Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Bibelô de recordações

Pendurei-a em mural de lembrança numa parede do quarto.

E seu quadro era como uma mariposa lançada à chama…

Drummond entenderia: – como dói!

Da primeira vez que a vi, eu nem daqui era.

Vagueava entre os infinitos sóis e estrelas.

Estava muito ao longe… muito ao longe a vi cintilar no rastro de uma estrela errante qualquer.

E guardei-a, bibelô de lembranças, na memória.

Depois esqueci.

Depois eu era superfície, pura inorgacidade; fui monstro marinho, larva, inseto, cão, menino brincando na rua.

Ela… devia estar entre a relva, tornando-se borboleta efêmera em seu sono; menina independente, altiva e solitária.

Devo de ter cortado a cabeça de algum rei – Deus meu! –, porque logo depois vi rolar a minha própria naquele infinito segundo antes de acordar.

Devo, sabe-se lá, numa querela de cangaceiro e latifúndio, ter-lhe desviado o caminho reto, e ter sido enterrado vivo, cabeça de fora, ao sol quente da Paraíba – nosso drama shakespeariano no interior do sertão.

E ela deve de ter, campesina, se vingado do meu crime apunhalando em meu peito o ressentimento de todos os corações traídos; eu era Marat.

Fui Moreno europeu e ela Iracema sublimada.

Fui Santo Padre, repleto de pecados, e ela plebeia com suas ervas e chás; chamei-a de bruxa, e a inquiri.

Teci fios a seu lado numa fábrica inglesa.

Chamei-a de camarada quando éramos russas e nem o inverno arrefecia a quentura dos corações inflamados.

Tombei, ao fim, na solidão de um quarto como se fora Lilya Brik já envelhecida.

Mas foi por esses dias, lendo-lhe sobre Ismália, que seus olhos me redimiram a multidão dos erros humanos.
Antônio Vicente
Enviado por Antônio Vicente em 29/08/2019
Código do texto: T6731995
Classificação de conteúdo: seguro
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Antônio Vicente
Fortaleza - Ceará - Brasil, 31 anos
13 textos (322 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 19/10/19 18:48)
Antônio Vicente