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Sinto 11


Trouxe-me à vida o sentir. Não como projetada de um nada, mas gerada de um mistério que fixei morada, tomo-o como ponto de espera junto Dele, no aguardo do amadurecimento da afinidade, até que ele abra a porta que dá acesso à câmara interna do ser, e lá, eu seja recebida, integrada, inteirada definitivamente do que Sou.
Exauriu dentro qualquer reação de tentar arrancar-me disto. Reconheço que não tenho domínio de minha individualidade, a não ser à partir daquilo que é verdadeiro, o Sagrado nomina-me, dá-me sentido, completa-me.
Caibo nas mãos de Deus nele, dou-me por vencida, prostro diante de tamanho sentimento, diariamente, permanentemente.
É uma experiência indemonstrável, sofro a penitência de não ter palavras para expressar a graça do esplendor fulgurante; da Onipresença, da Onipotência e da Onisciência Divina de viver o ser neste Ser que encampa eu e tudo dentro. Tanto que me tornei esponja toda atrativa no sentir a realidade.
Cavalgo no enfileirado infinito de sentimentos disponíveis para a mente humana explorar, aquilo que o sacramentado que habita em mim permite conhecer, a capacidade de perscrutar os cômodos da casa, da mente humana, da selva, da relva, do zunido da abelha, do afã da criação.
Respiro com o respiro de Deus, na infantilidade do intelecto que porto, dei por sentir os órgãos que metabolizam o Espírito Supremo rumo ao perfeito; a pobreza, o seu odor, a sua feiura, a corrupção humana e sua degeneração, a decomposição do que foi criado com tanto esmero e beleza, o Homem.
Estou quando dois se tornam um, masculino e feminino no abrasivo do amor, o beijo e os lábios, a saliva e o suor, as mãos e as curvas nos toques, as inteligências se sobrepondo, completando-se, consumindo-se rumo ao nada. A frequência e o êxtase. O esvaecer das ondas.
Vivo a dor do que perde; a angústia daquele que não tem, o regozijo e a aflição do que quer sempre ganhar, o estado insaciado do avaro, a humilhação do pobre na sua miséria, a modéstia daquele que nunca quis e tem, o desprezo do insonso que não enxerga a vida na sua singeleza, e a segurança daquele que não quis ser feliz, bastando-se somente em ser um sobrevivente, a paz do traidor no jogo depois do golpe da traição, o conforto do perverso que convenceu o bem e o mal no duelo a mudar a rota e a estratégia da guerra para se beneficiar, a angústia da humanidade de ser dependente daquele que a criou, o cansaço do intelectual em manter-se no niilismo, na condição de cético, adepto ao ateísmo, negando o mistério, este que me possui na aceitação e amor.
Tornei-me elástica agregada à orquestra da criação. Acompanho a melodia par e passo, serenamente, compartilhadamente, intocavelmente. O peso de tudo dentro resume-se na insustentável leveza do bastar junto ao Sagrado, que me conforta, me rega e dá crescimento, mantendo minha lucidez para sempre confirmá-lo, aceitá-lo, querê-lo, venerá-lo.
C.Jung disse que não cria em Deus, sentia-O. Rondo este sentimento, perscruto ele tentando buscar semelhanças de sensação. Resta-me sentir Una a Jung.
Compreendo-o, coloco-o de propósito em meu Divã, não o encontro. Passo ser paciente também.
Sinto Deus.
Márcia Maria Anaga
Enviado por Márcia Maria Anaga em 19/08/2019
Código do texto: T6724368
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Márcia Maria Anaga
Ribeirão Preto - São Paulo - Brasil, 43 anos
577 textos (6607 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 20/09/19 02:12)
Márcia Maria Anaga