assim, um estranho... sem aviso...
‒ Bobagem, as vezes ela nem me reconhece...Como antes sua resposta me surpreendeu, mas não quis ser invasivo e preferi não insistir.
Havia uma rua movimentada a atravessar, aproveitei a oportunidade e tornei a segurar sua mão a pretexto de ajuda-la na travessia, mas ao chegar ao outro lado ela logo a soltou.
‒ Ainda não...disse com firmeza. Achei justa sua precaução. Ainda não... É natural, pensei...Havíamos nos encontrado pouco tempo antes, apenas trocáramos olhares, enquanto estivemos separados por duas poltronas, na mesma fileira numa viagem ou numa sala de espera, não me lembro bem, e não era de se  esperar que surgisse como antiga amizade após aquele encontro casual, quando aos meus sorrisos ela sequer retribuíra.
Em pouco tempo chegamos à casa de mãe de Lucia; a distância era surpreendentemente curta, logo estávamos à sua porta, que sem bater ela empurrou e entrou.
                  Sua mãe olhou-nos de relance e não demonstrou reconhecimento ou surpresa e pareceu nem ter notado minha presença. Recebeu um beijo e um abraço de Lucia de modo frio, estática. Não disse uma palavra nem retribuiu o carinho recebido, parecia ansiosa em voltar sua atenção à tela da televisão, presa a um programa sensacionalista, um acidente com muitas mortes. Era uma senhora de meia idade, trajada de modo sóbrio, talvez um pouco antiquado, mas perfeitamente adequado.
Sobre a mesa da sala duas xícaras de chá, pão, bolo, queijo. Com certeza esperava-a para o lanche; trouxe da cozinha um bule com água quente. Esperei que ela trouxesse mais uma xícara, mas parece que, ou não percebera minha presença ou havia se esquecido de mim e Lucia se apressou a corrigir a falha. Tomamos o chá em silêncio, só Lúcia eventualmente o quebrava, a mãe parecia um pouco aflita, só tinha olhos e ouvidos para o programa da televisão; um acontecimento muito importante em curso.  Perguntei à Lucia o nome da mãe. Ela hesitou antes de responder:
‒ Acho que é Leonor. Sim é Leonor com certeza, repetiu após pensar um pouco. ‒ Tem tanto tempo que não a vejo... Eu me perguntei, “como pode esquecer o nome da mãe?”, mas acabei por convencer-me que era natural, afinal há muito tempo não a via...
A despedida na sala tabém foi um pouco estranha; como fizera ao chegar Lucia a abraçou e beijou, fez um carinho nos seus cabelos, demonstrou muita ternura mas ela não correspondeu, pareceu nem tomar conhecimento, permaneceu parada em pé sem tirar os olhos da televisão; pareceu-me tê-la ouvido chamar de Regina. Ao sairmos notei que ao tirar a mesa olhou espantada para a minha louça, como se não entendesse o porquê daquela terceira xícara. Não nos levou até a porta, que deixáramos aberta esperando-a para a despedida final, aquele conhecido adeusinho de praxe na soleira. Em vão; voltara para a poltrona, o olhar fixo na tela. Lucia voltou e fechou a porta.
̶  Ela te chamou de Regina?
̶  Não percebi, chamou?
̶  Tenho certeza!
̶  É possível, ela é distraída.
̶  Sua irmã se chama Regina? Talvez ela tenha se confundido...
̶  Não. Agora não tenho irmãos.
Achei muito estranha sua resposta, mas até podia fazer sentido, talvez tivesse perdido uma irmã, mas não quis ser invasivo e nada mais perguntei. Como tudo naquele estranho dia acabei por achar a resposta normal.
Ela me conduzia. Vamos à faculdade, avisou.
̶  Faculdade?
̶  De odontologia. Hoje é minha colação de grau, estou em cima da hora.
̶  Você se formou, é dentista? E sua mãe nem vai à formatura?
̶  Nesta não. Você é muito perguntador...brincou.
̶  Então houve outras formaturas. Em que mais você é doutora?...
̶  Algumas, mas para de perguntar coisas, eu nem me lembro de tudo, já fiz tantas coisas...
Surpreendi-me, aparentava ser tão jovem, não fazia sentido. A princípio achei que tentava me fazer de tolo, mas ela falava com tanta seriedade, parecia tão sincera, que acabei me convencendo que eu não estava entendendo direito a coisa e tive certeza de que mais tarde tudo se explicaria de forma natural pensei. Assim, andando distraído sem me dar conta que atravessava uma rua, quase fui atropelado, levei um raspão. O motorista, já um senhor, quando me viu saltou apressadamente. Parecia espantadíssimo e até assustado; procurei tranquiliza-lo, lembrava-me alguém vagamente conhecido:
̶  Não houve nada, não se preocupe, mas ele não parava de gritar, descompensado:
̶  Arthur, Arthur, não é possível, você de novo, não foi culpa minha, você sabe que não tive culpa, por que você voltou? Não tive culpa! Não tive culpa. Por que você voltou? Não me procure mais, por favor!
