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ÁGUAS DE VERÃO...

 
Chegou o verão
e eu desci a escada do porão.
Descobri que ele estava quase vazio,
então senti um arrepio...
É que tentei tirar de lá velhos baús
cheios de sedas e de fru-frus...
Eu me cansei de seus mistérios.
Já não bastam os sidéreos?
Havia tanto escondido na penumbra
mas que às vezes me deslumbra
com seu cheiro de tempo e mofo.
Foi por isso que tentei esvaziar esse cafofo.
Tirar essa ilusão de tudo eternizado
nas quinquilharias do passado:
um velho espelho, um velho livro,
um velho vestido em rendas de bilro...
Porque temos essa mania
de guardar velhas coisas de algum dia?
Não bastam os espelhos tão nítidos de agora?
Mas não, é preciso mirar-se nos velhos espelhos de
                                                                           [outrora;
é preciso iludir-se que o tempo não passou
porque uma superfície manchada o sulco suavizou...
Não bastam os livros de agora, tão digitais?
Mas não, é preciso entrar pelas portas de papel, esses   
                                                                                [anais...
É preciso iludir-se que essas viagens dão mais prazer
porque uma página amarelada tem tanto pra dizer!...
 
Não basta uma calça Jeans desbotada,
uma camiseta e uma rasteirinha atada?
Mas não, é preciso iludir-se com as velhas musselinas
porque lembram aquelas noites tão finas!
Foi por isso que tentei esvaziar o porão
embora o tivesse tentado em vão...
Porque a sátira das velhas lembranças
ainda ardem e apagam e ferem feito lanças...
Penso que o passado vive dentro do presente
e quando mais o tocamos mais se sente...
É como se cobrasse uma dívida
por ter deixado essas velhas coisas pelos cantos
[diluídas...
São tantas as cicatrizes ainda vivas
e a saudade que de viver me priva!...
Eu não queria estar aqui nesse porão,
mas retornei para rever a minha ilusão...
Descobri que as lembranças não se desintegram assim
e que não é fácil por a tudo um fim...
Eu quero mesmo quebrar o velho espelho?
Se são com essas velhas imagens que me aconselho...
Quero também o velho livro fechar
e as velhas histórias apagar?...
Será que preciso mesmo rasgar o velho vestido
ainda que minhas antigas formas seja algo perdido?...
Não, penso que não quero esvaziar o porão
ainda que passem as águas de verão...
 
 
 
 


     ( Imagem: google)
Sonia de Fátima Machado Silva
Enviado por Sonia de Fátima Machado Silva em 13/03/2015
Código do texto: T5168276
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre a autora
Sonia de Fátima Machado Silva
Coromandel - Minas Gerais - Brasil, 57 anos
1341 textos (58332 leituras)
13 áudios (689 audições)
2 e-livros (150 leituras)
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Sonia de Fátima Machado Silva

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