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O intocável do pensamento

Olho o final de mais um dia. Mais um, entre tantos que passaram. Menos um, de todos que se perderam. Um pouco distante daqueles que não aconteceram. Não sei bem onde estou enquanto o mundo acontece. Sei apenas que não estou longe ou do lado de fora do mesmo amor perdido. Não sei bem onde estou enquanto o mundo se apressa. Quem sabe, atravessando a rua antes do sinal vermelho. Olho este fim do dia como quem olha para o fim de si mesmo. Secretamente, sinto admiração pelo que vem à mente: uma multiplicação de palavras, vozes, ordens e desencantos. Tudo no universo particular e intocável do pensamento. Ando, como se não existissem momentos, nada que seja possível carregar, mesmo que em silêncio, quem sabe, por amor. Apenas ando e nada, a partir do fim. Pode ser lembrança, um simples despertar ausente. Alguns sentimentos perdidos, perdidos como eu, que ando no apenas. Não existo, nem sou livre para falar de amor. Outra vida talvez me negasse redenção. Mas esta me aceita, me convida e seduz. Rumo ao que realmente sou: longe de reis e rainhas e planos guardados em paredes de tinta fresca. Longe do que ainda faz falta. Sou. Apenas. Encontro pessoas perdidas entre ruas e pessoas. Perguntam por mim, como se pudessem me ver. Eis um momento em que sou capaz de ser abrigo e fuga. Porque, olhando para mim, elas fingem saber o que, olhando para elas, eu finjo sentir. E o olhar se perde. Perdido. Apenas. Observo o caminho sereno. Imaginando que a qualquer momento possa me perder. Mais um engano disfarçado de vitória. Outra tentativa inútil de voltar da morte. Quero acreditar que não exista, de fato, o lado bom do amor que procuro. Não faz mais do que simples sentido culpar o pobre coração que sente pelo mal que arde em silêncio no escuro. Se o próximo passo me levar à porta, será questão de vida ignorar o outro lado. Mas, se não for para reabrir a cicatriz exposta, vale mais a dor da ferida com que já me acostumei. O belo, o novo e o velho seduzir. Palavra por palavra, outro não querer. Culpado de si mesmo, só por existir. Quero acreditar que já não vive, de fato, o lado ausente do amor impuro. Não é mais do que simples coração ferido gostar desse mal onde tanto de mim é abençoado. Além do mesmo amor, por tudo e todos, vencido. Além do mais, para sempre consumado.
Agito Crase
Enviado por Agito Crase em 11/07/2018
Código do texto: T6387566
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Agito Crase
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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Agito Crase