Notei que se referia a algo que ocorrera no passado, não àquele raspão sem importância.
̶  Não houve nada, nem me arranhou...tentei explicar.
Lucia olhava atônita para mim, sem entender e tentou comunicar-se com ele.
̶ O senhor nem chegou a esbarrar nele ela disse, não entendo o porquê de tanto nervosismo. E ele não se chama Arthur. O senhor está enganado. O motorista nem tomou conhecimento de intervenção dela. Pareceu que nem a via.
Tentei dizer que agora meu nome não era Arthur mas ele, completamente descontrolado voltou ao carro e saiu em disparada, não sem antes gritar da janela:
̶  NÃO TIVE CULPA, VOCÊ SABE BEM ARTHUR, NÃO FUI EU O CULPADO, VOCÊ ATRAVESSOU SEM OLHAR!!!
̶  Você  conhece esse senhor? Por que o chamou de Arthur? Perguntou-me atônita.
̶  Houve uma época em que me chamavam de Arthur, e esse senhor lembra vagamente alguém conhecido no passado, mas não sei bem quem é. Mas quem é o mais perguntador afinal?
Ela me deu um sorriso doce:  ̶  Desculpe, só achei estranho, ele falou com tanta convicção. Está machucado? Dessa vez foi dela a iniciativa de pegar minha mão e assim andamos alguns minutos. Aquele incidente estranhamente pareceu ter nos levado a um passado  em que , em que, em que...sei lá.
A faculdade ficava também ficava, a alguns passos, inacreditavelmente próxima. Só então me dei conta que não sabia onde estava, que cidade era aquela, não tinha uma arquitetura uniforme, as ruas tinham pavimentações diferentes. Por vezes parecia estar numa metrópole, alguns quarteirões adiante ela tinha o aspecto de uma estância serrana de turismo, logo estávamos num grande centro urbano Chegamos à ‘Faculdad de Odontologia’, como mostrava a placa.
Cada vez eu ficava mais confuso, estaria em outro país? O curioso era a sensação de que tudo aquilo fazia sentido por mais estranhas que as coisas se apresentassem, eu encarava com naturalidade todas aquelas esquisitices desde aquele momento em que nos reencontramos no parque. Senti que haveria uma explicação para todas as incongruências.
 Ela deu-me um beijo rápido na face, mandou que a esperasse no auditório e entrou rápido atrás das cortinas para vestir a beca. Das outras pessoas em torno só ouvia o espanhol e lembrei-me que ao mandar que a esperasse ela também se expressara nessa língua. Mais uma coisa inexplicável nesse dia em que todas as coisas estranhas pareciam naturais. Também desde o incidente do carro nos sentíamos mais próximos, como se entre nós houvesse algo mais profundo
A solenidade foi longa e cansativa, especialmente os discursos em espanhol, resolvemos voltar ao parque. Ao sairmos, abracei-a e ela orgulhosamente me entregou o diploma.
̶  Este diploma não é seu, até a data está errada – você não leu?
̶  Não, nem o tirei do canudo, estava ansiosa para sair logo e mostra-lo a você...
̶  Este diploma pertence a uma mulher chamada Dulcinéia e está datado de mais de trinta anos, você nem tinha nascido.
̶  Dulcinéia? Você falou Dulcinéia? Ela perguntou.
̶  Sim...é o que diz no diploma
̶  Já me chamaram assim, algum dia... ela falou pensativa.
̶  Quantos nomes você teve, ou tem?
̶  Acho que agora é Lucia o meu verdadeiro nome... E você não é também Arthur?
̶  Estou me lembrando, houve um tempo em que  me chamavam de  Heribaldo...
Andávamos devagar em direção ao parque, e atravessamos uma parte da cidade totalmente diferente, parecia termos entrado numa outra cidade muito antiga, até as pessoas se vestiam com roupas de séculos atrás. Prestei atenção no que falavam; soava como um francês arcaico que curiosamente eu entendia. Houve um momento em que fizeram uma roda em torno a nós e pareceram cantar em nossa homenagem. Olhei para Lucia - ou seria Regina ou Dulcinéia- e tomei um susto – estava vestida com roupas de festa, da mesma época, mas meu espanto foi maior quando percebi que eu também estava trajado da mesma forma. Expressei a ela a minha surpresa, e só quando ela me respondeu me dei conta que nos expressávamos naquela língua extinta e que a chamara de Dulcinéia. Embora, como antes, achasse tudo muito extraordinário, tinha certeza, haveria uma explicação bem simples para tudo aquilo, mas apressei-me a sair daquele estranho lugar, voltando o mais rapidamente possível ao parque de onde viéramos, lá encontraríamos as respostas a tudo. As pessoas nos abraçavam, cumprimentavam, faziam votos de felicidades; grãos de arroz caíram dos seus cabelos quando apressamos o passo e abraçados afastamo-nos de lá. Estávamos com pressa, descobrimos que tínhamos nos apaixonado.
De repente me vi sozinho, há pouco, caminhávamos abraçados em direção a um lugar nosso, e no instante seguinte ela sumira, o braço que momento antes a enlaçava agora estava solto no espaço vazio. Olhei em torno, não a vi em parte alguma, enxerguei um local diferente, praia deserta, o mar tranquilo. Fui até lá, a areia fofa com simpatia acolheu meus pés nus. Sentei na areia úmida, já bem perto do mar, senti-me bem ali, era natural, pensei. Cavei a areia, achei conchas, as mais bonitas guardava no bolso. Em nada mais pensava, uma imensa tranquilidade me preenchia, nada importava além da praia, do mar, das conchas...
Uma velhinha se aproximou lenta, apoiando-se num cajado cuja ponta deixava marcada uma linha irregular no chão macio. Parou a meu lado, como eu olhando as ondas. Assim ficamos por um tempo que não passou.
Achei uma concha linda, devia oferecê-la à velha; levantei-me e a ergui à altura de seus olhos. Sorriu, apenas um sorriso para tão linda concha. Era tudo natural pensei, mas aquele sorriso me lembrou alguém e descobri que meu tempo estava se esgotando, tinha urgência precisava voltar ao parque antes que fosse tarde demais.

Encontrei nosso tranquilo parque totalmente mudado; da paz anterior e da beleza nada restara. Multidões se dirigiam para lá apressadamente, e eram barrados na entrada por cordões de isolamento. Policiais, ambulâncias e carros de bombeiros entravam e saiam da área isolada com as sirenes ligadas. Equipes de TV registravam tudo. Vi focos de incêndio causados por pedaços de metal incandescente espalhados pelo mato alimentando-os. Algumas poltronas semi queimadas iguais às que nos sentáramos antes estavam caídas por ali. Era uma cena de devastação. Reconheci o local como o que vira de relance na tela da TV da mãe de minha amiga. Nesse momento tudo se tornou claro.
Ela estava na entrada, parada, desorientada, em meio à multidão. Ao me ver ganhou vida nova, e aliviada sorriu. Lembrou-me, era o sorriso que eu recebera na praia.
̶  Onde estava? Fiquei tão aflita...
̶  Na praia, falei. Notei que ela sabia do que eu falava. Naturalmente, achei.
Ultrapassamos sem dificuldade os cordões de isolamento, ninguém nos deteve, nem pareceram nos ver. Lembrei-me de tudo, dirigi-me em meio aos destroços a um local específico, que eu sabia exatamente localizar em meio ao caos em que se tornara o parque.
Uma enorme angustia invadiu meu peito e a ele estreitei com força Lucia-Regina-Dulcinéia. Ela ficou chocada e chorava incontrolavelmente. Eu finalmente sabia o que acontecera e ficou claro o porquê daquela sensação de ‘tudo natural’.
No chão, imóveis, os corpos retorcidos de um casal, em posições esdrúxulas, semi queimados, as roupas rasgadas. O homem estava abraçado ao corpo inerte da mulher, notava-se que seu último impulso tinha sido o de protegê-la.
Os bombeiros se aproximaram dos corpos, trazendo sacos plásticos pretos. Quando os colocavam nos sacos, Lucia os reconheceu e se descontrolou, passando a gritar desesperadamente:
̶  Somos nós, somos nós, ele vai me botar naquele saco preto, não deixe, eles vão me levar, vão levar a gente dentro daqueles sacos horríveis, não deixe, não deixe.
Abracei-a com mais força.
̶  Podemos partir meu amor, não precisamos mas ficar aqui!
No instante seguinte caminhávamos no nosso tranquilo parque ouvindo as bolinhas estalando sob nossos pés.
 


 
 




̶









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FWBaumann
Enviado por FWBaumann em 15/10/2019
Código do texto: T6770175
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Sobre o autor
FWBaumann
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 84 anos
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